Como explicar o fenômeno evangélico-político bolsonarista?
Vale a lembrança: “O nome de Jesus na boca não santifica o ódio que habita o coração”

Evangélicos desejando demissão em massa de eleitores da esquerda. Alguns insinuando coisa pior e um cristão católico postando que: “se colocar (petistas e eleitores do Lula) tudo num saco e jogar no rio, o prejuízo é a perda do saco”.
Por que tantos cristãos embarcaram nesse extremismo? Por que os seguidores do “Príncipe da Paz” abandonaram sua mensagem de reconciliação e de bem-aventuranças?
Teria sido pelos mesmos motivos que a Igreja primitiva abandonou Jesus e aderiu a César e ao Império Romano? Teria sido pela sedução do poder?
O real é a síntese de muitas determinações.
Mas um dos pilares dessa triste realidade está na “Teologia do Domínio”, que se misturou ao ativismo político da direita cristã, desenvolvido por grupos de cristãos nos Estados Unidos desde os anos 1970 e importado para o Brasil por pastores e denominações evangélicas.
De acordo com esses grupos:
“Os cristãos têm uma obrigação, um mandato, uma santa responsabilidade de recuperar a terra para Jesus Cristo – de ter domínio nas estruturas civis, tal como em todos os outros aspectos da vida e da religiosidade (…) é o domínio que buscamos. Não apenas uma voz (…) a política cristã tem como objetivo principal a conquista da terra – dos homens, das famílias, das instituições, das burocracias, dos tribunais e dos governos, para o Reino de Cristo.”
Se você leu com atenção o que eles disseram, deve ter a dimensão do perigo desse radicalismo.
Eles apregoam também uma “Batalha Espiritual” contra os demônios que “querem controlar não só os indivíduos, mas também a estrutura da sociedade”. Políticos de esquerda são demônios, acrescentam sem nenhum pudor.
É um processo de desumanização.
Desenvolveu-se no Brasil uma direita de matriz religiosa cristã. Eles “identificam inimigos por todo lado, incluindo pessoas e grupos religiosos, movimentos, instituições e políticos progressistas.
Vemos uma enxurrada de frases estereotipadas, desinformações e fake news que mantêm sob cabresto aqueles que, até inconscientemente, não querem saber da realidade, porque o próprio saber assume um tom subversivo.
É uma lógica que produz divisões, sustenta diferenças, oprime e busca controlar as massas.
Com base nessa lógica de “domínio cristão”, alimenta-se a promessa de implantar uma “civilização cristã” que solucionará todas as crises mundiais.
Os nacionalistas cristãos gritaram: “Deus, Pátria e Família”. Mas que Deus é esse que despreza o próximo e exige que o odiemos? A pátria deles exclui quem tem fome. A família é aquela que ensina as crianças a xingar e odiar os outros.
Vale a lembrança: “O nome de Jesus na boca não santifica o ódio que habita o coração”.
Os cristãos podem e devem ter convicções políticas, mas devem também ter consciência política e saber que as suas convicções não são mandamentos divinos.
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