Cavernas de aproximadamente 620 milhões de anos escondem rios de águas mornas em Goiás

Sob o Cerrado, cursos d’água desaparecem entre paredões, atravessam salões gigantes e reaparecem quilômetros depois em um dos maiores complexos subterrâneos do continente

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
Caverna Parque Estadual de Terra Ronca
(Foto: Reprodução)

No Nordeste goiano, rios que correm pela superfície simplesmente desaparecem diante de enormes paredões de calcário. A água entra por aberturas escuras, atravessa quilômetros pelo subterrâneo e, em alguns casos, volta a aparecer do outro lado da montanha.

Esse cenário fica no Parque Estadual de Terra Ronca, entre São Domingos e Guarani de Goiás, uma área protegida de aproximadamente 57 mil hectares que abriga um dos mais importantes conjuntos de cavernas da América do Sul.

A Goiás Turismo descreve as grutas da região como formações associadas a rochas com cerca de 620 milhões de anos, banhadas por águas límpidas e mornas.

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O número, porém, precisa ser entendido corretamente. Quando fontes oficiais falam em 620 milhões de anos, a referência é à formação geológica do complexo e das rochas onde as cavernas se desenvolveram, e não à idade exata de cada salão, estalactite ou passagem que o visitante vê atualmente.

Rios ajudaram a escavar as cavernas

rio no meio da caverna

(Foto: Reprodução)

Terra Ronca é resultado de um processo que combina rocha calcária, água e um intervalo de tempo difícil de imaginar em escala humana.

A água da chuva penetra no solo e reage com o dióxido de carbono, tornando-se levemente ácida. Ao encontrar rochas carbonáticas, começa lentamente a dissolvê-las. Pequenas fissuras aumentam, transformam-se em passagens e, ao longo de períodos geológicos, podem originar galerias e salões enormes.

O processo continua até hoje. A região possui uma rede de drenagem extensa, com rios e córregos que nascem próximos à Serra Geral de Goiás e passam pelo subterrâneo em diferentes trechos. Entre eles estão os rios Angélica, São Vicente, São Bernardo e da Lapa.

É justamente o Rio da Lapa que atravessa a famosa Caverna Terra Ronca. Durante períodos de maior vazão, o som da água ecoa dentro da cavidade e ajuda a explicar o nome pelo qual o complexo ficou conhecido.

Essa relação entre rios e cavernas também aparece em outra curiosidade da região: o sistema subterrâneo onde vive o peixe Ituglanis ramiroi, espécie adaptada à escuridão e encontrada em Terra Ronca.

Ituglanis

(Foto: Reprodução)

Água entra de um lado e pode reaparecer depois

Uma das cenas mais impressionantes do parque acontece justamente nas entradas das cavernas. O visitante acompanha um rio em céu aberto até o ponto em que ele encontra o maciço rochoso e passa a correr sob a terra.

Depois de atravessar galerias e desníveis, a água pode ressurgir novamente na superfície.

Não é apenas um detalhe visual. É esse movimento que continua alterando lentamente as cavidades, transportando sedimentos e ajudando a criar novas formas no interior das rochas.

Além dos rios subterrâneos, há cachoeiras, piscinas naturais, praias de areia e passagens estreitas que desembocam em salões de grandes proporções. A Goiás Turismo descreve justamente essa combinação como uma das características mais marcantes de São Domingos.

Já foi mostrado também que a região abriga um sistema considerado pelo Governo de Goiás como o maior rio subterrâneo da América Latina.

Estalactites continuam crescendo gota a gota

Depois que uma cavidade se forma, começa outro processo.

A água infiltrada pelo teto carrega minerais dissolvidos. Quando uma gota entra em contato com o ar da caverna, parte desses minerais pode se depositar.

No teto surgem as estalactites. No chão, onde as gotas caem, crescem as estalagmites. Quando as duas estruturas se encontram, podem formar uma coluna.

O Ministério do Turismo explica que essas formações, chamadas genericamente de espeleotemas, levam milhares de anos para adquirir dimensões maiores. Em Terra Ronca, aparecem ainda cortinas, represas naturais, canudos, pérolas de caverna e outras formas criadas pelo mesmo processo mineral.

Essa lentidão ajuda a entender por que tocar ou quebrar um pequeno pedaço não é um dano banal. Uma estrutura aparentemente simples pode representar centenas ou milhares de anos de crescimento.

