Anápolis 119 anos: conheça a história dos bairros da cidade que reúnem ruas inspiradas em países e capitais

Mais do que uma curiosidade, Parque das Nações, Nações Unidas e Jardim das Américas revelam um capítulo pouco conhecido do planejamento urbano anapolino

Lara Duarte -
Anápolis 119 anos: conheça a história dos bairros da cidade reúnem ruas inspiradas em países e capitais
Nas Nações Unidas, a Rua Argentina é uma das que se destaca pelo nome. (Foto: Reprodução/Google Street View)

Quem percorre determinadas regiões de Anápolis pode atravessar continentes sem deixar a cidade. Em poucos minutos, é possível passar pela Avenida Buenos Aires, seguir pela Rua Londres, cruzar a Avenida Paris e terminar o trajeto na Rua Nova Délhi.

Em outro ponto, o caminho continua pelas ruas Canadá, Chile, França, Itália, Suíça e Turquia.

O que para muitos moradores parece apenas uma curiosidade da nomenclatura urbana, na verdade faz parte de um planejamento elaborado durante a expansão da cidade.

Os bairros Parque das Nações, Nações Unidas e Jardim das Américas guardam uma identidade própria, construída a partir da escolha intencional de nomes de países, capitais e referências internacionais.

Um projeto pensado para dialogar

Separados apenas pela Avenida Pedro Ludovico, Parque das Nações e Nações Unidas foram planejados como loteamentos complementares.

Enquanto o Parque das Nações homenageia capitais como Paris, Londres, Madri, Viena, Berlim e Buenos Aires, o Nações Unidas percorre países de diferentes continentes, com ruas batizadas de Brasil, Portugal, França, Itália, Canadá, Chile, Argentina, Suíça e Austrália.

As placas fazem parte do cotidiano dos moradores há décadas, mas escondem uma história pouco conhecida sobre a expansão urbana de Anápolis.

A planta original ajuda a explicar a história

Documentos obtidos pelo Portal 6 mostram à planta original do loteamento Parque das Nações. O documento, datado de 1980, identifica como proprietário Jovelino Sabino Rodrigues e traz a assinatura do engenheiro civil Osmar Cabral, responsável pelo projeto urbanístico.

A planta mostra que, desde sua concepção, o bairro já nasceu com ruas dedicadas a capitais internacionais. O detalhe reforça que a escolha dos nomes fazia parte do projeto urbanístico original e não foi uma decisão posterior.

Documento histórico de 1980 revela o planejamento original do Parque das Nações. (Imagem: Mapoteca/Prefeitura de Anápolis)

Documento histórico de 1980 revela o planejamento original do Parque das Nações. (Imagem: Mapoteca/Prefeitura de Anápolis)

Embora tenham registros imobiliários distintos, Parque das Nações e Nações Unidas foram planejados como loteamentos complementares.

Separados apenas pela Avenida Pedro Ludovico, compartilham a mesma lógica de organização. Um reúne capitais do mundo e o outro, países de diferentes continentes.

Assim como o Parque das Nações, o Jardim das Nações nasceu com uma proposta urbanística temática, homenageando países na nomenclatura das vias. (Imagem: Mapoteca/Prefeitura de Anápolis)

Assim como o Parque das Nações, o Jardim das Nações nasceu com uma proposta urbanística temática, homenageando países na nomenclatura das vias. (Imagem: Mapoteca/Prefeitura de Anápolis)

Crescimento acelerado transformava Anápolis

Esse tipo de planejamento não surgiu por acaso. Ele acompanhou um dos períodos de maior crescimento urbano da história de Anápolis.

Segundo a tese “A (Re)Produção do Espaço de Anápolis/GO”, do geógrafo Janes Socorro da Luz, a cidade passou por uma profunda transformação a partir da década de 1970.

A implantação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), em 1976, alterou completamente a dinâmica urbana.

Com a chegada das indústrias, milhares de trabalhadores passaram a ocupar novas regiões da cidade, impulsionando loteamentos residenciais muito além do centro tradicional.

A cidade deixava de crescer apenas ao redor da ferrovia e passava a se expandir em direção às novas áreas industriais.

Um padrão que se repetiu

A temática internacional não ficou restrita ao Parque das Nações.

Outro exemplo aparece no Jardim das Américas, criado no mesmo período de expansão urbana.

Segundo a arquiteta e urbanista Tallita Siade Ramos, autora da dissertação “O processo de verticalização em Anápolis-GO”, os empreendimentos imobiliários passaram a reforçar essa identidade geográfica.

Embora o nome remeta ao continente americano, a proposta também aparece na malha viária.

A planta original revela ruas batizadas de Canadá, Peru, Uruguai e Bolívia, convivendo com referências à formação histórica brasileira, como Aimorés, Caiapós, Goianaz, Jaguaribe e Paranaíba.

Ao mesmo tempo, outras ruas homenageiam povos indígenas e elementos da formação histórica brasileira, como Aimorés, Caiapós, Goianaz, Jaguaribe e Paranaíba, criando uma composição que une referências continentais e nacionais em um mesmo espaço urbano.

Mapa atual permite identificar a permanência da temática internacional nas ruas do Jardim das Américas, décadas após a criação do bairro. (Imagem: Google Maps)

Mapa atual permite identificar a permanência da temática internacional nas ruas do Jardim das Américas, décadas após a criação do bairro. (Imagem: Google Maps)

A escolha demonstra que o loteamento foi concebido para valorizar a diversidade cultural das Américas, indo além de uma simples denominação geográfica e incorporando essa identidade também à malha viária.

Para Tallita Siade Ramos, essa identidade foi incorporada também pelos empreendimentos imobiliários lançados posteriormente.

Condomínios como Residencial América, Condomínio Amazonas, Residencial Amazônia, além dos edifícios Barcelona e Berlim, na segunda etapa do bairro, reforçam essa temática.

Segundo a pesquisadora, esse tipo de nomenclatura fazia parte de uma estratégia utilizada pelas incorporadoras para transmitir modernidade, valorização imobiliária e criar uma identidade própria para os novos empreendimentos que surgiam durante a expansão urbana de Anápolis.

Assim como ocorre no conjunto formado pelo Parque das Nações e Nações Unidas, a nomenclatura das ruas evidencia que havia uma preocupação em conferir personalidade ao bairro por meio do urbanismo, transformando o mapa da região em parte da própria história do empreendimento.

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Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.

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