‘Vou pegar vocês. Sua família acabou’, ouvem pais de adolescente mesmo após ele deixar de ser suspeito em caso do cão Orelha

Imagens dos menores tidos como suspeitos foram expostas em redes sociais, assim como endereços, números de documentos, placas de carro e contas bancárias

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Adolescentes suspeitos de agressão ao cão Orelha retornam de viagem e têm celulares apreendidos pela polícia
(Foto: Reprodução)

CARLOS VILLELA

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – O inquérito policial que apurou a morte do cão comunitário Orelha resultou no indiciamento de apenas um dos quatro adolescentes antes apontados como suspeitos pelos investigadores. Ainda assim, a mãe e o pai de um dos jovens inocentados afirmam que o desfecho do caso não trouxe alívio.

A família, que teve a identidade preservada para não expor o adolescente, conversou com a Folha de S.Paulo por videochamada nesta quinta (5). Eles relatam que enfrentam um linchamento virtual desde a repercussão nacional, no fim de janeiro, da morte brutal do cão que vivia na Praia Brava, em Florianópolis (SC).

Segundo a mãe, são no mínimo 30 ameaças por dia pelas redes sociais.

Imagens dos adolescentes tidos como suspeitos foram expostas em redes sociais, assim como endereços, números de documentos, placas de carro e contas bancárias. “As pessoas fazem Pix de um centavo para ficar mandando mensagem, “vou te matar”, “sua família acabou”, “a gente vai pegar vocês””, conta o pai.

A família afirma que precisou usar dinheiro que haviam economizado para contratar segurança particular em razão das ameaças. Eles relatam ainda que há pessoas querendo organizar protestos na frente da casa em que moram.

A mãe, que tinha uma loja virtual, teve de interromper as atividades devido à exposição do caso.

“Mesmo com todas as notícias no sentido contrário de qualquer culpa em relação a ele, a internet comprou uma versão que adotou como verdade e parece que, nem se os anjos descerem na Terra para falar que não foi ele, ela vai aceitar”, disse o pai.

Segundo ele, o filho está emocionalmente abalado, deixou de acessar as redes sociais, e recebe acompanhamento psicológico. Desde então, a família está reclusa.

A filha do casal também passou a ser exposta em redes sociais. Perfis afirmam ser ela a jovem que aparece nas imagens ao lado do adolescente apontado como autor das agressões na madrugada do dia 4, o que já foi desmentido pela polícia.

“Todo mundo acha que tem alguma coisa por trás, que a gente pagou, que existe uma conspiração”, disse o pai. “Nós não fazemos parte de nenhum grupo, de nenhuma elite, de nenhuma classe diferenciada que pudesse de alguma forma ter alguma interferência em tudo isso que está acontecendo.”

Segundo a família, a polícia ainda não os notificou formalmente sobre a conclusão das investigações e os aparelhos eletrônicos confiscados durante cumprimento mandado de busca e apreensão no dia 27 de janeiro ainda não foram devolvidos. A família diz cooperar com as autoridades.

IMAGENS FORAM EXPOSTAS EM GRUPO DO CONDOMINIO, DIZ FAMÍLIA

Os pais afirmam que a exposição saiu do controle após imagens do filho do casal circularem em um grupo de WhatsApp da comunidade da Praia Brava, em meio a desentendimentos entre adolescentes do condomínio e um porteiro. Segundo eles, havia um histórico de reclamações do funcionário relacionadas ao mau comportamento de jovens no local.

Na noite de 12 de janeiro, o porteiro teria feito ameaças verbais ao filho do casal e ao adolescente ainda considerado suspeito pela morte de Orelha, cuja internação foi solicitada pela Polícia Civil de Santa Catarina. Os dois entravam juntos no condomínio para ir à festa de um amigo aprovado no vestibular.

O pai diz que conversou com o funcionário de forma pacífica na mesma noite e trocou contato telefônico, sem qualquer menção à morte do cão Orelha.

A família diz que o filho convive com animais em casa desde que nasceu, e mostrou à polícia um vídeo do jovem se aproximando do cão Caramelo e dando água para o cachorro e se despedindo fazendo carinho. “Um adolescente que trata um cachorro dessa maneira vai sair dali, ir até outra esquina e matar um cachorro? Não tem o menor cabimento isso”, disse.

No dia seguinte, um áudio atribuído ao porteiro passou a circular em grupos, levantando a suspeita que adolescentes do local teriam envolvimento com a morte de Orelha. A família afirma que tentou contato com o porteiro, sem sucesso, e registrou boletim de ocorrência por calúnia. O caso ganhou repercussão após uma postagem nas redes sociais afirma que o funcionário teria presenciado a agressão e gravado um vídeo, versão negada pelo próprio funcionário em depoimento. A reportagem não localizou o porteiro ou sua defesa.

O jovem chegou a ser apontado como um dos envolvidos em outro ataque, ao cão Caramelo, que sofreu tentativa de afogamento na mesma região, mas a família comprovou que ele não estava na Praia Brava na ocasião.

Os pais têm amizade com a família do adolescente indiciado ao fim do inquérito, e dizem acreditar que o indiciamento carece de fundamento e se apoia em indícios frágeis. Procurada pela reportagem na manhã desta sexta (6), a Polícia Civil ainda não se manifestou a respeito das críticas da família.

Os dois também questionam a postura das autoridades durante a condução das investigações e dizem que a polícia falhou em evitar pré-julgamentos e ataques online. “[A morte de Orelha] foi uma brutalidade. A gente tem animal. Foi uma coisa horrível. Mas então vamos apurar seriamente as coisas que aconteceram”, disse o pai do jovem.

A pedido das defesas das famílias dos adolescentes suspeitos, a Justiça de Santa Catarina havia pedido a derrubada de publicações que expusessem os menores de idade. “A gente não fez pra se esconder, a gente fez pra proteger um menor que é inocente. Ele mesmo fala que ele está louco pra falar porque ele quer mostrar que ele é inocente”, afirmou o pai.

A família pensa em pedir responsabilização judicial de envolvidos na divulgação de mensagens caluniosas, mas agora, dizem, o objetivo é retomar a rotina.

“Vários amigos se afastaram, familiares também recebendo ameaças, sendo questionados no trabalho, disse a mãe. “O dano que foi feito, eu não sei se tem reparação”, avalia.

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