Somos comunidade e não condomínio fechado
A forma mais eficaz de resistir a qualquer processo de colonização cultural é lembrar que a nossa casa tem alpendre e café quentinho

Recebi um convite de aniversário com o lembrete, “save the date”. Mesmo com o meu inglês ordinário, eu entendi que era para reservar aquela data.
Até aí, tudo bem. Mas me perguntei: por que não escrever simplesmente “salve esta data”? Eu sei que o aniversário não é meu e o aniversariante escreve como melhor lhe parecer. No entanto, a frequência com que os estrangeirismos vêm sendo incorporados ao nosso cotidiano pode significar algo mais sério.
Vejamos: presidente ou diretor executivo de uma empresa agora é CEO (Chief Executive Officer); sistema de entrega virou delivery; pausa para o café é coffee break; notícia falsa é fake news; revelação antecipada é spoiler; e até mesmo a igreja, para alguns, virou church. São palavras repetidas à exaustão, promovidas ao hit parade dos supostos cases de sucesso.
A cultura pode ser utilizada como instrumento de dominação? Ela pode atuar em paralelo ao poder econômico e até à força militar? Crescemos assistindo a filmes, ouvindo músicas e vendo propagandas que difundiam padrões de comportamento associados ao modo de vida norte-americano. Será que, por isso, passamos a incorporar hábitos e costumes desse estilo de vida? Será que esse processo pode nos conduzir ao esquecimento — ou mesmo ao desprezo — das nossas tradições culturais e, consequentemente, ao enfraquecimento da nossa identidade?
O assunto é complexo. Constato que existe na sociedade um certo “prestígio” social em falar inglês ou recorrer a expressões norte-americanos. Some-se a isso um eficiente marketing linguístico, segundo o qual nomes em inglês conferem modernidade e atraem clientes.
Existe uma profunda relação entre língua e identidade, entre cultura e formação crítica, entre colonização cultural e submissão simbólica. A língua é um dos nossos maiores patrimônios. Nossas tradições e festas populares têm enorme valor; a cultura brasileira é riquíssima, tanto em seu patrimônio material quanto imaterial; nossas novelas marcaram gerações com narrativas inesquecíveis, como Roque Santeiro, O Astro e Pecado Capital; Machado de Assis é um dos grandes nomes da literatura mundial; Milton Nascimento é feito de mil tons; e Chico… bem, Chico é Buarque — e isso basta.
É verdade que o contato entre culturas sempre ocorre em mão dupla. Não somos consumidores passivos de qualquer influência estrangeira. Nenhum povo o é. Modificamos, adaptamos, reinterpretamos e damos novos sabores ao que chega à nossa cozinha. Em outras palavras, abrasileiramos aquilo que recebemos.
O problema surge quando, diante dessa suposta invasão cultural, passamos a considerar como únicos modelos válidos de educação, cultura e organização social aqueles baseados exclusivamente na lógica empresarial, capitalista e mercadológica praticada nos Estados Unidos.
A forma mais eficaz de resistir a qualquer processo de colonização cultural é lembrar que a nossa casa tem alpendre e café quentinho; que a nossa história tem raízes indígenas, africanas e europeias, embaladas por muito batuque; que, em vez do Halloween, temos o Saci, a Mula sem Cabeça, o Curupira e tantas outras figuras do nosso imaginário popular.
Que o Brasil permaneça sendo um país de encontros e de convivência. Não um grande condomínio fechado, mas uma comunidade onde a diversidade, a solidariedade e a cultura compartilhada sejam sempre maiores do que os muros e as guaritas que tentam nos separar.
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