Enferrujado e esquecido em Goiânia, Ford quase centenário guarda história de homem que abriu caminhos pelo sertão goiano

Veículo quase centenário acompanhou expedições pelo sertão, foi doado ao poder público e hoje mobiliza a família por preservação

Lara Duarte Lara Duarte -
Enferrujado e esquecido em Goiânia, Ford quase centenário guarda história de homem que abriu caminhos pelo sertão goiano
Apesar da dimensão dessa trajetória, boa parte dela sobrevive hoje principalmente no livro autobiográfico escrito pelo próprio Manoel. (Foto: Reprodução/Fabrício Vera/O Popular)

Muito antes de o Ford 1929 enferrujar longe dos olhos do público no Zoológico de Goiânia, ele acompanhou a trajetória de um homem cuja participação na abertura de caminhos até Goiás acabou permanecendo praticamente fora da memória histórica mais conhecida do estado.

Manoel Antonio da Silva atravessou sertões, abriu picadas (trilhas), construiu pontes de madeira e buscou apoio de autoridades para fazer veículos avançarem por regiões onde estradas de rodagem ainda eram escassas.

Apesar da dimensão dessa trajetória, boa parte dela sobrevive hoje principalmente no livro autobiográfico escrito pelo próprio Manoel, nos documentos que ele reuniu ao longo das viagens e na memória de familiares e pessoas que tiveram a oportunidade de acompanhá-lo.

Uma dessas pessoas é Lourival da Silva Santos, de 70 anos, sobrinho do pioneiro.

Foi Lourival quem, ainda jovem, ajudou a escrever frases na carroceria do Ford antes de o veículo ser levado ao Zoológico de Goiânia.

Décadas depois, também foi ele quem passou anos tentando descobrir para onde o automóvel havia sido levado.

Para o sobrinho, recuperar o carro significa também impedir que a própria história de Manoel desapareça.

Lourival da Silva Santos ao lado do Ford 1929 que pertenceu ao tio, Manoel Antonio da Silva, e que marcou a trajetória da família em Goiás. (Foto: Fabrício Vera/O Popular/Reprodução/Arquivo pessoal)

“Foi um brasileiro simples que fez algo notável só pela ideologia. ‘Vou tomar conta do Brasil porque sou brasileiro’. Só isso”, resumiu.

Uma história quase esquecida

Manoel nasceu em Itacuruba, Pernambuco, às margens do Rio São Francisco, em uma família humilde.

Ainda jovem, saiu da região para aprender uma profissão. Tornou-se motorista e mecânico em uma época em que automóveis ainda eram raros em grande parte do interior brasileiro.

Segundo o livro que deixou, a relação dele com Goiás começou antes mesmo de chegar ao estado.

Em 1923, Manoel teria conhecido Pedro Ludovico Teixeira em Pernambuco, décadas antes de o médico se tornar uma das principais figuras políticas goianas e fundador de Goiânia.

Anos mais tarde, já vivendo na Bahia, Manoel ouviu o chamado ligado à Marcha para o Oeste, política do governo Getúlio Vargas que incentivava a integração do interior brasileiro.

Foi nesse contexto que decidiu tentar abrir caminhos em direção ao então Norte de Goiás.

Ele não era engenheiro e não dispunha de máquinas pesadas ou de uma estrutura pública de obras.

“Ele era analfabeto, mas era muito inteligente”, contou Lourival.

O caminho até Goiás

As primeiras tentativas começaram em 1939.

Manoel precisava vencer uma combinação de serras, rios, falta de combustível e ausência de vias adequadas para automóveis.

O trabalho, segundo Lourival, era direto e rudimentar.

“Era serviço totalmente manual”, afirmou ao relembrar fotografias em que trabalhadores aparecem abrindo os caminhos com ferramentas.

Mas força física não bastava.

Para chegar mais longe, Manoel precisava recorrer às autoridades de cada região e conseguir combustível, mantimentos e apoio para continuar.

“Ele pensou como iria fazer sem apoio. Vem à cabeça procurar cidades, procurar prefeito, contar a história e ver se o prefeito dava pelo menos o combustível até o próximo município”, explicou Lourival.

A estratégia permitiu que a viagem avançasse.

Em 03 de setembro de 1941, Manoel chegou a Dianópolis, então no Norte de Goiás, após abrir cerca de 216 quilômetros de caminhos.

O feito foi registrado pelo então prefeito Viríssimo da Mata Teixeira, que o chamou de “Bandeirante do Século XX, sem botas e sem bacamarte”.