Complexo tem mais de mil cavidades

O número de cavernas existentes na região é outro ponto que chama atenção.

O Governo de Goiás informa que o complexo de Terra Ronca possui mais de mil cavidades subterrâneas, muitas delas ainda não estudadas em profundidade. Cerca de 40 haviam sido exploradas cientificamente e mapeadas nas referências oficiais usadas pelo parque.

Esse volume coloca o local entre as áreas espeleológicas mais importantes do continente.

As cavernas também funcionam como ambientes de pesquisa. Depósitos minerais preservados em seu interior podem guardar informações sobre variações de temperatura e umidade ocorridas no passado, ajudando pesquisadores a reconstruir mudanças climáticas de períodos muito anteriores aos registros meteorológicos modernos.

Além disso, a escuridão permanente criou condições para espécies altamente especializadas, algumas com redução dos olhos e da pigmentação.

Nem todas as cavernas estão abertas ao público

Ter mais de mil cavidades não significa que todas possam ser visitadas.

A página atual da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável lista como abertas ao uso público as cavernas Terra Ronca I e II, Angélica, São Bernardo e São Mateus.

Outra página oficial do parque, atualizada em período posterior e ligada ao novo plano de manejo espeleológico, informa que existem dez cavernas liberadas para visitação, sempre acompanhadas por guias locais. A diferença entre as páginas mostra que as regras estão em processo de atualização e, por isso, a relação de cavidades disponíveis deve ser confirmada com a administração antes da viagem.

O parque também alerta que algumas rotas têm nível avançado de dificuldade e não são indicadas para todo o público.

Guia é obrigatório para entrar nas cavernas

As regras gerais de visitação estabelecem que os grupos devem estar acompanhados por condutor credenciado pelo parque. Cada visitante precisa levar lanterna com baterias reservas, usar capacete específico e calçado fechado antiderrapante.

Também é recomendado usar roupas adequadas para caminhada em ambiente úmido e irregular. Dentro das cavernas, o grupo precisa permanecer unido, sem dispersão.

O horário oficial informado pela Semad é das 8h às 17h no período normal. Como regras específicas variam de acordo com cada cavidade, condições de chuva, vazão dos rios e manutenção podem alterar o acesso.

Esse cuidado é especialmente importante em Terra Ronca porque boa parte da experiência envolve justamente caminhar próximo ou dentro de cursos d’água. Uma chuva distante pode modificar rapidamente o nível de alguns rios subterrâneos.

Águas são descritas como límpidas e mornas

Outro detalhe pouco esperado para quem imagina cavernas como ambientes necessariamente gelados é a temperatura da água.

A Goiás Turismo descreve os rios e cursos d’água de Terra Ronca como límpidos e mornos. A expressão aparece em materiais oficiais sobre São Domingos e o complexo.

Isso não significa que toda caverna ou rio mantenha uma única temperatura fixa. A sensação varia conforme época do ano, volume de água, profundidade, exposição solar antes de entrar no subterrâneo e características específicas de cada trecho.

Ainda assim, a combinação entre águas relativamente agradáveis, grandes salões e entradas iluminadas pelo sol cria algumas das imagens mais conhecidas do parque.

O Parque Estadual de Terra Ronca também chama atenção pela quantidade de cavernas, rios e paisagens subterrâneas reunidas em uma mesma área protegida.

Guias conhecem um ambiente que muda com a água

O trabalho dos condutores locais vai muito além de indicar o caminho.

São eles que acompanham condições dos rios, conhecem bifurcações, identificam trechos de maior dificuldade e ajudam a interpretar o patrimônio geológico e biológico para os visitantes.

Esse conhecimento ganha importância porque uma mesma rota pode apresentar condições diferentes em épocas distintas. Na estação seca, o nível de determinados cursos d’água diminui. Durante a temporada chuvosa, passagens podem ficar mais difíceis ou até inviáveis.

Por isso, a recomendação oficial de contratar condutor credenciado não é apenas uma formalidade turística. É uma medida de segurança em um ambiente natural onde iluminação, piso, água e acesso podem mudar.

Mais de meio bilhão de anos depois da formação das rochas que deram origem ao complexo, a água continua fazendo o mesmo trabalho que ajudou a criar Terra Ronca.

Ela desaparece sob o Cerrado, percorre salões escuros, deposita minerais gota a gota e volta à superfície, deixando escondido em Goiás um sistema subterrâneo que continua sendo moldado até hoje.

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Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.