De Goiás para a China: estudante da UFG integra seleção campeã de futebol de humanoides

Lucas Reis ainda está na graduação, mas integrou equipe brasileira que foi até a China competir contra outros países

Natália Sezil Natália Sezil -
Estudante da UFG, Lucas Reis ajudou a desenvolver o software dos robôs humanoides que competiram nas Olimpíadas em Pequim.
Estudante da UFG, Lucas Reis ajudou a desenvolver o software dos robôs humanoides que competiram nas Olimpíadas em Pequim. (Foto: Divulgação)

Não é segredo que o Brasil é referência mundial no futebol, desde o pentacampeonato na Seleção Masculina até a Rainha do Futebol, eleita seis vezes melhor do mundo. Mas se engana quem pensa que parou por aí. O país também começou a conquistar títulos em outra modalidade: a dos robôs humanoides.

As Olimpíadas de Robôs Humanoides aconteceram ao longo de agosto em Pequim, na China, e deram o que falar. Com a bola no pé, os brasileiros “levaram a melhor” entre as delegações estrangeiras – e entre os nomes essenciais da competição estava um estudante da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Lucas Reis ainda está na graduação em Engenharia de Software e já pode adicionar ao currículo que foi um dos desenvolvedores do time que competiu contra Itália, México, Malásia, Tailândia e Emirados Árabes Unidos.

As cenas chamam atenção: cinco robôs de cada lado, chutando bolas e tentando marcar gols com seus 1,20m de altura. Dentro de campo, são totalmente autônomos, conseguem enxergar e reagir conforme os companheiros avançam, balançando as pernas e braços.

O segredo está no que foi desenvolvido antes. Lucas contou ao Portal 6 que a equipe era formada por “ex-rivais”: eles já haviam se enfrentado em competições anteriores, como a RoboCup (considerada o Mundial do futebol para os robôs humanoides), mas precisaram se unir para discutir novas estratégias juntos.

Além do representante do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA-UFG), havia alunos da Universidade de São Paulo (USP), Federal de Pernambuco (UFPE), do Estado da Bahia (UNEB) e Centro Universitário FEI.

O plano era usar um modelo chamado Booster T1, um robô humanoide de código aberto que já vinha sendo estudado há meses. Descobriram, no avião, que precisariam trabalhar com o Booster T2, um sucessor mais avançado.

Flavio Tonidandel, professor em São Paulo que foi o técnico da equipe, classificou que “a competição foi particularmente desafiadora porque trabalhamos com uma nova plataforma e tivemos pouco tempo para adaptá-la ao futebol de robôs humanoides”.

Equipe brasileira que participou das Olimpíadas dos Robôs Humanoides na China tinha CEIA-UFG como um dos patrocinadores.

Equipe brasileira que participou das Olimpíadas dos Robôs Humanoides na China tinha CEIA-UFG como um dos patrocinadores. (Foto: Divulgação)

Erro e acerto

Já na China, foram três semanas de competição, que começaram com as preparatórias. “A gente não teve nenhum jogo valendo durante as duas primeiras semanas, eram mais testes”.

“A gente implementava uma lógica, tinha um campo para testar, para ver se se ia dar certo, e fazia ali testes pontuais. Por exemplo, testar isoladamente o goleiro, isoladamente o atacante, zagueiro, quem ia ficar no meio do campo”.

Com os ajustes feitos, o time poderia apenas esperar pelas partidas, mas resolvia se precaver. “Então antes da competição valendo, a gente marcava amistoso com outras equipes”. A preferência eram times que não iriam enfrentar diretamente durante o torneio.

A tensão aumentou na terceira semana, quando os jogos se tornaram eliminatórios. “Tivemos que tomar um cuidado maior ainda, porque já estava valendo e qualquer modificação que quiséssemos na lógica poderia ou melhorar ou piorar bastante”.

