Agro ganha e setor de remédios pode perder em Goiás com acordo Mercosul-UE, diz Fieg
Estudo calcula empregos e exportações extras para o estado, mas a maior aposta goiana esbarra numa trava que não tem nada a ver com o acordo

O agronegócio deve ser o setor mais beneficiado em Goiás pelo acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, enquanto a indústria de medicamentos pode enfrentar concorrência direta de produtos europeus.
A avaliação está em estudo da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), que projeta até US$ 208 milhões por ano em exportações adicionais para o estado e estima a criação de cerca de 24,2 mil empregos.
A maior aposta, porém, enfrenta um obstáculo: a carne brasileira está hoje barrada no mercado europeu por uma decisão que não tem relação com o acordo.
O estudo “O Acordo Mercosul-União Europeia: Impactos na Indústria Goiana” foi apresentado nesta quinta-feira (29), durante a 3ª Edição da Expoind, no Centro de Convenções Goiânia.
A União Europeia já compra 12,5% de tudo o que Goiás exporta. Em 2025, o estado vendeu US$ 1,68 bilhão ao bloco, com destaque para farelo de soja, minério de cobre, ferroligas e carne bovina.
Acordo pode gerar 24 mil empregos em Goiás
A estimativa de empregos vem de um cálculo simplificado da própria Fieg. A entidade aplicou às vendas goianas a projeção do governo federal de alta de 13% nas exportações brasileiras ao bloco e usou como referência um dado da Confederação Nacional da Indústria (CNI): em 2024, cada R$ 1 bilhão exportado pelo Brasil à União Europeia gerou 21,8 mil empregos. Nessa conta, as exportações goianas subiriam US$ 218 milhões e os setores exportadores ganhariam cerca de 24,2 mil vagas.
Em seguida, a Fieg refinou o cálculo produto por produto e chegou a US$ 208 milhões anuais em exportações adicionais, valor que só será alcançado depois da implementação integral das concessões. Para parte dos produtos, a retirada das barreiras se estende até 2036 ou 2038.
Agroindústria concentra os ganhos
De acordo com Saulo Nogueira, analista de desenvolvimento industrial da Fieg que participou da elaboração do estudo, as maiores oportunidades estão na agroindústria. Ao Portal 6, ele explicou que determinados produtos goianos podem ganhar competitividade na Europa com a redução de tarifas e de outras barreiras comerciais.
“De acordo com nosso estudo, os principais setores vão ser da agroindústria, principalmente carnes, carne de frango e bovino, açúcar e etanol. Couro também vai ter um grande potencial. Também tem uma série de produtos com um potencial menor, abaixo de US$ 1 milhão de dólares de potencial, mas já é um adicional”, disse.
Segundo a pesquisa, seis produtos dos segmentos de carnes, açúcar e etanol concentram cerca de 95% do potencial adicional de exportação entre os 40 itens industriais analisados. Juntos, eles podem representar um crescimento anual entre US$ 61,7 milhões e US$ 82,2 milhões nas vendas ao mercado europeu.
Nota do Portal 6: na apresentação do estudo, Saulo Nogueira afirmou que os 40 produtos analisados representam 99% do que Goiás exporta à União Europeia. O documento escrito, porém, registra que esses 40 produtos somam 34% do valor exportado pelo estado ao bloco em 2025. A divergência entre a fala e o texto ainda não foi esclarecida pela Fieg.
O principal destaque é a carne bovina congelada, com potencial adicional de exportação entre US$ 34,9 milhões e US$ 46,5 milhões por ano. A carne bovina fresca ou refrigerada vem na sequência, com estimativas entre US$ 11,1 milhões e US$ 14,8 milhões, seguida por produtos derivados de frango.
A carne que lidera a lista está barrada na Europa
O próprio estudo da Fieg registra uma ressalva que pesa justamente sobre esses produtos. Desde setembro de 2026, a União Europeia suspendeu a importação de produtos brasileiros de origem animal, como carnes, leite, ovos, mel e pescado, por causa do uso de antimicrobianos na produção.
A decisão se apoia no Regulamento UE 2019/6 e no Regulamento Delegado UE 2023/905. Segundo o estudo, “não há previsão de suspensão da decisão”. O governo brasileiro publicou em julho novas orientações para a exportação desses produtos ao mercado europeu, mas a medida segue em vigor.
Indústria de remédios pode perder espaço
O caminho também vale no sentido contrário. A Fieg estima que as importações goianas de produtos europeus devem crescer US$ 21,4 milhões por ano quando as barreiras brasileiras caírem. O valor é dez vezes menor que o potencial de exportação, mas está concentrado em um setor que já produz no estado: oito dos dez itens com maior aumento previsto são medicamentos.
É o caso do polo farmacêutico de Anápolis, que, segundo a Fieg, precisa se preparar para enfrentar concorrência direta da indústria europeia. Entenda o alerta da Fieg para a indústria farmacêutica de Anápolis.
Outros setores e o mercado de biocombustível
A Fieg também identifica oportunidades para produtos químicos, máquinas industriais, componentes automotivos, alimentos processados, plásticos, eletrônicos, vestuário e calçados. Segundo Saulo, esses setores têm perspectivas mais modestas, mas podem ampliar a participação no comércio internacional.
“Tem ingredientes de alimentos, tem milho, produtos químicos específicos, peças para tratores, peças para automóveis e uma série de outras máquinas”, destacou.
O analista ressalta que o estudo considerou principalmente produtos que Goiás já vende no exterior. Por isso, o potencial pode ser maior do que o calculado.
“Esse estudo é com base nos produtos que Goiás já exporta, e existem produtos que Goiás tem potencial de exportação, mas que ainda não exporta”, explicou.
Um dos exemplos citados por ele é o combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF. O estudo não traz projeção financeira para esse produto, mas Saulo avalia que o mercado europeu pode ser promissor.
“Isso aí pode abrir um enorme mercado porque os europeus têm uma consciência muito grande de impacto ambiental e o SAF é um novo tipo de biocombustível que está crescendo”, avaliou.
Exigência ambiental atinge os setores que mais ganham
A mesma preocupação ambiental europeia cria uma exigência para os setores goianos com maior potencial. O Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR) não faz parte formal do acordo, mas funciona como condição de acesso ao mercado. Ele obriga as empresas a comprovar que carne, grãos, café, couro e madeira não vêm de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020, com rastreabilidade documental e geolocalização de toda a cadeia produtiva.
A regra passa a valer em 30 de dezembro de 2026 para médias e grandes empresas e em 30 de junho de 2027 para as pequenas.
Parte do acordo ainda não está em vigor
Apenas o pilar comercial, chamado de Acordo Provisório de Comércio (ITA), vale desde 1º de maio de 2026. O Acordo de Parceria UE-Mercosul, que inclui os capítulos de sustentabilidade, propriedade intelectual, investimentos e cooperação, depende da conclusão da análise jurídica feita pelo Tribunal de Justiça da União Europeia.
“Essa última parte trata da segunda parte do acordo que vai entrar em vigor no ano que vem, talvez até 2028, porque o judiciário europeu ainda está analisando esse acordo, então a gente não sabe exatamente quando que vai entrar em vigor”, afirmou Saulo.
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