Com histórico de abstenção acima dos 20%, Anápolis pode ter quase 60 mil eleitores ausentes nas urnas em 2026
Município registrou índices crescentes de não comparecimento desde 2018, segundo dados do TSE
Anápolis vivenciou uma escalada expressiva no número de eleitores faltosos ao longo das últimas eleições gerais e municipais.
Entre os pleitos de 2018 e 2024, a cidade viu o contingente de eleitores aptos crescer, mas acompanhado por um aumento contínuo na abstenção eleitoral.
Nas eleições gerais de 2018 e 2022, para deputados, senador, governador e presidente, o índice de abstenção no município manteve-se em patamares inferiores, registrando 21,45% e 22,72%, respectivamente, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Por outro lado, o primeiro turno das eleições municipais de 2020 atingiu 27,69%, marca que acabou superada em 2024, quando o recorde do município chegou a 28,71% do eleitorado, somando 84.023 eleitores ausentes.
A menor participação nas urnas em disputas municipais contraria a premissa de que a política local engaja mais por estar próxima da rotina dos cidadãos.
Para o cientista político Guilherme Carvalho, em entrevista ao Portal 6, a acirrada disputa ideológica nacional serve como incentivo contínuo para compensar o custo de deslocamento do eleitor.
“Em primeiro lugar, tem a própria questão da formatação da disputa polarizada que a gente tem no nível nacional, onde há um incentivo ideológico ao comparecimento que a eleição municipal não tem”, explicou Guilherme.
Sob outra perspectiva, as transformações partidárias após 2014 alteraram o sentimento de representatividade e desconectaram o eleitor das opções locais. Para Alaor Bruno, também cientista político, o movimento antisistema nacional não se estruturou nos partidos no ambiente municipal.
“Na política nacional, você tem essa identificação forte do bolsonarismo. Quando vai para o município, essa configuração não se reproduz, então o povo não tem uma certa identificação com os candidatos”, afirmou Alaor.
Impacto das redes sociais e o desinteresse local
A ‘onipresença’ dos conteúdos políticos nas redes sociais transformou as campanhas em um movimento ininterrupto, mas com efeitos colaterais na disposição do eleitor. Guilherme Carvalho enfatiza que o bombardeio contínuo focado em disputas ideológicas afasta o foco dos problemas da cidade.
“Isso gera cansaço, em algum momento as pessoas acabam se cansando, porque já são muitos anos onde esse modelo está se perfazendo. Ele ainda não chegou a um esgotamento, mas a gente já começa a notar os primeiros traços do eleitor, embora polarizado, está menos aguerrido”, pontuou.
Em contrapartida, as dificuldades de adaptação do meio político local às novas ferramentas digitais, pela falta de orçamento e profissionais disponíveis para as campanhas, prejudicam a comunicação eficiente com a população. Isso faz com que, no nível municipal, a capacidade de mobilização fique comprometida.
“Eu acredito que essa dificuldade de entender a nova forma de fazer política dificulta esse engajamento”, observou Alaor Bruno.
“A política também é um entretenimento. E a população quer ver o entretenimento da política. Ela quer ver o movimento. Quando o movimento ele é bem engajado e bem propagado, a população se engaja mais, o que é difícil de ocorrer nas municipais”, acrescentou.
Voto “obrigatório”
Se a tendência de abstenção observada em 2018 e 2022 em Anápolis se repetir, cerca 20% dos eleitores anapolinos devem deixar de comparecer para a votação desde domingo (04). Em números, isso representa cerca de 57.5 mil do total de 287.887 eleitores aptos.
As penalidades irrisórias aplicadas a quem deixa de votar também enfraquecem a ideia de obrigatoriedade do pleito. Ao Portal 6, Guilherme Carvalho destaca que a baixa punição associada à falta de educação cívica contribui para a gradual redução do comparecimento às urnas.
“O custo de você não participar é muito baixo, e a gente está falando de um dado muito expressivo de brasileiros que tem comparecido cada vez menos desde 2006. Antes votar era um privilégio, agora está se tornando uma espécie de cansaço, porque [o eleitor] está misturando uma insatisfação com o tipo de representação com uma sensação de que as coisas não estão melhorando”, destacou.
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