A última lição de JK
JK permanece vivo no legado inapagável de suas realizações políticas

O ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi morto pela ditadura militar em 1976. Essa foi a conclusão da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), em maio último. Após analisar cerca de cinco mil páginas de documentos, a comissão concluiu que o acidente sofrido por JK, a bordo de um automóvel Opala na Rodovia Presidente Dutra, foi, na verdade, um assassinato planejado e executado por agentes da ditadura militar.
Mineiro de Diamantina (MG), filho do caixeiro viajante João César de Oliviera e da professora primária Júlia Kubitschek, de ascendência tcheca, JK ficou órfão de pai aos três anos de idade. Sua mãe não quis se casar novamente e passou a cuidar dos filhos Juscelino e Maria da Conceição. A única renda da família era o salário de professora.
Tempos difíceis, de uma experiência de “escassez”, que JK recordaria mais tarde:
“Nossas refeições nunca tinham sido variadas e fartas, ao contrário. Entretanto, de súbito, elas haviam se tornado mais frugais. Meu apetite de menino em crescimento levou-me a fazer alguma reclamação. Meu prato passou a vir bem cheio, mas o de minha mãe tornou-se mais escasso, quando não era, até, substituído por uma xícara de café-com-leite. Para evitar maior embaraço, ela explicava: “Preciso fazer regime. Dar aulas com o estômago cheio provoca-me dores de cabeça”.
JK Estudou no Seminário diocesano de Diamantina (MG) usou batina e se submeteu aos rigores dos estudos impostos pelos padres e irmãos vicentinos. Em 1919, foi trabalhar nos Correios em Belo Horizonte. Aprovado no vestibular para o curso de medicina (UFMG), formou-se em 1927 e depois completou seus estudos em Paris.
Exerceu a medicina por alguns anos e em 1933 entrou para a política e compôs o governo do interventor de Minas Gerais. Foi deputado federal, prefeito de Belo Horizonte e governador antes de se tornar presidente da República.
Sem emitir juízo de valor vale recordar alguns aspectos destacados pelo historiador R. Maranhão: Imortalizado pela construção de Brasília, JK governou sob o lema de fazer o Brasil avançar “cinquenta anos em cinco” por meio do Plano de Metas. Adotou uma política econômica desenvolvimentista, investindo fortemente na indústria automobilística e em setores estratégicos, como siderurgia, petróleo e ampliação da malha rodoviária. Incentivou o investimento privado, abriu portas ao capital estrangeiro e integrou o Brasil ao projeto do capitalismo monopolista internacional.
JK era hábil em se relacionar com as “massas”, que o chamava carinhosamente pelo apelido de “Nonô”. Agiu como “um burguês democrata, num país onde a burguesia sempre se caracterizou pela repulsa à democracia”.
Depois do golpe de 1964 Juscelino fez um acordo com os militares: apoiar o General Castelo Branco até ele terminar o mandato do presidente deposto João Goulart. O compromisso, porém, não impediu a cassação do seu mandato de senador. Foi humilhado publicamente, acusado de “corrupção” e de “colaboração com comunistas”, sendo em seguida exilado.
A ditadura não se contentou em afastá-lo da vida política. Anos depois, também lhe tiraria a própria vida. No entanto, JK permanece vivo no legado inapagável de suas realizações políticas. A conclusão inevitável, a última lição de sua vida: ditadura, nunca mais.

(Foto: Reprodução)
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