A dívida é um produto. E você está comprando sem perceber

Enquanto a dívida é um produto para quem vende, pode se transformar em uma prisão para quem compra sem compreender seu verdadeiro preço

A dívida é um produto. E você está comprando sem perceber
(Foto: Ilustração/IA)

Você já parou para pensar que a dívida é um dos produtos mais oferecidos na sociedade atual? Sim, a dívida é um produto! Bancos vendem empréstimos, financeiras oferecem crédito, lojas incentivam parcelamentos e montadoras facilitam financiamentos.

Tudo isso chega até nós por meio de campanhas publicitárias e promessas de realizar sonhos. Somos constantemente estimulados a comprar aquilo que ainda não podemos pagar. E, muitas vezes, nem percebemos que, além do bem desejado, estamos adquirindo outro produto: o dinheiro emprestado, com seus juros e encargos.

Os números ajudam a compreender essa realidade. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, em setembro de 2026, 81,7% das famílias brasileiras tinham dívidas e 29,6% estavam com contas atrasadas.

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É importante reconhecer que nem toda dívida é ruim. O crédito pode viabilizar uma casa, um negócio ou uma necessidade importante. Mas precisamos entender que existe uma indústria interessada em vender dinheiro, assim como outras vendem roupas, carros ou alimentos. A diferença é que esse produto pode comprometer uma parte da nossa renda durante meses ou até décadas.

O mais preocupante é que aprendemos desde cedo a desejar produtos, mas raramente somos ensinados a administrar o dinheiro necessário para comprá-los.

A publicidade apresenta o valor da parcela, mas nem sempre damos atenção ao custo total da dívida. Quando financiamos uma compra, parte do nosso trabalho futuro já fica comprometida com quem nos emprestou o dinheiro. E assim, muitas famílias passam anos pagando juros, sem conseguir construir uma reserva financeira.

Não se trata apenas de falta de disciplina: a renda insuficiente e os imprevistos também contribuem para esse cenário. Mas precisamos reconhecer que o endividamento se tornou um negócio lucrativo, enquanto a educação financeira ainda recebe pouca atenção.

Talvez esteja na hora de mudar essa lógica, começando dentro de casa e nas escolas. Nossas crianças precisam aprender que crédito não é renda, limite do cartão não é patrimônio e prestação pequena não significa compra barata.

Antes de assumir uma dívida, precisamos perguntar quanto ela realmente custará e se vale a pena comprometer nossa liberdade financeira. Afinal, prosperidade não é conseguir comprar tudo o que desejamos, mas ter condições de escolher sem depender de dinheiro emprestado. Porque, enquanto a dívida é um produto para quem vende, pode se transformar em uma prisão para quem compra sem compreender seu verdadeiro preço. É isso.

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José Fernandes

José Fernandes

José Fernandes é médico (ortopedista e legista) e bacharel em direito. Atualmente vereador em Anápolis pelo MDB. Escreve todas as sextas-feiras.