Jovem preso após desaparecimento de adolescente em Anápolis faz declaração semelhante à de condenado por crimes no Discord

Plataforma tem sido alvo de polêmicas pelo menos desde 2023, quando "King" foi preso por instigar vítima a se mutilar e monetizar conteúdo criminoso

Da Redação Da Redação -
Declaração de Gabriel de Castro Ferreira se assemelhou à de Pedro Ricardo Conceição da Rocha, preso em 2023 por cometer crimes no Discord.
Declaração de Gabriel de Castro Ferreira se assemelhou à de Pedro Ricardo Conceição da Rocha, preso em 2023 por cometer crimes no Discord. (Foto: Reprodução)

Entre os desdobramentos do caso do desaparecimento de Ana Clara Silva, adolescente de 13 anos que foi encontrada na última quarta-feira (09) em Anápolis, chamou atenção o recado deixado pelo suspeito aos familiares da vítima.

Gabriel de Castro Ferreira, de 19 anos, foi preso em flagrante no mesmo dia, autuado pelos crimes de cárcere privado e estupro de vulnerável.

Em entrevista ainda na delegacia, antes de ser levado ao Instituto Médico Legal (IML) e posteriormente ao presídio, o jovem admitiu ter arquitetado a fuga de Ana Clara após se identificar com os problemas pessoais relatados por ela.

Questionado se queria deixar algum recado à família da adolescente, Gabriel respondeu que queria dizer apenas uma palavra: “coisas”.

A declaração logo chamou atenção por conta da semelhança com um caso de 2023, quando foi preso Pedro Ricardo Conceição da Rocha, de 19 anos, conhecido como “King” dentro da plataforma.

O jovem foi detido após instigar vítimas à automutilação, divulgar imagens sexuais e pornográficas de crianças e adolescentes, e monetizar esses conteúdos. Contudo, optou por evitar responder algumas perguntas da imprensa ao ser levado à delegacia.

Perguntado sobre o que fazia no Discord, ele afirmou: “coisas”. Quando os repórteres insistiram, ele também insistiu, repetindo a resposta. Depois, uma terceira vez. Isso fez com que os vídeos repercutissem na época.

No caminho entre a viatura e o interior da delegacia, Pedro Ricardo alegou que “não aliciava ninguém”, “não tinha nada a ver com isso”, não cometia estupros virtuais nem armazenava pornografia infantil.

Algumas perguntas adiante, questionado novamente sobre o que acontecia dentro do grupo que moderava na plataforma, o suspeito voltou a dizer, em tom de deboche: “coisas”.

Ele foi condenado em julho de 2024. A sentença foi de 24 anos e sete meses de prisão por associação criminosa, estupro qualificado e coletivo, estupro de vulnerável e corrupção de menores.

A Polícia Civil (PC) apurou que os crimes aconteceram entre agosto de 2021 e março de 2023 durante transmissões ao vivo, para as quais o jovem ainda vendia ingressos para monetizar. Ele controlava o servidor “System X”.

O Portal 6 procurou a delegada Aline Lopes, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Anápolis, para saber se as autoridades apuram alguma relação entre a declaração de Gabriel e a de Pedro Ricardo.

A titular revelou que essa hipótese não é considerada e explicou que, em relato à Polícia Civil (PC), o jovem deu mais detalhes do que queria dizer com a afirmação.

Vulnerabilidades do Discord

Os casos criminosos envolvendo o Discord têm chamado cada vez mais atenção. Em agosto, a plataforma voltou a entrar na mira das autoridades diante da morte de uma adolescente, de 13 anos, que foi instigada a cometer suicídio.

Desde então, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tem investigado a arquitetura da rede social, que permite mensagens, chamadas de voz e de vídeo.

Usada principalmente por jogadores online, ela se destaca pelos servidores temáticos, que podem ser públicos ou privados. As funcionalidades deles incluem, por exemplo, a transmissão da tela em tempo real.

Com o caso de agosto, a ANPD proibiu o recurso Go Live, cessando as transmissões ao vivo e compartilhamento de tela. O órgão afirmou identificar “falhas na implementação de medidas estruturais e de procedimentos para prevenir e combater violações graves”.

Além dessas funções, preocupa as autoridades o processo de checagem de idade usado pelo Discord, que se baseia na autodeclaração. Ou seja: basta que os usuários indiquem ter a idade mínima para conseguir acessar todos os recursos.

No dia 02 de setembro, a Advocacia-Geral de União (AGU) levou o caso à Justiça por entender que a rede social não conseguiu adotar medidas efetivas para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.

O Discord tem até a próxima quarta-feira (16) para apresentar uma nova proposta ao Governo Federal.

Em tempo

A prisão de Gabriel de Castro Ferreira, acusado pelo desaparecimento de Ana Clara em Anápolis, foi convertida em preventiva na última quinta-feira (10). Assim, ele segue detido durante o andamento das investigações.

Ana Clara, que foi localizada sem ferimentos em um barracão abandonado, se pronunciou posteriormente. Ela relatou que os dois se conheceram por meio de uma amiga em comum e que conversaram por algum tempo antes de decidirem fugir.

A adolescente ainda desmentiu boatos sobre supostos maus-tratos e abusos cometidos pela família. Ela enfatizou que os pais estariam sendo injustamente atacados e ameaçados por internautas.

O pai de Ana Clara, Fábio Corredeira, desabafou ao Portal 6 sobre a tensão dos últimos dias. Ele diz que está se recuperando, mas se sente especialmente incomodado com comentários retratando a casa da família como um ambiente hostil.

“Eu sou um cara simples, trabalhador, trabalho em um serviço braçal. Mas eu tento mudar de vida, tento dar uma qualidade de vida melhor para elas”, disse.

Além disso, defendeu a reação da mãe de Ana Clara, criticada por sorrir durante filmagens na delegacia. Explicou tratar-se de um momento de muito nervosismo, e afirmou: “falaram que o meu choro não convence, que nunca viram um choro sem lágrimas. Essa pessoa não tem noção de tanta lágrima que eu derramei”.

A DPCA segue realizando oitivas e analisando o conteúdo dos telefones celulares.

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Da Redação

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