Um mês após captura de Maduro, Venezuela vive abertura econômica sob tutela dos EUA
Manifestações refletem incertezas que pairam sobre o futuro do país

MANOELLA SMITH – Venezuelanos foram às ruas de Caracas nesta terça-feira (3), um mês após o episódio em que Donald Trump cumpriu uma ameaça recorrente e ordenou uma ofensiva militar contra a Venezuela, que terminou com a captura do líder Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Nem todos marcharam pelo mesmo motivo. De um lado, apoiadores do chavismo pediam a libertação de Maduro em um ato e vigília convocados pelo regime, agora comandado por Delcy Rodríguez. Do outro, estudantes, integrantes da oposição e ex-presos políticos, agora libertados, pediam o avanço da proposta de anistia.
As manifestações refletem incertezas que pairam sobre o futuro da Venezuela -ainda que, neste último mês, o país tenha passado por mudanças até então impensáveis. Sob pressão de Washington, Caracas anunciou mudanças na economia e começou a afrouxar a sua máquina de repressão.
O Parlamento da Venezuela aprovou uma reforma em sua lei de hidrocarbonetos, que regula a extração e o comércio de petróleo. O novo texto oferece mais garantias ao setor privado, cede o controle estatal da exploração e reduz impostos. Pouco depois de sua aprovação, os EUA anunciaram uma flexibilização do embargo que Trump impôs ao petróleo venezuelano em 2019.
“As mudanças no setor petrolífero aconteceram de maneira muito rápida. O chavismo sempre buscou desincentivar parcerias com capital privado e estrangeiro porque o petróleo e a PDVSA [estatal venezuelana do setor] são a galinha dos ovos de ouro da Venezuela. Quem controla isso, controla infraestrutura e política”, afirma Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).
Em paralelo, EUA e Venezuela avançaram na retomada das relações, que tinham sido rompidas por Maduro em 2019. Washington não só tem planos para reabrir a embaixada americana no país, como Delcy recebeu o diretor da CIA, John Ratcliffe, em Caracas. A nova chefe da missão diplomática americana na Venezuela, Laura Dogu, também se reuniu com a líder interina na segunda-feira (2).
Mas nem tudo são afagos. Delcy adotou uma postura ao estilo morde e assopra, variando entre uma retórica de enfrentamento a Washington, voltada para sua base de apoio, e um tom mais conciliatório, direcionado à comunidade internacional. O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, não demorou em alertar que a líder interina poderia ter o mesmo destino de Maduro se ela não se alinhar aos objetivos dos EUA.
“Delcy mantém o chavismo no poder, mas sob tutela clara dos EUA, especialmente de Trump. Então, ela não tem uma autonomia muito grande. O discurso mais agressivo contra Washington me parece um teatro político para manter parte da base chavista mobilizada”, diz Gombata.
Outra mudança importante foi o anúncio da proposta de lei de anistia para centenas de prisioneiros no país, abrangendo casos de 1999 até hoje -ou seja, todo o período de gestões chavistas. O projeto também pretende transformar a prisão Helicóide, em Caracas, em um centro para esportes e serviços sociais. Grupos de direitos humanos denunciam o centro de detenção como um local de abuso de prisioneiros.
O anúncio ocorreu na esteira de um processo de libertação de presos políticos anunciado em 8 de janeiro. Até o momento, segundo dados da ONG Foro Penal, 344 pessoas foram libertadas, e 687 permanecem detidas. O chavismo fala em 600 libertados, mas sem informar uma lista de nomes.
Os detalhes do texto de anistia ainda não estão claros e há receio de que a medida também possa ser instrumentalizada e estendida para autoridades do regime. “Quando ela [Delcy] fala em anistia geral desde 1999, não está falando apenas das vítimas do Estado, mas também de membros do chavismo que precisam dessa anistia para não serem julgados e sofrerem penalidades”, diz Gombata.
Nesta semana, a repressão do chavismo deu às caras com a figura do poderoso ministro da Defesa, Diosdado Cabello. Conhecido por ser linha-dura, o militar deu um recado à emissora Venevisión após a exibição de falas da líder da oposição, María Corina Machado.
“Escute-me, Venevisión, sem estridência midiática sua figura [de María Corina] se dilui. Sem manchetes, simplesmente desaparece”, disse Cabello durante a transmissão de seu programa na TV estatal. Segundo o jornal New York Times, pouco depois de sua fala, a Venevisión foi retirada de plataformas de transmissão em grande parte do país.
Delcy nomeou Daniella Cabello, filha do chavista, como ministra do Turismo, e reestruturou os comandos militares. Gombata diz que o nível de incerteza é grande. “Não está claro quanto tempo a Delcy ficará no poder, se haverá eleições, nem como será a sucessão. O chavismo não vai acabar da noite para o dia. Cerca de um quarto do eleitorado ainda o apoia. Tudo isso permanece em aberto”, diz.
Na sua avaliação, a restauração da democracia não é prioridade do governo americano. “No mesmo dia em que o Maduro sai do poder, os EUA dizem que vão controlar o petróleo”, acrescenta. “Eles não mexeram em figuras linha-dura [do regime] porque isso não é prioridade e porque existe uma simbiose forte do chavismo com os militares. Os EUA não vão se desgastar, estão sendo bem estratégicos.”



