Expansão do agronegócio coloca Goiás entre populações mais vulneráveis aos impactos do El Niño no Brasil
Previsão do Ministério da Saúde é de que os efeitos climáticos do fenômeno se fortaleçam em outubro e continuem pelo menos até março

O Ministério da Saúde prevê que a população de Goiás esteja entre os públicos mais vulneráveis aos impactos do El Niño no Brasil. O motivo: a expansão do agronegócio.
Alexandre Padilha, titular da pasta, listou em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (16) que algumas comunidades estão entre as que mais precisam de atenção diante dos efeitos climáticos do fenômeno.
Entre eles, estão os moradores na região da Amazônia brasileira, população que está em áreas de risco de enchentes e deslizamentos, especialmente no Sul, e habitantes do Centro-Oeste brasileiro.
Em território goiano, a preocupação se dá pela quantidade de queimadas diretamente relacionadas ao agronegócio. A fumaça, que piora problemas respiratórios, se soma ao estresse térmico, quando o fogo aumenta a sensação térmica local.
A lista ainda inclui a dificuldade no acesso à água potável e também as lesões ocorridas durante o combate aos incêndios.
Nilton Pereira Júnior, secretário-executivo adjunto do Ministério da Saúde, relatou: “mais de 50 pessoas foram acometidas por queimaduras causadas pelo enfrentamento às queimadas. Profissionais do PrevFogo, Ibama e Corpo de Bombeiros”.
Em agosto, por exemplo, um caseiro de 73 anos morreu queimado ao entrar em uma área de mata, em Posse, no Nordeste goiano, para tentar conter o avanço de um incêndio.
Intensificação do El Niño
Padilha explica que a intensificação do El Niño deve começar em outubro deste ano e seguir até março de 2027. A expectativa, baseada em previsão climática, histórico de eventos, vulnerabilidade e capacidade de resposta, é de que este seja o maior da série histórica.
Os riscos são diferentes conforme a região. Em Goiás, isso se traduz na intensificação da seca, estiagem, calor e queimadas. Esse também deve ser o cenário no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, completando o Centro-Oeste.

Calor se intensifica em Goiás (Foto: Divulgação/Prefeitura de Goiânia)
O cenário preocupa por conta da quantidade de óbitos com relação direta ao calor extremo nos últimos 20 anos, que somam pelo menos 120 mil. As altas temperaturas preocupam porque “levam doenças para lugares onde não existiam”.
Para os representantes do Ministério da Saúde, as ondas de calor aumentam a descompensação das doenças crônicas e têm impactos maiores nas mulheres, causando partos prematuros.
De modo geral, há riscos de aumentar as arboviroses (em especial, dengue e chikungunya), as doenças crônicas (principalmente respiratórias e cardiovasculares, justamente pelos incêndios).
Também doenças infectocontagiosas (como diarreias), e acidentes, lesões ou sofrimento psicossocial e mental nos locais de maiores desastres.
Preparação do SUS
A preparação do Sistema Único de Saúde (SUS) também varia de acordo com as regiões porque, como defende o Ministro da Saúde, os efeitos do El Niño não afetam todas as partes do país da mesma forma.
No Centro-Oeste, o planejamento inclui painéis de monitoramento (como da poluição atmosférica), informes e orientações quanto ao manejo de queimadas.
Há duas bases da Força Nacional do SUS na região, mas em Campo Grande e Brasília. Também há um Centro de Informação em Saúde e Clima (que antecipa os riscos antes das emergências) em Cuiabá. Segundo divulgado na coletiva, Goiás não conta com nenhuma dessas estruturas.
A mobilização acontece pois, como Padilha destaca, “a crise climática é uma crise de saúde pública”. Ele ressalta a importância de se atentar aos dados científicos e combater o negacionismo.
“Não podemos permitir que aconteça no Brasil e no mundo o que aconteceu na pandemia. A preparação para o El Niño é baseada na ciência. Nós montamos um painel de especialistas. O Ministério da Saúde ouve esses especialistas e respeita os dados produzidos pela Fiocruz”, afirmou.
Os estados foram incentivados a enviar planos de preparação para o El Niño para que haja integração entre as esferas municipal, estadual e federal. Alguns ainda não enviaram, mas os representantes não detalharam se Goiás está entre eles.
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