Arquiteto da Cidade: O urbanista de Anápolis que usa IA para construir as oportunidades que o mercado lhe negou

Com afeto pela história local e inovação tecnológica, Michael dos Santos revoluciona a forma como os anapolinos enxergam seus espaços públicos e atrai os olhos de todo o estado

Danilo Boaventura Danilo Boaventura -
Arquiteto da Cidade: O urbanista de Anápolis que usa IA para construir as oportunidades que o mercado lhe negou
Michael dos Santos, o Arquiteto da Cidade, durante participação no Canteiro 6. (Foto: Captura/ Portal 6)

Michael Martins dos Santos tinha uns 18 anos e ainda não sabia se ia mesmo cursar Arquitetura quando assistiu a um episódio de Lar Doce Lar, da TV Globo.

O que ficou foi uma cena simples: um profissional entra na casa de uma família e, com um projeto bem pensado, muda a rotina, o humor, a própria vida de quem mora ali.

Foi o suficiente. Anos depois, formado, sem carteira de clientes e sem escritório de esquina, Michael descobriu que mudar a realidade de uma família cabia dentro de uma casa — mas mudar a realidade de uma cidade também.

Hoje, sob o apelido de Arquiteto da Cidade, ele usa inteligência artificial para projetar, em vídeos que já ultrapassam os limites de Anápolis, o que a burocracia levaria semanas para colocar no papel.

Da inspiração do “Lar Doce Lar” ao “Arquiteto da Cidade”

A escolha da profissão nasceu ao assistir o quadro Lar Doce Lar, no finado Caldeirão do Huck, mas amadureceu na faculdade.

“Uma faculdade muito difícil”, como ele mesmo resume, e se firmou no dia a dia de quem precisou aprender a fazer de tudo um pouco para sobreviver no mercado de Anápolis.

Foi só bem mais tarde, com a chegada das primeiras ferramentas de inteligência artificial generativa, que a vontade de pensar em uma casa virou vontade de pensar numa cidade inteira. Numa viagem com amigos, Michael começou a repetir a mesma frase diante de cada esquina: “nossa, podia ser assim aqui”.

A frase virou projeto, o projeto virou imagem, a imagem virou vídeo, e o vídeo, publicado no Instagram, virou apelido.

Ele queria um nome mais fácil de lembrar do que “urbanista” — e Arquiteto da Cidade colou tão rápido que hoje é como as pessoas o reconhecem na rua, antes mesmo do nome de batismo.

Dificuldades no início da profissão à trajetória sem atalhos

O que sustenta esse trabalho, no entanto, não é só criatividade. Formado por volta de 2015, Michael não teve trabalho fácil no início de carreira.

Subiu, nas próprias palavras, “degrau por degrau”: foi estagiário na prefeitura de Anápolis, aprendeu a analisar e aprovar projetos, entendeu de perto a legislação que rege a cidade no âmbito da Vigilância Sanitária, Corpo de Bombeiros, loteamento e regularização de obras.

Enquanto muitos colegas se especializavam num nicho só, ele precisou generalizar, porque em Anápolis, diz, “a gente tem que aprender a fazer de tudo” para se manter na profissão.

Foi esse trânsito entre o técnico e o burocrático que, sem que ele soubesse na época, formaria a base para enxergar a cidade como um projeto possível de ser reformulado peça por peça.

Das oportunidades que não teve à coragem de construí-las

Quando o apresentador Pedro Balduíno perguntou o que ele diria ao Michael de 18 anos entrando na faculdade, a resposta veio sem rodeios: “você vai apanhar um pouco, mas não desiste”.

Ele reconhece que veio de uma realidade em que, para conseguir bons projetos de arquitetura, é preciso já estar dentro do circuito certo — algo que não era o seu caso. Faltou, no começo, o que sobra hoje em ferramentas: acesso, tempo, um caminho mais curto entre a ideia e a imagem.

A inteligência artificial passou a ocupar esse vão. Onde antes um render levava um dia inteiro, dependendo de máquinas potentes e de um curso caro de 3D, hoje ele resolve em minutos, ajustando piso, vegetação e mobiliário urbano como quem edita uma foto.

A oportunidade que o mercado não deu de bandeja, ele passou a fabricar sozinho, um post de cada vez.

IA e o Instagram viraram ferramentas de trabalho e criaram rápida reputação

O resultado prático já apareceu nas ruas. O projeto de parklets do Bar do Chico, em Jundiaí, saiu do papel depois que a Prefeitura pediu ajuda para lidar com bares que tomavam a calçada dos pedestres hoje a estrutura devolve a calçada a quem caminha e ainda oferece wi-fi, bebedouro para pets e uma espécie de biblioteca comunitária.

No Instagram, os vídeos já mostraram o que pode virar do Centro histórico, do Mercado Municipal, do Parque JK e do Central Park, sempre puxando para a mesma tecla: a Lei 4446, batizada de Adote um Espaço Público, que permite ao setor privado investir em praças e parques em troca de benefício tributário e visibilidade de marca.

Anápolis, para Michael, é uma cidade boa de morar — segura, tranquila, com fácil deslocamento e hospitaleira o bastante para acolher, ano após ano, famílias inteiras que chegam sobretudo do Pará e do Maranhão em busca de uma vida melhor. Mas ainda é uma cidade ruim de se viver, com poucas praças cuidadas, pouco entretenimento e uma vida noturna que praticamente desaparece no Centro depois das 19h.

É essa distância entre morar bem e viver bem que ele tenta fechar, projeto por projeção, post por post.

O risco de perder quem pensa Anápolis

O alcance já passou muito além da própria cidade. Depois que um vídeo sobre a Avenida Brasil viralizou, prefeitos de São José do Rio Preto e de Rio Verde entraram em contato.

Em Luziânia, foi um projeto sobre iluminação de igreja que chamou atenção do gestor local. Uberlândia também já bateu à porta, interessada em replicar a lógica do Adote um Espaço Público com a ajuda dele.

É o tipo de repercussão que carrega um risco concreto: Anápolis corre a chance de perder, para outra prefeitura mais rápida em abrir espaço, o urbanista que pensa a cidade porque a conhece de dentro, porque cresceu na Rua da Glória, porque ouviu da própria avó como eram os clubes e as praças cheias de décadas atrás.

Michael já disse que não fica só nos vídeos e quer ver os primeiros parklets e as primeiras praças adotadas de pé, como prova de que o projeto funciona antes que outra cidade o convença a provar isso em outro lugar.

Vale a pena assistir ao episódio completo do Canteiro 6 com o Arquiteto da Cidade, disponível no canal do Portal 6 no YouTube.

Danilo Boaventura

Danilo Boaventura

Jornalista graduado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), pós-graduado em Docência em Comunicação pela Faculdade Cidade Verde (PR) e mestrando em Marketing Político pela Universidad del Salvador, de Buenos Aires.

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