Expedição mergulha câmeras à cerca de 500 metros de profundidade na Antártida e encontra colônia com 60 milhões de ninhos de peixe-gelo espalhados por 240 km²

O registro surpreendeu pesquisadores ao mostrar dimensões muito maiores que qualquer expectativa anterior

Magno Oliver Magno Oliver -
Expedição / Antártida / Peixe / Câmera / peixe-gelo da Antártida / ninhos de peixe no Mar de Weddell
(Imagem: Reprodução/Captura de tela/Youtube)

Uma expedição científica encontrou uma gigantesca área de reprodução de peixes no fundo do Mar de Weddell, na Antártida.

As imagens foram feitas em fevereiro de 2021 pelo navio alemão Polarstern, durante uma pesquisa próxima à plataforma de gelo Filchner.

O equipamento utilizado registrou milhares de ninhos entre 420 e 535 metros de profundidade, em uma região praticamente inacessível.

Os pesquisadores estimaram aproximadamente 60 milhões de ninhos espalhados por pelo menos 240 quilômetros quadrados.

A área equivale aproximadamente ao tamanho da ilha de Malta e representa a maior colônia contínua desse tipo já registrada.

Os ninhos pertencem ao peixe-gelo-da-Jonah, espécie conhecida cientificamente como Neopagetopsis ionah e adaptada às águas extremamente frias.

A descoberta chamou atenção porque a região era conhecida pelos cientistas, mas a dimensão da reprodução permanecia desconhecida.

O grupo utilizou o Ocean Floor Observation and Bathymetry System, conhecido pela sigla OFOBS, para observar diretamente o fundo.

O equipamento é conectado ao navio por cabos e transporta câmeras, sensores e sistemas capazes de produzir imagens durante o percurso.

Milhares de ninhos

Nas primeiras imagens, os cientistas perceberam pequenas estruturas circulares espalhadas pelo sedimento do fundo oceânico.

Conforme o OFOBS avançava, os ninhos continuavam aparecendo, indicando que não se tratava de uma concentração isolada.

Em uma área de aproximadamente 45.600 metros quadrados, as câmeras registraram diretamente 16.160 ninhos.

A densidade média observada chegou a aproximadamente um ninho para cada três metros quadrados. Em determinados pontos, a concentração aumentou para um ou dois ninhos ativos por metro quadrado.

Os ninhos possuem cerca de 75 centímetros de diâmetro e aproximadamente 15 centímetros de profundidade. Eles são formados sobre o sedimento e apresentam uma área central com pequenas pedras, onde os ovos são depositados.

Um ninho ativo pode conter entre 1.500 e 2.500 ovos, segundo a análise dos pesquisadores. Em cerca de três quartos dos ninhos ativos observados havia um peixe adulto próximo, aparentemente protegendo os ovos.

Além das imagens de alta resolução, o sistema utilizou sonar para mapear uma área maior e identificar mais de 100 mil ninhos. Com esses dados, a equipe calculou a extensão provável da colônia e chegou aos 60 milhões de ninhos.

Ambiente sob observação

A quantidade estimada representa também uma biomassa aproximada de 60 mil toneladas de peixe-gelo na região.

Os pesquisadores identificaram ainda uma relação entre a colônia e a entrada de águas profundas relativamente mais quentes sobre a plataforma.

Essa condição pode ajudar a explicar por que os animais escolheram aquele ponto para reprodução. A região também chamou atenção pelo comportamento das focas-de-Weddell acompanhadas durante a pesquisa.

Cerca de 90% dos mergulhos registrados desses animais ocorreram sobre áreas onde havia ninhos ativos.

Segundo os cientistas, o comportamento indica que as focas provavelmente procuram alimento na região. A descoberta reforçou a importância ecológica do Mar de Weddell e aumentou os argumentos pela criação de áreas protegidas.

Pesquisadores defendem medidas de conservação porque espécies antárticas costumam apresentar crescimento lento e podem sofrer impactos significativos com mudanças ambientais.

O caso também mostra quanto ainda permanece desconhecido no fundo dos oceanos. O Instituto Alfred Wegener estima que menos de 1% do fundo oceânico tenha sido estudado detalhadamente em relação aos organismos existentes.

Por isso, imagens obtidas por equipamentos como o OFOBS podem revelar ambientes inteiros que permanecem escondidos sob centenas de metros de água.

A colônia encontrada em 2021 passou a ser considerada uma das descobertas mais importantes sobre reprodução de peixes no Oceano Antártico.

O estudo foi publicado na revista científica Current Biology e ampliou o conhecimento sobre a vida existente sob o gelo.

Para os pesquisadores, proteger essa região pode ser fundamental para preservar um ecossistema de dimensões ainda pouco conhecidas.

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Magno Oliver

Magno Oliver

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Escreve para o Portal 6 desde julho de 2023.

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