Pequi sem espinhos desenvolvido em Goiás permite comer o fruto de um jeito que muita gente aprendeu a evitar

Depois de décadas de pesquisa, novas variedades mudaram uma característica responsável por um dos alertas mais conhecidos da culinária goiana

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
pequi aberto
(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Quem cresceu em Goiás provavelmente ouviu uma recomendação antes mesmo de aprender a apreciar um dos sabores mais característicos do Cerrado: pequi não se morde.

O motivo está escondido logo abaixo da polpa amarela. No fruto tradicional, o caroço é revestido por uma camada cheia de pequenos espinhos capazes de provocar acidentes dolorosos na boca de quem tenta mastigá-lo como uma fruta comum.

Mas uma pesquisa conduzida em Goiás conseguiu mudar justamente essa característica.

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Em parceria, a Emater Goiás e a Embrapa Cerrados desenvolveram e lançaram três cultivares de pequizeiro cujo endocarpo, a parte popularmente chamada de caroço, não apresenta os tradicionais espinhos. São elas GOBRS 101, GOBRS 102 e GOBRS 103.

O resultado mexe diretamente com um hábito tão conhecido que o motivo de o pequi tradicional não poder ser mordido já virou uma das curiosidades mais características da culinária goiana.

Pesquisa levou décadas

As variedades não surgiram de uma modificação feita de uma hora para outra.

O trabalho de Emater e Embrapa envolveu 25 anos de seleção, avaliação e multiplicação de plantas, até chegar às seis cultivares lançadas oficialmente em 2022, três sem espinhos e três com espinhos.

A pesquisa partiu da existência de pequizeiros encontrados na natureza com características diferentes das plantas convencionais.

Esses materiais foram estudados, clonados e avaliados por sucessivas safras. Atualmente, o banco de germoplasma mantido pela Emater reúne mais de 1.600 pequizeiros, distribuídos também por unidades de pesquisa em Goiânia, Anápolis, Porangatu e Araçu.

Foi desse processo que surgiram cultivares como a GOBRS 101, cujo caroço tem superfície lisa e sem espinhos.

Segundo a documentação técnica da Embrapa, a variedade apresenta polpa amarela, firme e de sabor considerado suave, além de maturação concentrada principalmente em dezembro.

O que muda na hora de comer

A ausência dos espinhos elimina o principal risco associado à mordida acidental no caroço.

Em outras palavras, desaparece aquela camada de pequenas estruturas pontiagudas escondida abaixo da polpa, responsável pelo conhecido cuidado de raspar o fruto com os dentes sem pressioná-lo.

A Embrapa destaca que essa característica também facilita a retirada da polpa e o acesso à amêndoa, o que abre possibilidades para processamento e aproveitamento comercial do fruto.

Isso não significa que todos os pequis encontrados em feiras e supermercados tenham mudado. As variedades tradicionais continuam existindo e permanecem com os espinhos característicos.

Por isso, ninguém deve simplesmente começar a morder qualquer pequi acreditando que se trata de uma cultivar sem espinhos. É necessário saber a procedência e identificar corretamente a variedade.

As primeiras mudas das novas cultivares foram destinadas a viveiristas multiplicadores e agricultores familiares. A Emater também passou a receber manifestações de interesse pela aquisição das plantas, diante de uma procura superior à capacidade imediata de atendimento registrada inicialmente.

A novidade surge em um estado no qual o fruto continua tendo forte peso cultural e econômico. Goiás chegou a ocupar a posição de segundo maior produtor de pequi do Brasil.

Depois de décadas em que “não morda o pequi” virou praticamente uma regra passada entre gerações, a pesquisa goiana criou uma exceção bastante incomum: um fruto desenvolvido justamente para retirar aquilo que tornou esse conselho necessário.

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Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.