Entidade criada para unir escritores ajuda a preservar histórias e memórias de Anápolis há mais de duas décadas
Com atuação há mais de duas décadas, ULA acolhe novos autores, incentiva a leitura e mantém vivo um acervo dedicado à produção literária local

Em uma casa no bairro Maracanãzinho, estantes reúnem obras que ajudam a contar Anápolis por diferentes perspectivas. São romances, poesias, crônicas, pesquisas e registros históricos produzidos por autores ligados à cidade. O acervo pertence à União Literária Anapolina (ULA), instituição que há 26 anos aproxima escritores, incentiva novos talentos e preserva parte da memória local.
A ULA foi criada em 24 de junho de 2000, durante uma reunião no prédio do antigo Fórum, na Praça Bom Jesus. A ideia vinha sendo amadurecida desde o ano anterior e ganhou forma pelas mãos dos que viriam ser os três fundadores: Laurentina Murici de Medeiros, a Dona Loló; Paulo Nunes Batista; e Artemídoro Alves de Oliveira, conhecido como Jarbas de Oliveira.

Reunião de membros da ULA, com a presença dos três fundadores: Jarbas à esquerda com camisa laranja; Paulo de terno branco; Dona Loló de roupa azul. (Foto: Arquivo Pessoal)
Paulo Nunes defendia uma entidade mais aberta do que as academias tradicionais. Segundo a atual presidente, Natalina Fernandes, ele acreditava que os escritores anapolinos estavam dispersos e precisavam de um espaço capaz de acolher diferentes trajetórias.
Os fundadores
Cordelista, jornalista e advogado, Paulo publicou mais de 130 folhetos e dezenas de livros. Também ocupou a cadeira número 8 da Academia Goiana de Letras. A União dedicou um ano de atividades ao centenário dele, com palestras e um concurso de literatura de cordel nas escolas.
O primeiro presidente do conjunto foi Jarbas de Oliveira. Nascido no Rio de Janeiro, trabalhou em jornais e no rádio em Minas Gerais antes de se estabelecer em Anápolis. Na cidade, foi redator-chefe do jornal A Imprensa e colaborou durante anos com a Tribuna de Anápolis e o Correio do Planalto.
Escritor, poeta e dramaturgo, publicou obras como Versos e Devaneios. Conforme Natalina, permaneceu menos de um ano no cargo, por questões de saúde. Em 2015, Jarbas foi homenageado na sede da ULA por ocasião de seu centenário. A programação reuniu diversas atividades destinadas a celebrar sua trajetória e preservar a memória de sua vida e obra.
Depois dele, Dona Loló assumiu o cargo e permaneceu na presidência durante anos. Outra grande referência para a o circuito literário anapolino como autora e agente cultural, teve sua dedicação reconhecida em 2018, quando o município instituiu o Ano Cultural Dona Loló em homenagem ao seu centenário. Seu nome também batiza o Centro de Eventos Literários que abriga a sede da ULA.
Antes de falecer, confiou a continuidade do trabalho à atual presidente, dizendo que a entidade estava “em boas mãos”; desde 2009, Natalina está no cargo.
Memória e produção cultural
Seu endereço, porém, veio posterior à própria fundação. A estrutura foi inaugurada apenas em junho de 2012. A obra foi viabilizada por meio de parceria com o Governo Federal e recursos de uma emenda parlamentar, e conta com auditório, biblioteca e salas auxiliares.

Sede localizada no bairro Maracanãzinho (Foto: Reprodução/Google Maps)
A biblioteca reúne produções de autores locais. O espaço recebeu o nome de Haydée Jayme Ferreira, escritora e jornalista responsável por uma das principais obras sobre o município.
Publicado em 1981, o livro de “Haymée Anápolis, sua vida, seu povo” registra aspectos históricos, religiosos, sociais e culturais. Ao lado dele, outras obras ajudam a contar transformações vividas pela cidade.
Um dos períodos mais produtivos ocorreu com o projeto Anápolis em Letras, Fatos e Imagens. Conforme Natalina, a iniciativa começou em 2011, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.
A primeira edição teria publicado 38 escritores, segundo a mesma. Demais edições foram responsáveis por várias outras publicações que alimentam a produção literária local. Além de revelar novos nomes aos leitores, o projeto teria permitido a reedição de livros históricos que já estavam esgotados.
A última edição do projeto, viabilizado em parceria com a Prefeitura, foi feita em 2017.
Uma escola para novos escritores
Professora de literatura, escritora e integrante da entidade, Edna Eloi resume a atuação em três palavras: divulgar, agregar e incentivar. “A ULA ajuda na divulgação dos novos escritores, agrega esses autores e continua incentivando cada vez mais a literatura de Anápolis.”, afirmou.
Embora não funcione como editora, a União tornou-se ponto de apoio para quem deseja ver seus escritos impressos. Os integrantes oferecem orientações e explicam os caminhos para organizar uma obra.
“A ULA funciona como uma escola literária. Chegam adultos, idosos, crianças e adolescentes querendo que a gente dê uma opinião”, explicou Natalina.
Essa atuação também chegou às escolas, com encontros sobre poesia, conto, romance, crônica e incentivo à leitura. Em 2023, a presidente participou, em nome da instituição, do lançamento de uma coletânea com cerca de 150 poesias produzidas por estudantes da Escola Municipal Clóvis Guerra.
A continuidade do trabalho, porém, depende do esforço dos voluntários. Os associados contribuem mensalmente para despesas como energia, telefone e reparos. A ausência de funcionários também impede a adoção de um horário diário de atendimento.
Mesmo diante das limitações, reuniões, palestras e lançamentos continuam movimentando o espaço.
“É um lugar extremamente importante para Anápolis, principalmente neste momento de aumento do desinteresse pela leitura”, destacou Edna. “É um grupo que permanece acreditando em um sonho.”
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