Estilista com deficiência que fez carreira em Goiânia transforma mensagens de ódio em vestido e faz desabafo: “Eu só quero existir”

Em vídeo, profissional relata anos de preconceito e afirma que perseguições virtuais têm afetado sua vida pessoal e profissional

Pedro Ribeiro Pedro Ribeiro -
Estilista com deficiência que fez carreira em Goiânia transforma mensagens de ódio em vestido e faz desabafo: “Eu só quero existir”
(Foto: Reprodução)

A estilista Juliana Santos transformou mensagens de ódio e ataques capacitistas que sofre nas redes sociais em um vestido usado como forma de protesto.

Juliana iniciou a carreira em Goiânia, quando, em 2013, criou na capital a empresa Dona Rosa. Atualmente, a marca mantém sede em São Paulo.

A criação foi apresentada em um vídeo publicado durante a chegada da primavera, no dia 21 de setembro, data que ela relacionou à luta pelos direitos das pessoas com deficiência.

Segundo Juliana, o vestido foi produzido com flores, mas recebeu como elemento central diversas mensagens ofensivas direcionadas a ela. A estilista afirmou ter reunido mais de mil comentários e relatou que parte dos ataques faz referência à sua deficiência física.

No vídeo, ela também relembrou episódios de preconceito vividos desde a infância e afirmou que, durante anos, foi apresentada pela imprensa principalmente como uma “história de superação”.

Para ela, esse tipo de abordagem reforça a ideia de que pessoas com deficiência precisam servir de exemplo para outras pessoas.

“Esse vestido é um protesto”, afirmou. Juliana também cobrou providências das autoridades de São Paulo e disse que existe uma investigação relacionada aos ataques que, segundo ela, está aberta há cerca de um ano sem que tenha sido chamada para prestar depoimento.

De acordo com o relato, além dos comentários nas redes sociais, pessoas chegam a entrar em contato pelo WhatsApp se passando por possíveis clientes para, posteriormente, enviar ofensas.

Durante o desabafo, Juliana disse estar emocionalmente exausta e relatou ter enfrentado pensamentos de tirar a própria vida diante da sequência de ataques.

“Eu só quero voltar a trabalhar. Eu só quero que essas pessoas paguem e principalmente que nunca mais algo desse tipo aconteça com nenhuma pessoa”, declarou.

Após a repercussão do vídeo, Juliana publicou uma nova mensagem nas redes sociais para agradecer o apoio recebido. Na publicação, citou a oração de São Francisco e afirmou que as mensagens de carinho foram importantes diante do período que atravessa.

“Onde houver ódio, que eu leve o amor”, escreveu. Ao final, disse que as manifestações de apoio a fizeram lembrar que “vale a pena continuar”.

@estilistajuliana Respondendo a @Erika Moura Até para as flores nascerem, é preciso um solo fértil. Eu sei: vocês esperavam um vestido primaveril, leve e cheio de cor. Eu também tentei fazê-lo assim, mas essa nunca foi a proposta desta obra. Estas flores representam tudo o que ainda tenta sobreviver em mim, mesmo sendo sufocado pelo ódio, pela perseguição e pelo silêncio das instituições. Hoje, no Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, eu venho clamar pelo meu direito de sobreviver. Pelo meu direito de viver em sociedade, de exercer o meu trabalho e de ter a minha denúncia levada a sério pelas instituições de Justiça deste país. Há um ano, depois de quase sete meses tentando denunciar tudo o que estava acontecendo comigo na internet, consegui abrir um inquérito na Delegacia da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Procurei a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e, inicialmente, acreditei que finalmente seria amparada. Mas os meses passaram. Recebi promessas de que pessoas seriam chamadas para depor e de que as provas seriam analisadas. Em dezembro, descobri que informações do meu inquérito haviam sido expostas para que um youtuber fizesse chacota, descredibilizasse a investigação e monetizasse em cima da minha dor. Pouco depois, fui informada de que o inquérito havia sido encaminhado ao Ministério Público. Tudo isso sem que eu sequer tivesse sido formalmente ouvida. Eu nunca tive a oportunidade de prestar um depoimento completo dentro do meu próprio caso. Entreguei dossiês, documentos, vídeos, prints e comentários. Passei horas revivendo ameaças, calúnias, perseguições, intolerância religiosa, incitação ao suicídio e ataques capacitistas. Precisei assistir a lives inteiras e ler centenas de pessoas destilando ódio contra mim para conseguir documentar o que estava acontecendo. Mesmo com a atuação de um advogado criminal e com novos pedidos de diligências apresentados, ainda não obtivemos respostas. Agora, depois de um ano, vejo o inquérito retornar à mesma delegacia sem que uma investigação efetiva tenha sido realizada. Hoje estive pessoalmente no Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Fui recebida e fiz uma denúncia pública sobre o descaso com o meu caso. Eu não exijo apenas respostas. Eu exijo uma investigação. Não existe sentença, inquérito ou condenação dizendo que eu apliquei golpe em alguém. Entretanto, quando uma mentira é repetida milhares de vezes, ela passa a ser tratada como verdade — e destrói reputações, famílias, carreiras e vidas. Por isso, marco os órgãos públicos responsáveis pela proteção e pela defesa dos direitos das pessoas com deficiência em São Paulo e no Brasil. Eu estou pedindo ajuda. Estou pedindo socorro. Este vestido poderia ter sido apenas uma linda obra de arte, mas esse nunca foi o seu destino. Ele nasceu para ser um vestido de protesto. Nele, escrevi comentários que recebi na internet. A cada palavra, parecia que eu enterrava novamente uma faca em mim mesma. Eu estou cansada de sangrar. Estou cansada de lutar sozinha. Eu quero respostas. Há dois anos, tentam abafar a minha arte, o meu trabalho, a minha história e a minha voz. Mas eu não vou me silenciar. Eu transformarei a minha dor em arte, denúncia e resistência. E continuarei lutando para que as pessoas que fizeram isso comigo sejam investigadas e responsabilizadas. Eu serei resistência até o fim.#pcd #capacitismo #estilistajuliana ♬ som original – Estilistajuliana

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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Atua no Portal 6 desde 2022, passando pelas editorias de Comportamento, Utilidade Pública e temas que dialogam diretamente com a opinião pública e cotidiano da população.

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