Físico revela como ajudou a evitar que tragédia com Césio-137 em Goiânia fosse ainda maior
Em depoimento exclusiva ao Portal 6, cientista relata como mobilizou autoridades públicas e impediu que a cápsula do material fosse jogada em córrego

O que começou como uma suspeita médica diante de pacientes com sintomas desconhecidos acabou revelando um dos episódios mais graves da história de Goiânia.
Em setembro de 1987, o físico nuclear Walter Mendes Ferreira teve papel decisivo na identificação do acidente com o Césio-137 e nas primeiras medidas para impedir que a contaminação se espalhasse ainda mais pela capital.
Em entrevista ao Portal 6, o especialista relembrou os acontecimentos de 29 de setembro daquele ano, quando ajudou a encontrar o material radioativo, identificar áreas contaminadas e mobilizar autoridades.
Atualmente ligado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Walter foi a inspiração para a criação do personagem Márcio, protagonista da série Emergência Radioativa, da Netflix.
Além de ser imortalizado no streaming, o físico também foi homenageado na noite desta terça-feira (27), na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), quando recebeu o título de cidadão goiano.
A descoberta da contaminação
Segundo conta à reportagem, na época do acidente, Walter estava em Goiânia por motivos pessoais e recebeu uma ligação de um conhecido da antiga Secretaria de Meio Ambiente de Goiás.
O contato surgiu depois que médicos do Hospital de Doenças Tropicais (HDT) relataram a internação de 11 pacientes com sintomas semelhantes, como vômitos, febre, diarreia e queda de cabelo.
A possibilidade de exposição à radiação foi levantada durante uma conversa entre profissionais da saúde, mas ainda não havia confirmação. Walter explicou que, inicialmente, considerou improvável a existência de uma fonte radioativa capaz de provocar sintomas tão graves em Goiás.
“Eu disse que isso, em radiação ionizandos, são os chamados efeitos determinísticos, quando a pessoa recebe doses extremamente elevadas. E esses sintomas só ocorrem em doses muito elevadas e que eu não acreditava que no estado de Goiás teria algum material para provocar o sintomas desse tipo de comodidade”, relatou.
A situação mudou quando um dos médicos do hospital informou que uma paciente havia levado à Vigilância Sanitária um cilindro suspeito de provocar o adoecimento de familiares.
Para verificar a hipótese, Walter conseguiu um cintilômetro, ou seja, um detector de radiação emprestado pela Nuclebrás, instituição que mantinha um escritório em Goiânia.
Durante o deslocamento, o equipamento começou a identificar sinais de radiação a 60 ou 70 metros da Vigilância Sanitária. Como o detector atingiu o limite de medição, o físico chegou a acreditar que estivesse com defeito e retornou à Nuclebras para buscar outro aparelho.
“Aquilo significava o seguinte: ou eu estava na presença de um campo de radiação extremamente elevado ou ele estava com defeito. Eu realmente fiz a opção que ele estava com defeito pelos sinais emitidos naquela distância“, contou.
Tragédia maior evitada
Entretanto, um segundo equipamento apresentou o mesmo comportamento exatamente no mesmo ponto, reforçando a suspeita de um campo de radiação extremamente elevado. Ao chegar à Vigilância Sanitária, Walter se deparou com uma situação que poderia ter agravado ainda mais as consequências do acidente.
Segundo o físico, um bombeiro carregava o cilindro no ombro e pretendia descartá-lo no Córrego Capim Puba, sem conhecimento da dimensão do perigo. Walter interveio, quando pediu que o material fosse deixado no local e que a área fosse isolada.
“Ele estava saindo com cilindro no ombro. Eu falei para ele: ‘Deixa esse cilindro, que é um material radioativo'”, relembrou.
Apesar da resistência inicial à evacuação, o especialista conseguiu convencer os responsáveis pela Vigilância Sanitária sobre a necessidade de retirar as pessoas.
Naquele momento, ainda não era possível determinar com precisão qual substância estava presente nem a intensidade da radiação emitida.
Mobilização para conter o desastre
Após identificar o perigo, Walter iniciou uma investigação para descobrir a origem do cilindro e os locais por onde o material havia passado.
As informações obtidas em um ferro-velho o levaram ao Instituto Goiano de Radioterapia, de onde havia sido retirado o equipamento que continha o Césio-137.
