Nunca foi só futebol

Grandes marcas esportivas e os jogadores — verdadeiros empresários de si mesmos — ampliam sua influência global e os seus lucros privados

Pedro Sahium -
Nunca foi só futebol
(Foto: Reprodução)

Em tempos de busca por transparência e de excesso de informação, a Copa do Mundo de Futebol surge como um espetáculo carregado de significados. É interessante notar que existe uma sofisticada engrenagem empresarial e de gestão por parte de organizadores e financiadores.

Os ingressos mais baratos, ainda na primeira fase, custaram cerca de R$ 540,00, chegando a impressionantes R$ 56.800,00. Criou-se até mesmo uma “parada para hidratação”, cuja finalidade, na prática, é possibilitar mais tempo para a exibição de propagandas. Entre os maiores anunciantes estavam as organizações de apostas esportivas, que estimam um lucro global de aproximadamente 300 bilhões de reais. Mais lucros para uns, muito prejuízo para muitos.

As grandes marcas esportivas e os jogadores — verdadeiros empresários de si mesmos — ampliam sua influência global e os seus lucros privados.

A Adidas, por exemplo, inovou ao produzir e vender uma camisa especial da Seleção Mexicana, bordada por artesãs indígenas, ao preço de R$ 1.250,00 a unidade.

Por outro lado, a Adidas foi acusada de explorar as artesãs mexicanas.

Segundo as denúncias, elas recebiam salários ultrajantes, inferiores a dois dólares por hora trabalhada, além de atuarem em condições precárias. Mais grave ainda: precisavam pagar pelos erros que eventualmente cometessem nos bordados das camisas.

Parece-me que o critério de avaliar tudo e todos apenas pelo sucesso econômico e financeiro alcançado está, cada vez mais, dirigindo a mente e a vida das pessoas.

Mas existe algo que é tocante nessa Copa. Quem me disse isso foi o internacionalista árabe Ashraf Abdul J. Baja. No seu Instagram ele repostou um texto que merece ser lido diversas vezes. Vou transcrevê-lo e, depois disso, guardarei silêncio, pois tudo o que precisava ser dito já terá sido dito. Boa leitura:

Em toda a Copa do Mundo algo estranho acontece:
Um pescador do Senegal torce pela Jordânia;
Um adolescente em Joanesburgo comemora um gol do Curação;
Uma família em Jacarta grita por Marrocos.

Pessoas que nunca se conheceram,
Pessoas que não falam a mesma língua,
Pessoas que vivem a milhares de quilómetros de distância,
De repente se unem atrás de países que nem são seus.

Mas por quê?

Porque elas não olham para as equipes mais poderosas e se veem nelas…
A maioria de nós sabe o que é ser esquecido ou subestimado
E quando uma pequena nação enfrenta uma superpotência do futebol
E se recusa a recuar, a questão parece ser pessoal.
Porque todos nós já estivemos lá.

O imigrante começando de novo;
Os pais tentando dar ao filho uma vida melhor;
O sonhador em quem ninguém acredita.

E, por 90 minutos, um pequeno país entra no maior palco do mundo e diz:
“Nós pertencemos a esse lugar também”.
E milhões de pessoas, assistindo de todos os cantos do mundo,
Começam a sussurrar para si mesmas
Talvez eu também…

E é isso que estamos assistindo.
Não é um jogo de futebol…
É esperança.

Esperança de que a história não determine nosso futuro pelo dinheiro
Podemos ser pequenos, mas ainda assim importar

E toda vez que um azarão marca um gol
Nós gritamos e torcemos como se fosse nossa própria vitória
E talvez, por um instante, seja mesmo.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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