Milei critica postura da ONU em relação às Malvinas e termina discurso com palavrão
Presidente argentino defendeu a retomada das negociações sobre a soberania do arquipélago e questionou a efetividade das resoluções internacionais

DANIELA ARCANJO – BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – O presidente da Argentina, Javier Milei, criticou a ONU durante seu discurso na Assembleia Geral, nesta quarta-feira (23), pela postura da entidade em relação à disputa com o Reino Unido pelas ilhas Malvinas e terminou sua fala com um palavrão, algo que já havia feito no ano passado.
Antes de deixar a tribuna, despediu-se com seu mote: “Viva a liberdade, caralho!”.
Sob o argumento de que “sempre é preferível dizer uma verdade desconfortável do que uma mentira confortável”, o ultraliberal disse que as Nações Unidas viraram “uma organização inútil, que só serve para alimentar uma casta de parasitas fatalmente arrogantes disfarçados de burocratas bem intencionados”.
“Quem deveria garantir a segurança coletiva e os direitos humanos fracassaram na tarefa”, continuou, com sua retórica usual. “Em vez disso, permitiram o caos, a violência e o terrorismo internacional.”
O exemplo desse fracasso que concerne à Argentina, segundo ele, é o das Malvinas, questão que virou prioridade de seu governo no último mês como uma “causa nacional”, conforme reafirmou na tribuna de Nova York.
O núcleo das críticas do ultraliberal é o avanço dos projetos extrativistas nas ilhas à revelia das decisões argentinas, já que o Reino Unido considera as Falklands, como chama o arquipélago, um território ultramarino britânico. Milei, no entanto, citou a resolução da ONU que proíbe “alterações unilaterais à situação” enquanto a disputa não for resolvida.
“De que serve uma resolução se, durante décadas, a outra parte pode agir de forma oposta, e essa resolução permanece intacta nos arquivos, impotente diante da realidade?”, perguntou. “Uma instituição que não consegue fazer com que a sua palavra tenha peso na realidade perde o que mais importa: a sua autoridade.”
Impulsionada por Donald Trump, que, no começo de setembro, disse não descartar uma revisão da neutralidade que os Estados Unidos adotam em relação à soberania do arquipélago, a Casa Rosada começou a agir frente ao Reino Unido diante do que considera uma inércia da ONU.
“Em resposta à exploração não autorizada de nossos recursos na área em disputa, tomamos medidas”, disse Milei antes de elencar as ações de seu governo nas últimas semanas. “Emitimos denúncias formais, utilizamos os meios legais disponíveis, aplicamos sanções às empresas envolvidas e seus fornecedores e apresentamos um projeto de lei ao Congresso para proteger nossa soberania nacional”.
O ultraliberal também convidou o Reino Unido a retomar as negociações pela soberania e empresários a investir na jazida de petróleo e gás conhecida como Vaca Muerta. “Mas este convite tem um limite: não seremos indiferentes em relação àqueles que exploram recursos sob ocupação estrangeira ilegal. A posição da Argentina está tomada.”
Dois funcionários da delegação britânica ouviram o discurso e tomaram notas. Em resposta, o Reino Unido afirmou que “não tem dúvidas quanto à sua soberania sobre as ilhas Falklands e as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, bem como sobre as áreas marítimas circundantes de ambos os territórios”, e que “mantém seu firme apoio ao direito dos habitantes das Ilhas Malvinas à autodeterminação”.
Antes de concluir sua intervenção, Milei citou EUA e Israel, “países com os quais [a Argentina compartilha] uma profunda afinidade de valores”, segundo ele, e que simbolizam a essência de sua diplomacia, e atacou a OMS (Organização Mundial de Saúde), entidade da qual Buenos Aires se retirou em março deste ano, de novo espelhando decisão do governo Trump.
“Durante a pandemia, organizações dependentes dessa instituição priorizaram evidências científicas e a soberania nacional em detrimento da segurança nacional, promovendo lockdowns forçados em todo o mundo que destruíram empregos”, disse. “Onde alguns apontam um erro de política de saúde pública, nós vemos um experimento global de controle social disfarçado de ciência.”
Por fim, acenou a investidores da área de inteligência artificial, comprometendo-se a não “regular de maneira preventiva” a tecnologia e garantindo benefícios fiscais às empresas. “Em relação à inteligência artificial, a Argentina estará na vanguarda da liberdade. Queremos ser o lugar mais competitivo do mundo para desenvolvê-la”, afirmou.
“Aos homens e mulheres livres do mundo, aos cientistas, aos empreendedores, aos criadores, àqueles que sonharam com uma terra onde recomeçar, eu digo: olhem para o sul”, afirmou, em tom ufanista. “Vão encontrar uma terra imensa, de campos férteis, de petróleo, de minerais e de talento humano.”
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