A psicologia afirma que crianças que passam mais tempo em frente às telas podem apresentar melhor desempenho em algumas habilidades cognitivas

O efeito das telas sobre o desenvolvimento infantil não é tão simples quanto parece e pode variar conforme o conteúdo, a idade e a forma de uso

Isabella Cavalcante Isabella Cavalcante -
criança com acesso a telas
(Imagem: Ilustração/Inteligência artificial)

Durante anos, o tempo que crianças passam diante de celulares, tablets, computadores e televisores foi associado principalmente a possíveis prejuízos. No entanto, pesquisas mostram um cenário mais complexo. Dependendo da atividade realizada, o uso de telas também pode estimular determinadas habilidades cognitivas.

Isso não significa que passar mais horas diante de um dispositivo seja automaticamente benéfico. Na prática, o tipo de conteúdo, a finalidade do uso e o contexto em que a criança utiliza a tecnologia fazem diferença.

Nem todo tempo de tela produz o mesmo efeito

Assistir passivamente a vídeos, jogar um game educativo, pesquisar informações ou conversar com outras pessoas pela internet são atividades bastante diferentes. Por isso, especialistas alertam que colocar todas essas experiências na mesma categoria pode levar a conclusões equivocadas.

Um levantamento recente sobre o tema destaca justamente essa diferença. O uso de dispositivos pode produzir efeitos distintos conforme a atividade e as características da criança.

Assim, uma criança que utiliza o computador para resolver problemas, criar algo ou aprender um conteúdo não está necessariamente submetida ao mesmo estímulo de outra que passa horas apenas consumindo vídeos curtos.

Quais habilidades podem ser estimuladas?

Algumas atividades digitais exigem atenção, raciocínio, memória de trabalho, resolução de problemas e tomada de decisões. Jogos que apresentam desafios progressivos, por exemplo, podem exigir que a criança observe padrões, planeje ações e encontre estratégias para avançar.

Da mesma forma, ferramentas educacionais podem incentivar a leitura, a pesquisa e a resolução de exercícios. Nesse caso, a tecnologia funciona como uma ferramenta de aprendizagem, e não apenas como entretenimento.

Porém, isso não permite afirmar que quanto maior o tempo de tela, melhor será o desempenho cognitivo. A relação depende muito mais da qualidade e do contexto da experiência do que de uma quantidade isolada de horas.

O que a ciência diz sobre o excesso?

Apesar de alguns usos apresentarem possíveis benefícios, pesquisas também relacionam a exposição excessiva a determinados resultados negativos. Estudos apontam associações entre uso intenso de telas e dificuldades relacionadas à atenção, ao desempenho escolar e a algumas habilidades cognitivas.

Além disso, o problema pode surgir quando o dispositivo substitui atividades importantes para o desenvolvimento. Dormir, brincar, praticar atividades físicas, conversar com familiares e interagir presencialmente continuam sendo fundamentais durante a infância.

Por isso, especialistas defendem uma abordagem equilibrada em vez de simplesmente classificar as telas como boas ou ruins.

Conteúdo faz diferença

O conteúdo consumido pela criança é um dos principais fatores que precisam entrar nessa discussão. Uma atividade interativa que estimula o raciocínio apresenta características diferentes de vídeos curtos consumidos de maneira contínua.

Um estudo citado em uma análise recente sobre o tema encontrou associação entre o uso intenso de plataformas de vídeos curtos e piores indicadores de saúde cognitiva e mental. Os próprios especialistas, contudo, ressaltam que associação não significa necessariamente causa e efeito.

Portanto, não basta perguntar quantas horas a criança passa diante da tela. Também é necessário saber o que ela faz durante esse período.

A idade também importa

As necessidades mudam conforme a fase do desenvolvimento. Crianças pequenas, por exemplo, dependem bastante de experiências concretas, interação com adultos, movimento e brincadeiras para desenvolver diferentes habilidades.

Já crianças maiores podem utilizar ferramentas digitais de maneira mais autônoma para estudar, pesquisar e resolver problemas. Mesmo assim, o acompanhamento dos responsáveis continua importante.

A recomendação, portanto, deve considerar idade, maturidade, rotina e finalidade do uso.

Quando a tela pode ser uma aliada?

A tecnologia pode contribuir para o aprendizado quando complementa outras experiências. Jogos educativos, aplicativos de matemática, plataformas de leitura e ferramentas de criação podem transformar o dispositivo em um ambiente de descoberta.

Além disso, atividades que exigem participação ativa tendem a envolver processos diferentes daqueles presentes no consumo passivo de conteúdo.

Por isso, uma estratégia mais adequada é estabelecer limites sem transformar a tecnologia em uma inimiga. O objetivo é fazer com que o tempo diante da tela tenha espaço dentro de uma rotina que também inclua sono adequado, brincadeiras, estudos e convivência.

Mais tempo não significa necessariamente mais inteligência

A ideia de que crianças que passam mais tempo diante das telas necessariamente apresentam melhor desempenho cognitivo seria uma conclusão exagerada. O que as pesquisas indicam é que determinados usos da tecnologia podem estar associados a benefícios específicos, enquanto outros podem apresentar riscos.

Além disso, fatores familiares, educacionais e sociais também interferem no desenvolvimento. Quando os pesquisadores consideram essas variáveis, alguns efeitos atribuídos diretamente às telas diminuem ou desaparecem.

Assim, a pergunta mais importante não é apenas quanto tempo a criança passa diante de uma tela, mas como ela utiliza esse tempo.

Como encontrar um equilíbrio?

Uma rotina equilibrada pode reservar momentos específicos para atividades digitais e preservar períodos destinados a outras experiências. Também é importante evitar que o dispositivo atrapalhe o sono, as refeições, os estudos, as brincadeiras e a convivência familiar.

Quando possível, os responsáveis podem acompanhar o conteúdo acessado e escolher atividades adequadas à idade. Dessa maneira, a tecnologia pode complementar o desenvolvimento sem ocupar o espaço de experiências essenciais para a infância.

No fim, as telas não precisam ser vistas apenas como vilãs. Elas podem oferecer estímulos úteis para determinadas habilidades cognitivas, desde que utilizadas com propósito, equilíbrio e supervisão.

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