Irmãos, ex-PMs são condenados a mais de 30 anos por morte de bicheiro Fernando Iggnácio no Rio
Condenados por homicídio triplamente qualificado, irmãos participaram da emboscada que matou o contraventor em 2020. Defesa informou que vai recorrer da decisão

ALÉXIA SOUSA
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O 1º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro condenou nesta sexta-feira (17) os ex-policiais militares Pedro Emanuel e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro pela morte do contraventor Fernando de Miranda Iggnácio, assassinado em uma emboscada em novembro de 2020, no Recreio dos Bandeirantes, na zona sudoeste da capital fluminense.
O assassinato ocorreu em meio à disputa pelo controle de pontos do jogo do bicho e de máquinas caça-níqueis na zona oeste do Rio.
Iggnácio era genro de Castor de Andrade e havia assumido parte dos negócios da família. Ele disputava espaço com Rogério de Andrade, sobrinho de Castor.
Pedro foi condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão. Otto recebeu pena de 31 anos, 5 meses e 6 dias.
Os dois foram condenados por homicídio triplamente qualificado e deverão cumprir as penas inicialmente em regime fechado.
Presos no Paraná, os irmãos participaram do julgamento por videoconferência. A defesa informou após a leitura da sentença que pretende recorrer.
Segundo a denúncia, os acusados chegaram de carro ao local na manhã do crime. Três homens teriam invadido um terreno baldio ao lado do heliponto e permanecido escondidos por cerca de quatro horas, armados com pelo menos dois fuzis.
Iggnácio desembarcou de helicóptero, vindo de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio. Os criminosos posicionaram as armas sobre o muro que separava o terreno do estacionamento, a poucos metros do carro da vítima, e fizeram os disparos. O contraventor foi atingido três vezes, incluindo na cabeça.
A mulher de Iggnácio estava dentro do helicóptero e presenciou o assassinato. A presença dela no momento do crime também foi considerada para o aumento das penas.
Na sentença, o juiz Thiago Portes, que presidiu o julgamento, destacou a “frieza e violência exagerada” da ação.
O magistrado também afirmou que Pedro, que era policial militar à época do crime, traiu o dever funcional ao utilizar conhecimentos técnicos adquiridos na corporação em benefício da “máfia do jogo do bicho”, segundo o Tribunal de Justiça do Rio.
Os dois réus permaneceram em silêncio durante o interrogatório. O julgamento começou na quinta-feira (16), com a oitiva de seis testemunhas, e foi retomado na manhã desta sexta.
Durante a sessão, o advogado Flávio Fernandes afirmou que as provas reunidas no processo eram insuficientes para comprovar a participação dos irmãos no assassinato.
A defesa questionou a investigação da Delegacia de Homicídios e disse que a acusação seria baseada em um conjunto de elementos sem ligação suficiente entre si.
O advogado também afirmou que tinha documentos sobre a saúde mental de Pedro e pediu que ele fosse considerado inimputável. A solicitação para a abertura de um incidente de insanidade mental, porém, havia sido rejeitada pela Justiça.
A defesa ainda negou que os irmãos tivessem relação com Rogério de Andrade, apontado pelo Ministério Público como mandante do assassinato de Iggnácio.
Rogério de Andrade foi preso em outubro de 2024 sob acusação de ser o mandante do assassinato e está detido no presídio federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
Ele não participou do julgamento dos irmãos porque responde a uma ação penal separada. O processo foi desmembrado, e o contraventor ainda aguarda a definição da Justiça sobre se será levado a júri popular. Ele nega ter ordenado a morte de Iggnácio.
A denúncia do Ministério Público também aponta a participação de outros envolvidos na preparação e execução do crime. Parte dos processos foi desmembrada ao longo da tramitação.
O ex-PM Gilmar Eneas Lisboa também responde no processo que envolve Rogério. Segundo a acusação, ele teria monitorado os passos de Iggnácio antes do crime.
O Ministério Público e as defesas já apresentaram suas alegações finais, e o caso aguarda decisão sobre a eventual pronúncia dos acusados.
Em abril, o ex-PM Rodrigo Silva das Neves foi condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias pelo mesmo crime.
A defesa negou a participação dele no assassinato, afirmou que não havia provas diretas que o vinculassem à execução e disse que os elementos apresentados pela acusação eram frágeis.
Os advogados informaram que iriam recorrer da condenação e aguardavam o julgamento de um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça que questiona a validade de uma prova do processo.
Outro acusado de participação na execução, Ygor Rodrigues Santos da Cruz, conhecido como Farofa, foi encontrado morto em novembro de 2022, no Recreio dos Bandeirantes. Ele não chegou a ser julgado.








