A ciência explica que crianças que aprenderam a tocar um instrumento desenvolveram uma habilidade fundamental para a vida

Pesquisa acompanha jovens por anos e encontra associação entre prática musical na infância e desempenho em tarefas do dia a dia

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
A ciência explica que crianças que aprenderam a tocar um instrumento desenvolveram uma habilidade fundamental para a vida
(Foto: Reprodução)

Aprender piano, violão ou violino exige mais do que coordenação. A criança precisa ler sinais, antecipar sequências, ouvir o que produziu e ajustar movimentos quase ao mesmo tempo. Pesquisadores veem nessa combinação pistas de ganhos cognitivos que ultrapassam a música.

Um estudo longitudinal da Universidade de Helsinque, publicado na Frontiers in Integrative Neuroscience, acompanhou 106 participantes de 9 a 20 anos. Destes, 54 tinham formação instrumental iniciada por volta dos 7 anos e 52 não receberam treinamento formal.

O que o estudo encontrou

A habilidade em destaque é a memória de trabalho, sistema que mantém informações disponíveis por alguns segundos enquanto a pessoa as utiliza. Ela entra em ação ao seguir instruções, fazer cálculos mentais ou organizar os próximos passos de uma tarefa.

Os mais jovens com treinamento musical tiveram desempenho melhor em testes que exigiam manutenção imediata de informações e regras. A vantagem apareceu no Digit Span em ordem direta e nos testes Trail-Making A e B, mas não no Digit Span reverso, que exige maior manipulação e atualização da informação.

A diferença entre os grupos diminuiu com a idade, sugerindo que a associação pode refletir desenvolvimento mais rápido de certos componentes cognitivos, e não uma vantagem permanente. Os autores também alertam que não mediram essas habilidades antes do início das aulas nem distribuíram os participantes aleatoriamente. Assim, o estudo não prova causalidade.

O que outras pesquisas indicam

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, com 10 estudos sobre crianças de 3 a 6 anos, encontrou efeito positivo do treinamento musical sobre memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.

Para a memória de trabalho, o efeito combinado foi modesto; os autores, porém, apontaram risco elevado de viés e diferenças entre métodos de ensino.

A música, portanto, aparece como um ambiente de treino cognitivo promissor, mas não como atalho garantido. Os possíveis ganhos dependem da duração, do tipo de prática e do estágio de desenvolvimento da criança.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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