Com cerca de 4.400 anos, cilindros achados na Síria podem ser o alfabeto mais antigo e antecipar a escrita em 500 anos

Objetos de argila de 4.400 anos têm sinais misteriosos que ainda não foram decifrados

Gustavo de Souza -
Quatro pequenos cilindros de argila com inscrições antigas encontrados em tumba na Síria
(Foto: Reprodução)

Quatro pequenos cilindros de argila encontrados em uma tumba na Síria podem empurrar a origem do alfabeto para 500 anos antes do que se imaginava.

Os objetos foram achados no sítio arqueológico de Umm el-Marra, no norte do país, e datam de cerca de 2400 a.C. Gravados com sinais misteriosos, ainda não decifrados, eles podem representar uma das evidências mais antigas de escrita alfabética já identificadas.

A descoberta foi apresentada por pesquisadores ligados à Universidade Johns Hopkins, em escavações realizadas no antigo assentamento sírio. O material estava em uma tumba da Idade do Bronze Inicial, ao lado de esqueletos, vasos, joias, metais e outros objetos funerários.

Um achado pequeno, mas com peso histórico

Os cilindros têm tamanho semelhante ao de um dedo e apresentam pequenos furos. Por isso, os pesquisadores levantam a hipótese de que eles tenham sido presos por cordões a outros objetos.

Uma das possibilidades é que funcionassem como etiquetas antigas, usadas para indicar origem, conteúdo ou dono de algum item colocado na tumba.

Um dos sinais foi interpretado pelo semitista Ted Lewis como a possível palavra “Silanu”, talvez um nome próprio. Ainda assim, os próprios especialistas tratam essa leitura com cautela, já que o conjunto de inscrições é pequeno e não há tradução confirmada.

Por que isso pode mudar a história do alfabeto

O ponto mais importante da descoberta está na datação.

Os cilindros foram associados a um contexto arqueológico de cerca de 2400 a.C.. Se a interpretação estiver correta, eles seriam aproximadamente 500 anos mais antigos do que outras evidências alfabéticas conhecidas, ligadas ao sistema proto-sinaítico.

Até então, muitos estudos associavam o surgimento das primeiras escritas alfabéticas ao Egito ou à região do Sinai, depois de 1900 a.C.

O achado em Umm el-Marra sugere que povos do norte da Síria já poderiam estar experimentando formas mais simples de escrita muito antes do que se pensava.

A descoberta ainda divide especialistas

Apesar do impacto, o caso ainda não está fechado.

Como os sinais não foram decifrados e aparecem em apenas quatro cilindros, parte dos pesquisadores prefere esperar novas inscrições antes de confirmar que se trata de um alfabeto.

Essa cautela é importante porque marcas antigas podem ter diferentes funções. Elas podem representar letras, símbolos administrativos, nomes, sinais de posse ou outro tipo de registro ainda desconhecido.

Mesmo assim, a descoberta reacendeu o debate sobre como a escrita começou a se simplificar e a sair de sistemas mais complexos, como hieróglifos e escrita cuneiforme.

Síria volta ao centro da discussão

Se a hipótese for confirmada, a origem do alfabeto pode ganhar uma nova linha do tempo e uma nova localização no mapa.

Em vez de surgir apenas no contexto do Egito ou do Sinai, a escrita alfabética pode ter sido experimentada também em regiões urbanas antigas da Síria.

Por isso, os pequenos cilindros encontrados em uma tumba chamaram tanta atenção. Eles não trazem uma mensagem decifrada, mas podem guardar uma pista decisiva sobre a forma como a humanidade começou a transformar sons em letras.

No fim, a descoberta ainda exige confirmação. Mas, se os sinais forem mesmo alfabéticos, quatro objetos do tamanho de um dedo podem mudar uma das histórias mais importantes da civilização.

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Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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