Estamos vivendo tempos difíceis?
A pergunta mais importante talvez seja outra: o que estamos fazendo com a nossa esperança em tempos difíceis?

Você é otimista ou pessimista?
Eu não sou pessimista. Não vejo o futuro com os olhos nublados, com pensamentos sombrios ou apavorantes, como se a vida me mostra-se uma tragédia iminente. Mas também não sou otimista. Olho para a história e vejo as barbáries cometidas, a estupidez humana, o desamor, os mesmos erros repetidos há séculos e a mesma velha ganância.
Recentemente, li uma reflexão que foi uma hierofania — “revelação”, algo de sagrado que se manifestou. Veio na forma de um texto vivificante, que conquistou minha mente e desceu ao coração, encontrando ali morada. Era de um padre católico, Tomáš Halík. No texto ele sugeriu que melhor do que ser otimista, é ser cheio de esperança.
Ele argumentou que o otimismo é a suposição de que ‘tudo ficará bem’, e a esperança, por sua vez, é uma força capaz de nos sustentar mesmo quando essa suposição é desmascarada como uma ilusão. A vida é cheia de paradoxos, cheia de contradições. E é justamente a esperança que nos torna resistentes diante das dores e das frustrações.
Existe, porém, uma espécie de “crença fácil” sendo oferecida o tempo todo.
Alguns exemplos: “Vote no candidato “Y” e ele, mesmo sem apresentar políticas públicas coerentes, resolverá todos os problemas do país”; “Compareça no templo da igreja “X”, participe da corrente dos milagres e ‘receba’ a solução dos seus problemas financeiros, ou de saúde, ou amorosos”.
A crença fácil é uma doença contagiosa. E estamos há tanto tempo expostos a essa “crença” que já não percebemos o quanto estamos “cheios de fé” — ou, talvez, cheios de uma credulidade que embota a razão e a religião.
Tomáš Halík nos conta que um velho e experiente monge disse a um noviço que havia chegado ao mosteiro:
“- Vieste aqui não para adquirir algo, mas para te libertares de muitas coisas”.
Talvez exista aí uma profunda lição para nós.
Estamos sempre cheios de respostas, de ideologias, de certezas, de explicações prontas. As crenças fáceis ocupam todos os espaços do coração e acabam nos enchendo de credulidade. Temos tantas respostas que já não conseguimos fazer perguntas. Temos tantas certezas que já não sabemos conviver com o mistério.
A história de Jesus com os discípulos que fracassaram diante de um jovem que eles não conseguiram curar revela algo importante:
“E, repreendeu Jesus o demônio, que saiu dele, e desde aquela hora o menino sarou.
Então os discípulos, aproximando-se de Jesus em particular, disseram: Por que não pudemos nós expulsá-lo?
Jesus lhes disse: Por causa de vossa incredulidade; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível.” (Mateus 17:18-20 (ACF)
Estaria Jesus dizendo aos discípulos algo desconcertante?
“Por que estais me pedindo muita fé? Talvez a sua “fé” seja grande demais. Talvez seja preciso diminuí-la, até que ela se torne pequena como uma semente de mostarda.”
A imagem é paradoxal. A fé que Jesus apresenta não precisa ser grande. Precisa ser verdadeira. Uma pequena semente pode carregar dentro de si uma vida que ainda não conseguimos enxergar.
Uma fé minúscula pode conter mais vida e confiança do que uma “grande fé”.
É nesse sentido que a reflexão de Halík me parece tão provocadora: talvez precisemos menos de certezas e mais de esperança; menos de respostas fáceis e mais de coragem para permanecer diante do mistério.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas: “Estamos vivendo tempos difíceis?”
A história nos mostra que quase sempre estivemos.
A pergunta mais importante talvez seja outra: o que estamos fazendo com a nossa esperança em tempos difíceis?
Porque o otimismo pode desaparecer quando a realidade o desmente. A esperança, não. Ela permanece quando já não há garantias. E talvez seja justamente aí que a fé comece a deixar de ser uma coleção de certezas e se transforme em confiança.
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