Queijo de origem italiana virou tradição de 80 anos em cinco cidades de Goiás

Moldado à mão e pendurado para secar, ele se tornou símbolo do Araguaia e mantém famílias ligadas a uma tradição de cerca de oito décadas

Angelina de Paula Angelina de Paula -
Queijo de origem italiana virou tradição de 80 anos em cinco cidades de Goiás
(Foto: Reprodução/Nivaldo Ferr/Emater)

À primeira vista, o formato chama mais atenção do que qualquer outra característica. Arredondado na base, mais estreito na parte superior e pendurado durante a secagem, o queijo cabacinha virou uma das marcas gastronômicas do sudoeste de Goiás.

A tradição está presente principalmente nas cidades de Santa Rita do Araguaia, Mineiros, Portelândia, Doverlândia e Perolândia.

Segundo a Secretaria de Estado da Cultura, a receita tem origem italiana e é produzida na região há cerca de 80 anos, atravessando gerações de famílias rurais.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

O formato nasce durante a produção

O cabacinha pertence ao grupo dos queijos de massa filada. Depois que a massa atinge o ponto correto de acidez, ela entra em contato com água quente e ganha elasticidade.

Em seguida, o produtor estica, molda e amarra a peça, que fica pendurada para secar. É justamente essa etapa que dá ao queijo o formato semelhante a uma cabaça.

A técnica lembra a de queijos italianos como o caciocavallo, também produzido com massa filada e tradicionalmente suspenso durante a maturação.

Em Goiás, porém, o método ganhou características próprias e passou a fazer parte da cultura alimentar da região do Araguaia.

Tradição que continua nas famílias

Em Santa Rita do Araguaia, Maria Miriam e Wilson Felipe estão entre os produtores que mantêm a técnica.

Em 2025, o casal conduziu uma oficina na Tecnoshow Comigo e mostrou todas as etapas da fabricação.

Segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), eles produziam cerca de 28 unidades por dia, e a atividade representava a principal fonte de renda da família.

Em Mineiros, a Queijaria Bom Jardim também ajuda a preservar a tradição.

A produtora Elaneida Celestina de Souza Resende trabalha ao lado do marido e dos dois filhos e mantém o cabacinha entre os produtos da agroindústria familiar.

Ainda assim, não há hoje um levantamento público atualizado que informe quantos produtores de queijo cabacinha permanecem ativos nos cinco municípios.

Por isso, números antigos não permitem estimar com segurança o tamanho atual da cadeia produtiva.

Produção e resultado do queijo cabacinha. (Foto: Reprodução/Nivaldo Ferr/Emater)

Reconhecimento cultural e tentativa de indicação geográfica

O queijo cabacinha recebeu reconhecimento como patrimônio cultural de Goiás por meio da Lei estadual nº 20.963, de 2021.

Além do valor simbólico, produtores e entidades passaram a buscar uma Indicação Geográfica (IG) para fortalecer a identidade e a comercialização do produto.

O pedido “Região do Araguaia” foi protocolado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em novembro de 2024 e abrangia cinco municípios goianos e cinco mato-grossenses.

Durante a análise, o instituto pediu documentos que comprovassem que o nome “Araguaia”, considerando toda a área delimitada, era reconhecido como centro produtor do queijo.

Na última terça-feira (13), porém, o INPI publicou o indeferimento do pedido.

A decisão não impede a continuidade da produção nem altera o reconhecimento cultural já existente em Goiás.

Assim, mesmo sem a IG o cabacinha continua ligado à história das famílias rurais do Araguaia.

O formato peculiar, a produção artesanal e a transmissão do conhecimento entre gerações ajudam a explicar por que uma técnica de raízes italianas acabou ganhando identidade própria no interior goiano.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Angelina de Paula

Angelina de Paula

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.