A expressão atravessaria as décadas e acabaria ligada definitivamente ao nome de Manoel.

Pontes, bois e improviso

De Dianópolis, ele continuou descendo pelo antigo território goiano.

Em Taguatinga, a subida de uma serra exigiu o uso de três juntas de bois para puxar o Ford.

Já em Rio da Conceição, Manoel construiu uma ponte de madeira sobre o Rio Manoel Alves. Segundo o livro, o trabalho levou cerca de 15 dias.

Também passou por Almas, Natividade e Peixe.

Não havia uma única solução para os obstáculos.

Às vezes era necessário construir uma ponte. Em outras ocasiões, colocar o carro sobre estruturas improvisadas ou recorrer à tração animal.

Imagem reproduzida do livro Bandeirante do Século XX, no qual Manoel relata a travessia do Rio São Francisco com o próprio carro. (Foto: Reprodução)

Imagem reproduzida do livro Bandeirante do Século XX, no qual Manoel relata a travessia do Rio São Francisco com o próprio carro. (Foto: Reprodução)

“Imagine o sacrifício de cortar aqueles troncos, colocar dentro da água, amarrar um ao outro até dar sustentação, empurrar o carro para cima e atravessar”, descreveu Lourival.

A esposa e a filha de Manoel também participaram de parte das jornadas. Trabalhadores seguiam sobre a carroceria enquanto a família avançava por regiões onde a infraestrutura rodoviária praticamente precisava ser criada durante o próprio percurso.

Ajudas deixaram registros

Manoel também parece ter entendido cedo que precisaria documentar o que fazia.

Ao longo da viagem, reuniu declarações e atestados de prefeitos, agentes municipais e outras autoridades das localidades por onde passava.

Esses registros aparecem reproduzidos no livro autobiográfico.

Em 1943, ele também conseguiu uma carta de recomendação ligada ao Governo Federal, destinada a facilitar a cooperação das autoridades da Bahia e de Goiás com o trabalho que desenvolvia.

Para Lourival, esses papéis têm um valor especial justamente porque muito pouco dessa trajetória acabou incorporado à história oficial conhecida pelos goianos.

O sobrinho acredita que o livro e os documentos merecem ser estudados e preservados.

“Isso aqui merece registro”, afirmou.

Primeira edição de Bandeirante do Século XX, autobiografia escrita por Manoel Antonio da Silva e atualmente preservada por Lourival. (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Primeira edição de Bandeirante do Século XX, autobiografia escrita por Manoel Antonio da Silva e atualmente preservada por Lourival. (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Chegada a Anápolis

Depois de atravessar o antigo Norte de Goiás, Manoel seguiu rumo ao Sul.

Passou por Porangatu e Uruaçu até alcançar Anápolis.

A cidade representava uma mudança importante.

Até ali, boa parte da viagem havia sido marcada justamente pela necessidade de abrir ou melhorar caminhos para que o veículo avançasse.

“Ele concluiu em Anápolis, porque Anápolis tinha estrada”, explicou Lourival.

Segundo os registros preservados no livro, Manoel foi recebido pelo então prefeito Graciano Antônio da Silva, que examinou a documentação da jornada e registrou reconhecimento pelo trabalho realizado.

A chegada colocava o Ford em uma região com ligações rodoviárias mais estruturadas e encerrava uma das etapas mais difíceis da empreitada.

Goiânia tornou-se casa

De Anápolis, Manoel chegou a Goiânia.

Na capital, recebeu apoio da Fundação Brasil Central, inclusive combustível para prosseguir viagem.

Local onde funcionava a Fundação Brasil Central, instituição que deu apoio a Manoel e forneceu combustível para que ele seguisse viagem até o Rio de Janeiro. (Foto: Reprodução)

Local onde funcionava a Fundação Brasil Central, instituição que deu apoio a Manoel e forneceu combustível para que ele seguisse viagem até o Rio de Janeiro. (Foto: Reprodução)

Depois de concluir a expedição, retornou a Goiás e fez do estado a nova casa.

Manoel passou a trabalhar profissionalmente com aquilo que havia feito durante anos praticamente por iniciativa própria.

Segundo o relato autobiográfico, atuou como feitor e posteriormente como chefe de serviço ligado às estradas de rodagem do Vale do Tocantins.

Lourival faz questão de separar a atuação do tio de qualquer projeto de carreira política.

“Ele nunca foi político. Era um cidadão comum”, afirmou.