A Seleção disputou em duas competições. A principal incluía equipes chinesas. Nesta, o Brasil foi até as quartas de final, mas perdeu para a Donghua University, da China, por 6 a 4. Precisou jogar com dois robôs a menos por conta de problemas técnicos.

Depois da eliminação, disputou o torneio restrito às equipes estrangeiras. Venceu a Malásia e os Emirados Árabes Unidos na fase decisiva. A final foi em cima da Itália, por 2 a 1.

Robôs jogaram futebol em times de cinco.

Robôs jogaram futebol em times de cinco. (Foto: Captura de Tela/Divulgação)

Sistema integrado

Lucas explicou à reportagem que, como aluno de Engenharia de Software, foi nesta parte que focou – mas a estrutura é um componente integrado entre software e hardware, o que considera um dos maiores desafios.

“O hardware é toda a parte física do robô”, resume. Entram na lista os motores que fazem os membros se moverem, as câmeras que simulam os olhos e os computadores pequenos que simulam o cérebro, “que fazem todo o processamento do que está havendo. Não é só ver, tem que entender”.

A parte estrutural também compõe o hardware – é o caso de decidir materiais, peças, formatos, “como uma arquitetura mesmo”.

O software entra na parte lógica. “Por exemplo, eu vou ler o que a câmera está vendo e, baseado naquilo, vou tomar uma decisão. São as ações: andar, correr, virar”.

“Seria o pensamento do robô”, sintetiza o estudante, “fazemos a codificação disso para que o robô entenda o que tem que fazer”.

Troca de experiências

Lucas descreve que participar de uma competição internacional tão importante “foi incrível”, uma verdadeira “troca de experiências”. Ele está no último período da graduação, que dura cinco anos, e vem acumulando repertório na área desde o início do curso.

Há quatro anos, passou a integrar o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), e há três entrou no Pequi Mecânico, núcleo de robótica da UFG. O estudante explica que o Pequi foca bastante nas competições, então já participou de torneios em Minas Gerais, São Paulo, Salvador e Vitória.

Depois, teve a oportunidade de ir para a Coreia do Sul e para a China para participar dos campeonatos mundiais. Destaca o suporte técnico que conseguiram na Ásia: “os robôs são chineses, então um robô quebrava, já levávamos para a sala ao lado para consertar”.

Durante as Olimpíadas, conta que conseguiam comentar ideias com equipes de outros países e alcançar soluções a partir de novas sugestões. “Tivemos um contato muito bom com o pessoal da Tailândia. Eles foram desclassificados em certo momento, então puderam ajudar outras equipes. Acabamos meio que adotando eles para somar forças”.

Equipes de cinco países diferentes foram até a China para participar dos jogos.

Equipes de cinco países diferentes foram até a China para participar dos jogos. (Foto: Divulgação)

Pequi Mecânico

Já dentro da UFG, Lucas explica que o Pequi Mecânico trabalha com dois modelos robóticos, a partir do Booster T1 – um deles para jogar futebol em eventos e o outro para desenvolver pesquisa, seja para atividades domésticas ou na indústria.

Vale dizer que a estrutura básica do Booster T1 é comprada pronta, mas também existe um que foi “criado do zero” pela equipe do Pequi: a Marta.

Lucas estima que o desenvolvimento da jogadora levou cerca de um ano e seis meses, mas explica que isso aconteceu antes de ele entrar na equipe. Agora, o objetivo é executar melhorias constantes.

O estudante detalha que o núcleo de robótica tenta cobrir várias frentes, como robôs destinados a trabalhos domésticos, drones, simulação 2D ou 3D e futebol com rodas. Também já exploraram o ramo das corridas com humanoides.

Com tantas experiências acumuladas, Lucas revela que, após concluir a graduação em Software, pretende fazer um mestrado focado na robótica. Ele diz que quer continuar no CEIA: “me dão muitas oportunidades, e é também uma forma de poder contribuir com tudo que me ofereceram”.

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Natália Sezil

Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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