Sumiço de cápsulas de Césio-137 em MG traz à tona tragédia radioativa em Goiânia
Diferença é que em Minas Gerais o elemento está duplamente encapsulado - constatando risco grau cinco, considerado baixo
O desaparecimento de duas fontes de Césio-137 em uma mineradora em Nazareno (MG) no dia 29 de junho, trouxe à tona cicatrizes ainda abertas para muitos goianienses e que marcou os anos de 1980. Foi ali, em um edifício abandonado, que uma vez abrigara o Instituto Radiológico de Goiânia, na região Central, que ocorreu uma das maiores tragédias radioativas já registradas no mundo.
A diferença é que em Minas Gerais o elemento está duplamente encapsulado – constatando risco grau cinco, considerado baixo. Aqui, o cenário foi completamente diferente.
No dia 13 de junho de 1987, dois catadores de materiais recicláveis avistaram o terreno vazio e enxergaram no espaço uma oportunidade de encontrar itens para vender como sucata.
- Influenciador é preso no Rio suspeito de aplicar golpe com venda de bolsas de luxo a vítima de Goiânia
- Após discurso em Caldas Novas, Justiça proíbe Luciano Hang de fazer manifestações político-eleitorais na Havan
- Polícia investiga denúncia de estupro contra menina de 3 anos dentro de CMEI em Anápolis
Os homens encontraram um equipamento médico, já desativado, com cerca de 100 kg, que abrigava no interior uma cápsula contendo Césio-137, isótopo extremamente radioativo.
Ignorando totalmente o efeito do produto e de olho em reverte-lo em dinheiro, os trabalhadores venderam a estrutura ao dono de um ferro velho no Setor Central, chamado Devair Ferreira.
Na prática, para aproveitar todo o material, o proprietário não pensou duas vezes antes de abrir o aparelho e explorar o conteúdo. Foi neste momento que o dono encontrou um pó que emitia luz azulada.
Fascinado pelo material, Devair levou um pouco da substância para casa para mostrar à esposa dele, Maria Gabriela. Dias depois, os efeitos da radiação – como diarreia, náusea, tontura e vômito – começaram a ser sentidos pelo casal.
Para piorar a situação, o irmão do empresário, Ivo Ferreira, decidiu visitar o parente durante esse tempo e também ficou encantado pelo pó – levando um pouco para casa.
A curiosidade era tamanha que Ivo e os filhos chegavam a apagar as luzes do quarto para admirar o brilho azul que saía da peça. Mas não demorou muito até que os sintomas se repetissem e todos adoecessem. A primeira a sentir os efeitos foi a caçula, Leide das Neves, de 06 anos.
Inicialmente, as pessoas expostas ao Césio-137 foram medicadas nos postos de saúde e hospitais de Goiânia, acreditando se tratar apenas de uma doença convencional.
No entanto, após notar que todas as pessoas que tiveram contato com a peça adoeciam, a esposa do dono do ferro-velho decidiu levar a peça até a sede da Vigilância Sanitária Estadual, onde descobriu a verdade por trás dos fatos.
Ao todo, foi constatado a contaminação pelo Césio-137 em 249 pessoas. Desses, 129 tinham rastros da substância nas partes internas e externas do organismo. Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), 49 vítimas foram hospitalizadas e 20 delas precisaram de cuidados médicos intensivos.
Mesmo com a descoberta, o resultado ainda foi fatal na vida dos familiares do proprietário do ferro-velho. No mesmo ano, em 23 de outubro, Maria Gabriela, de 37 anos, foi a primeira das vítimas a ter o óbito confirmado pela contaminação.
Horas depois, foi a vez da pequena Leide. Naquela mesma semana, ainda morreram Israel Batista dos Santos, de 22 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18, que eram funcionários de Devair.
Após o acidente, cinco pessoas foram condenadas a 3 anos e 2 meses de prisão em regime aberto pelo crime de homicídio culposo pela forma como o equipamento foi deixado no edifício. Contudo a pena foi transformada em prestação de serviços comunitários e, em 1999, a ação penal foi arquivada.
Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo foram recolhidas na capital goiana depois da tragédia e encaminhadas a unidade do Cnen em Abadia de Goiás, onde duas caixas de concreto foram enterradas.
Vale lembrar que Devair e Ivo sobreviveram aos efeitos da radiação, mas anos depois por cirrose hepática e enfisema pulmonar, respectivamente.







