UFG usa tampinhas e impressão 3D para criar cadeiras de rodas e próteses gratuitas

Projeto desenvolvido em laboratório da universidade produz diversos outros itens sob demanda e sem custo para os pacientes

Natália Sezil Natália Sezil -
Laboratório da UFG produz tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas adaptadas para crianças.
Laboratório da UFG produz tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas adaptadas para crianças. (Foto: Carlos Siqueira/Secom UFG)

Um projeto que começou como uma Iniciação Científica (IC) dentro da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, já conseguiu mudar a vida de quase 300 pessoas com tecnologias assistivas.

São colheres adaptadas, próteses para mãos, pés e cabeça, cadeiras de rodas e cadeiras adaptadas, suportes posturais (parapódios) para crianças que têm dificuldade de locomoção, de manter a posição em pé ou de sustentar o tronco.

Todos esses equipamentos são desenvolvidos com material reciclável (como tampinhas de plástico) e impressão 3D, dentro do Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA). O grupo é coordenado pelo professor Pedro Henrique Gonçalves, da Faculdade de Artes Visuais (FAV UFG).

Pedro Henrique contou ao Portal 6 que a ideia começou, de fato, em 2024, dividindo um espaço físico com outros projetos da faculdade até conquistar uma área própria este ano.

Pedro Henrique Gonçalves, professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG e coordenador-geral do Lab.EITA.

Pedro Henrique Gonçalves, professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG e coordenador-geral do Lab.EITA. (Foto: Carlos Siqueira/Secom UFG)

O laboratório é desenvolvido dentro da universidade, mas fica aberto para receber demandas da comunidade externa. Os pedidos costumam chegar pelo Instagram e não se limitam a Goiânia. Atualmente, a lista de espera passa de 200 pessoas.

“Chegam demandas do estado inteiro. A gente já atendeu também alguns locais no Brasil: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pará… mas são coisas pontuais”, explica o professor da UFG.

Em poucos anos de existência, o Lab.EITA já chegou até mesmo a ultrapassar as fronteiras nacionais. Uma vez, enviou quatro cadeiras de rodas personalizadas para a África, por meio de uma parceria que nasceu em um congresso científico em São Paulo.

Os produtos são entregues sem custo algum ao paciente que pede, mas é importante passar por uma triagem. Isso porque a equipe tenta ir além da tecnologia assistiva, acompanhando toda a adaptação e as verdadeiras necessidades.

“Quando a pessoa mora fora do estado, a gente tem que entrar em contato. Ela primeiro vai ter um acompanhamento com algum fisioterapeuta. E aí falamos com esse fisioterapeuta para entender, e saber também se ele pode fazer esse acompanhamento à distância”, explica o coordenador.

Ele exemplifica: é preciso tirar a medida antes da fabricação, ver se o item recebido está de acordo com as necessidades, e saber como o paciente está utilizando, “para garantir que isso seja usado da melhor forma possível”.

Inclusive, o laboratório se dispõe a testar modelos novos caso surja o pedido. “Já apareceram alguns. A pessoa normalmente vê na internet alguma coisa que já foi feita e pergunta se é possível. Se for, a gente produz”, detalha Pedro Henrique.

Da mesma forma, a equipe pode perceber que a tecnologia não se adapta ao que a pessoa precisa. Nesse caso, os participantes orientam que aquele produto pode não ser o ideal e que algum outro item pode auxiliar melhor.

Ação pioneira

O professor considera que o Lab.EITA desenvolve uma ação pioneira, visto que cobre todas as etapas. “A gente faz desde a avaliação física, desenvolvimento, a entrega e o pós”. Ele explica que tentam fazer o ciclo completo.

Por isso, o laboratório recebeu um convite do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para se transformar em um Centro de Acesso à Pesquisa e Tecnologia Assistiva (Capta).

Este será um dos primeiros centros deste tipo no Brasil. A proposta inclui um recurso financeiro para permitir que o espaço esteja melhor equipado e desenvolva novas pesquisas.

“É realmente estruturar um centro para poder atender mais pessoas”, resume Pedro Henrique. Ele explica que o projeto já cumpre quase todos os requisitos, como capacitação, mas vai precisar integrar uma vitrine tecnológica.

Isso significa deixar expostas todas as tecnologias usadas para que as pessoas visitem, saibam dessas possibilidades e sejam orientadas sobre como ter acesso.

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Além disso, alguns dos projetos ficam disponíveis online, de forma gratuita, para quem quiser reproduzi-los por meio de impressão 3D em casa. Os modelos contém orientações técnicas e estão no site do laboratório.

Além de se tornar um Capta, o Lab.EITA também estuda uma parceria com o sistema penitenciário, a convite da Polícia Penal.

O coordenador conta que existe uma oficina no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia que tenta ensinar uma profissão aos reeducandos. As atividades já envolvem costura, marcenaria, serralheria e outras.

 “A ideia é nós ensinarmos o que fazemos para eles. Eles vão desenvolver nessas oficinas, vão doar ao laboratório e nós vamos fazer a entrega depois para a população em geral. Então acabamos ajudando a capacitar esses reeducandos em alguma profissão nessa área, e eles vão entregar de volta à sociedade produtos de tecnologia assistiva para auxiliar quem precisa”, detalha.

Participação estudantil e multidisciplinar

Para alcançar os resultados, o Lab.EITA reúne conhecimentos de várias áreas diferentes. Atualmente, são 15 alunos bolsistas de áreas do conhecimento diversas.

Fisioterapeutas participam da avaliação. Na etapa de desenvolvimento, designers e arquitetos fazem a modelagem digital, sempre em contato com profissionais da saúde para entender como o equipamento precisa ser feito.

O professor avalia que “é fundamental que essas áreas se misturem porque um sabe fazer, mas o outro não sabe. Então quem sabe vai orientar o conteúdo, e o outro vai complementar com a parte técnica que é dele”.

Pedro Henrique revela que a sensação de encabeçar o projeto é boa porque consegue “ver a diferença sendo feita na vida das pessoas“.

Pelo lado acadêmico, percebe que os alunos participantes saem melhor formados, com uma consciência diferente por entenderem as dificuldades de pessoas que podem atender.

Ele relembra que muitos querem continuar no laboratório até a graduação, e diz ainda que “é legal porque a gente mostra o que a universidade é capaz de fazer. Divulgamos o trabalho da universidade e mostramos que tem esse papel social também, é a pesquisa aplicada para a sociedade”.

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Natália Sezil

Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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