Com a suspeita confirmada de que a fonte havia sido removida e violada, ele procurou a Secretaria Estadual de Saúde e estabeleceu contato com a CNEN. O então governador Henrique Santillo também foi informado e participou da organização das primeiras medidas emergenciais.
“Nós somos até o governador Henrique Santillo. Ele era médico e, casualmente, uma pessoa que tinha uma formação acadêmica em higiene das radiações. Quando eu relatei para ele, ele falou: “É gravíssimo”. E ali ele convocou o gabinete militar”, contou ao Portal 6.
A estratégia incluiu o uso do antigo Estádio Olímpico de Goiânia como ponto de acolhimento e triagem das pessoas potencialmente contaminadas. Equipes passaram a percorrer os locais atingidos para retirar moradores e trabalhadores que haviam tido contato com o material.
Entre os casos encontrados estava o de Leide das Neves, uma das vítimas mais conhecidas do acidente, retirada de uma das áreas contaminadas naquela noite. Walter contou que, até a meia-noite de 29 de setembro, 26 pessoas haviam sido encaminhadas ao estádio.
Na madrugada seguinte, especialistas chegaram com equipamentos capazes de medir taxas mais elevadas de radiação e começaram a organizar procedimentos para controlar a fonte.
Uma das providências foi planejar a blindagem do cilindro que guardava o cloreto de césio-137, que estava sobre uma cadeira na área da Vigilância Sanitária.
“Para a gente trabalhar nesse local, nós vamos ter que blindar essa cadeira”, recordou Walter.
O físico também precisou avaliar as consequências da própria exposição ao material radioativo durante as primeiras intervenções. Dias depois, ele fez exames especializados, que não identificaram contaminação interna, embora tenham apontado uma pequena dose de radiação recebida.
“Não era nenhuma dose preocupante, eu sabia de que que se tratava”, afirmou.
Dias atuais
Passados 39 anos, Walter continua envolvido com atividades relacionadas à proteção radiológica. Como chefe de emergência de radiações ionizantes da CNEN, ele se divide entre períodos de estadia em Goiânia e no Rio de Janeiro.
Ele também presta assessoria ao Governo de Goiás em questões ligadas às consequências do acidente, em especial junto à Fundação Leide das Neves.
Ao relembrar a operação, o físico destacou que a contenção do desastre não foi resultado de uma atuação individual, mas de um esforço conjunto que mobilizou centenas de profissionais.
“Nós trabalhamos aqui com 244 profissionais da CNEN, mais 144 de instituições parceiras, como a Nuclebrás, a Escola de Instrução Especializada do Exército e aproximadamente 350 servidores abnegados do Estado. Então, foram mais de 730 pessoas trabalhando por 90 dias”, disse.
Série de streaming
Questionado sobre o que achou da produção da Netflix, o físico conta que a série teve o êxito de relembrar a história do acidente para além de um viés dramático.
Ele também brinca, ao dizer que desde o lançamento, não “teve paz” devido ao grande número de palestras e entrevistas que tem feito.
“Ela teve uma conotação interessantíssima, que foi despertar nos jovens engenheiros, pesquisadores, químicos, físicos, nas pessoas que estudam ciências exatas, ciências biológicas, e médicos, toda a história do acidente. Tem um certo drama, mas foi esse drama que prendeu a atenção da juventude. Isso foi muito bom”, contou.
Walter também defendeu a preservação da memória do Césio-137 e considerou de grande relevância a aprovação da Lei Nº 11.692/2026, que determina a criação de um museu dedicado ao episódio em Goiânia.
Reconhecimento na Assembleia Legislativa
Com iniciativa do deputado Paulo Cezar Martins (MDB), Walter Mendes Ferreira foi homenageado na Alego na noite desta terça-feira (27) com o título de Cidadão Goiano, em reconhecimento à contribuição prestada durante a emergência radiológica.
Embora tenha manifestado gratidão pela homenagem, fez questão de dividir o reconhecimento com todos os envolvidos.
“Eu fiz um trabalho da melhor maneira possível. Só que depois, foi o somatório de pessoas que trabalharam. Então, nada mais justo também que a homenagem seja também a todos os profissionais com quem a gente trabalhou”, finalizou.

Cientista recebeu o título de Cidadão Goiano na Alego (Fotos: Reprodução/Carlos Costa/Alego)
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