O que aprendi com o padre Tomás Halik
Halik estabelece uma excelente maneira de argumentar, de ouvir e ponderar sobre as próprias dúvidas que todos nós carregamos

Cristão há mais de quarenta anos, nasci num lar de pai católico romano e mãe presbiteriana. Meu cristianismo foi por experiência existencial – conversão, como se diz comumente. Tenho, ao longo dessa jornada, aprendido muitas lições e, mais recentemente, tenho aprendido a esquecer algumas delas. Na verdade, penso que ‘esquecer’ é estar aberto para rever certas ideias e conceitos teológicos que tínhamos no início da caminhada.
Vou exemplificar a questão: no princípio da minha caminhada de fé, acreditava que a marca do cristão passava por não fumar, não beber e não jogar. Vocês podem acrescentar mais uns “nãos”. O ‘ser’ cristão era definido pelo ‘não ser’. O bispo anglicano Robinson Cavalcanti brincava dizendo que, com base nesse “padrão”, Hitler poderia ser considerado um ótimo ‘cristão’, pois não bebia, não fumava, não jogava e ainda era vegetariano – o que o tornava “um homem mais esforçado do que nós”, concluía, de forma irônica, o meu amigo bispo.
O padre e filósofo tcheco Thomas Halik me ensinou recentemente que o ateísmo pode ser um bom debatedor, e nos ajudar na caminhada de fé. Ele leva os ateus a sério, debate e é respeitado por eles.
Halik estabelece uma excelente maneira de argumentar, de ouvir e ponderar sobre as próprias dúvidas que todos nós carregamos. Pensando nisso, li a poesia de Jeanne M. Walker, que demonstra como a dúvida ateia pode vir carregada de fé (e por que não?), de beleza, e honestidade.
Depois da leitura, julguem vocês mesmos:
Poder duradouro
(staying power)
Como o escritor russo Gorki, às vezes sigo minhas dúvidas até lá fora
e questiono o céu metálico ansiando para que a disputa seja apaziguada, pensando, não posso continuar assim, e por fim digo: tudo bem, é improvável – tudo bem, não há Deus.
E então, à medida que ajusto o foco de uma lupa sobre folhas secas, Deus irrompe em luz.
É a atenção, talvez ao que não está ali que faz a ideia se inflamar como um incêndio na floresta
até que eu tenha de passar a tarde molhando-o com uma mangueira para apagá-lo.
Até mesmo em um dia comum, quando um amigo liga, e me diz que está com melanoma,
se queixa de que o hospital é frio, eu sussurro Deus. Deus, digo pesaroso.
(…)
Oh, temos um estoque limitado de palavras com as quais pensamos.
Diga que Deus não é fogo, diga qualquer coisa, diga que Deus é um telefone, talvez.
Você sabe que não encomendou um telefone, mas lá está.
Ele toca. Você não sabe quem poderia ser. Você não quer falar, então desconecta o fio do telefone.
Ele toca. Você o esmaga com um martelo até que ele sangre molas e bobinas e pedaços
de metais entortados.
Ele toca de novo. Você atende e uma voz que você ama sussurra alô!
Lendo a poesia junto com as obras de Halik, percebi que palavras grandes como “Deus” ou “vida eterna” designam realidades sobre as quais não podemos fazer afirmações simples – como se elas existissem ou não -, pois “não são evidentes da mesma maneira que as coisas intramundanas”.
Podemos falar sobre elas no modo da esperança: que podem existir; que as vivenciamos não como uma “ocorrência” ou uma “necessidade”, mas como possibilidade, oferta, convite e desafio. (…) A presença de Deus na nossa vida depende do espaço que a nossa liberdade lhe oferece na forma de fé e esperança.
Deus permanece um Deus tão misterioso e oculto, que continua válida a declaração de Pascal: “Existe luz suficiente para aqueles que desejam ver a Deus com toda a sua alma, e escuridão suficiente para aqueles que nutrem o desejo contrário”.
Por fim, não digo que consegui ser um cristão melhor, mas uma coisa faço e sugiro aos leitores (as): esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo, para o pleno conhecimento de Jesus Cristo, me esforçando para ser bondoso, manso, limpo de coração e pacificador.
E que Deus nos ajude!
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