Conheça a idosa de 91 anos que mora sozinha há mais de meio século e diz que “poder fazer o que quer não tem preço”
História exibida pelo Globo Repórter une longevidade, independência e dados que mostram como morar sozinho deixou de ser exceção no Brasil

Aos 91 anos, dona Lulu é uma idosa que vive uma rotina que muitos associariam à juventude: autonomia total sobre a própria casa, horários definidos por vontade própria e a liberdade de não precisar negociar decisões cotidianas.
Moradora de um apartamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ela vive sozinha há mais de 50 anos e resume sua escolha com uma frase direta e reveladora: “poder fazer o que quer, quando quer, não tem preço”.
A história, exibida recentemente pelo programa Globo Repórter, ganhou destaque não apenas pela idade avançada da protagonista, mas por retratar uma velhice marcada pela independência.
No mesmo endereço há décadas, dona Lulu transformou o morar sozinha em um modo de vida permanente, estruturado e consciente, longe da ideia de improviso ou solidão forçada.
O cotidiano apresentado é simples e organizado. As decisões sobre alimentação, horários, compromissos e tarefas domésticas partem exclusivamente dela. Copacabana surge como pano de fundo de uma vida urbana comum, em que deslocamentos e afazeres seguem um ritmo definido pela própria moradora, sem interferências externas.
A narrativa chama atenção justamente por mostrar que viver só, mesmo em idade avançada, pode significar controle sobre o próprio tempo e espaço.
Embora a trajetória de dona Lulu pareça singular à primeira vista, ela dialoga diretamente com uma transformação já registrada nos dados oficiais. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tinha 72,3 milhões de domicílios, sendo 13,6 milhões ocupados por apenas uma pessoa. Isso representa 19,1% do total — quase uma em cada cinco residências do país.
O crescimento é expressivo quando comparado ao passado. Em 2000, eram apenas 4,1 milhões de domicílios unipessoais. Em pouco mais de duas décadas, esse número mais que triplicou.
O levantamento do IBGE mostra ainda que essa mudança está fortemente ligada ao envelhecimento da população: 41,8% das pessoas que moravam sozinhas em 2022 tinham 60 anos ou mais.
Nesse contexto, a experiência de dona Lulu deixa de ser vista como exceção isolada e passa a representar um padrão cada vez mais comum. O que diferencia sua história é a longevidade desse arranjo, mantido por mais de meio século, e a forma como ela associa morar sozinha à sensação contínua de liberdade, e não à fragilidade.
Os dados do Censo também revelam equilíbrio entre homens e mulheres nos domicílios unipessoais. Em 2022, havia 6,837 milhões de residências ocupadas por homens sozinhos e 6,784 milhões por mulheres. A trajetória de dona Lulu se insere nesse recorte feminino, em que envelhecer sozinha aparece como uma escolha de autonomia, e não como abandono ou ausência de vínculos.
As transformações não se limitam a quem vive sozinho. O IBGE identificou que, pela primeira vez, os casais com filhos deixaram de ser maioria entre os arranjos familiares no Brasil, representando 42% das unidades domésticas em 2022, contra 56,4% em 2000.
Já os casais sem filhos quase dobraram no período, passando de 13% para 24,1%. Essas mudanças ajudam a explicar por que novas formas de morar e viver passaram a ganhar visibilidade social.
No caso de dona Lulu, a liberdade cotidiana aparece como valor central. A reportagem evita associar sua rotina à solidão e destaca uma vida organizada a partir de escolhas pessoais feitas ao longo do tempo. Sua fala sintetiza um sentimento compartilhado por muitos brasileiros que vivem sozinhos: a valorização do controle sobre a própria rotina como parte essencial do bem-estar.
Ao unir um relato pessoal direto com números oficiais, a história mostra como tendências demográficas ganham rosto e voz. Dona Lulu não representa apenas uma trajetória individual marcante, mas também um retrato concreto de como o envelhecimento e a autonomia vêm redesenhando a forma de morar no Brasil.
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