Para o sobrinho, talvez esteja justamente aí uma das razões para que o nome de Manoel tenha desaparecido de boa parte das narrativas conhecidas sobre a expansão rodoviária de Goiás.

Não houve mandato, grande empresa ou estrutura institucional própria para perpetuar o personagem.

O que ficou foram o livro, fotografias, documentos, testemunhos e o Ford.

Após se aposentar, Manoel fixou residência em Goiânia, onde passou a viver no bairro Vila Redenção. (Foto: Reprodução)

Após se aposentar, Manoel fixou residência em Goiânia, onde passou a viver no bairro Vila Redenção. (Foto: Reprodução)

Um carro transformado em legado

No final da década de 1960, Manoel decidiu deixar o veículo para exposição pública em Goiânia.

Lourival acompanhou esse momento. Segundo ele, a entrega ocorreu no fim de 1969, possivelmente em novembro.

A família conta que Manoel chegou a receber oferta de outro automóvel em troca do Ford antigo, mas recusou.

“Ele disse: ‘Se eu recebo qualquer coisa, meu legado ficaria apenas com a barganha. Eu não quero barganha. Quero fazer doação’”, relatou Lourival.

O Ford foi então destinado ao Zoológico de Goiânia. Uma cobertura foi instalada para protegê-lo, e frases que lembravam as viagens foram pintadas na carroceria.

Lourival participou pessoalmente do trabalho. “Eu escrevia as frases que ele mandava escrever e fui com ele levar esse carro”, contou.

Segundo ele, aquela foi a última viagem do automóvel. Manoel morreu no ano seguinte, em 1970, vítima de câncer.

O Ford desaparece dos olhos do público

Durante muitos anos, o sobrinho continuou passando pelo Zoológico e olhando o veículo.

Até que ele sumiu da área de exposição.

“Eu passava lá anonimamente, olhava. Depois, há uns 20 anos, não vi mais esse carro e procurei. Ninguém sabia me dizer nada”, recordou.

A procura durou anos e terminou quase por acaso.

Na academia que frequenta, Lourival percebeu que outro homem usava uma camiseta relacionada a um antigo projeto do Zoológico.

Perguntou se ele tinha ligação com o local, contou a história e conseguiu chegar até a administração do parque.

O Ford finalmente apareceu, mas, infelizmente, não como Lourival lembrava.

“Foi um desespero tremendo”

O veículo estava em uma área administrativa, longe dos visitantes. Lourival encontrou ferrugem, pneus danificados, banco deteriorado e peças que, segundo ele, já não estavam no lugar.

Também viu o automóvel sendo utilizado para guardar objetos.

“O carro estava lá como um reciclável, como um entulho, servindo de depósito para pneus velhos. Quebraram o vidro do para-brisa, roubaram o motor do para-brisa e outra peça dentro do motor”, relatou.

O reencontro foi duro.

“Cheguei lá, vi o carro e foi um desespero tremendo”, afirmou.

A preocupação envolve até adaptações artesanais feitas por Manoel durante os anos na estrada.

“Há uma peça que ele fez de bronze porque não tinha como conseguir outra”, contou Lourival.

Memória que nem a família conhecia

A história também passou muitos anos praticamente guardada dentro de casa. Lourival admite que os próprios filhos e netos pouco sabiam sobre Manoel.

O livro autobiográfico permaneceu na biblioteca, acompanhado de fotografias e outros documentos.

“Meus filhos e, a partir daí, meus netos não sabiam da história. Eu não sou muito de conversar”, reconheceu.

Agora, aos 70 anos, ele decidiu fazer o movimento contrário. Quer que o nome de Manoel, o conteúdo do livro e a história do Ford voltem a circular.

Não reivindica, pelo menos como primeira alternativa, que o veículo retorne à família.

“Eu não estou querendo pegar o carro de volta. Estou querendo dar visibilidade para ele. Quero que o poder público se responsabilize, como naquela época se responsabilizou pela manutenção”, afirmou.

Caso isso não aconteça, porém, Lourival diz estar disposto a reunir filhos e parentes para tentar recuperar o automóvel.

Mais do que salvar um Ford quase centenário, ele acredita estar diante de uma oportunidade de impedir que desapareça um capítulo que permaneceu por décadas restrito às páginas escritas pelo próprio Manoel e às lembranças de quem o conheceu.

“Eu quero que ele vire patrimônio dos goianos. Que os goianos vejam e conheçam uma história. Restaurar esse carro é restaurar história”, afirma.

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Lara Duarte

Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.

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