Quem sai maior e muito menor das urnas em Goiás após eleição surpreendente

Vitórias expressivas, derrotas de antigos protagonistas e crescimento de candidatos que ficaram sem mandato reorganizam a força política no estado

Denilson Boaventura Denilson Boaventura -
Quem sai maior e muito menor das urnas em Goiás após eleição surpreendente
Grandes nomes da política goiana encararam crescimentos e quedas expressivas nas urnas. (Montagem: Reprodução)

A eleição deste domingo (04) mudou a distribuição de poder em Goiás. Daniel Vilela (MDB) garantiu a vitória no primeiro turno, lideranças tradicionais perderam espaço e candidatos com pouca experiência eleitoral superaram deputados que buscavam renovar seus mandatos.

O resultado, porém, exige uma leitura que vá além da relação dos eleitos. Houve quem perdesse a disputa com uma votação muito maior do que antes, como Aava Santiago (PSB). Também houve quem assegurasse mais quatro anos no cargo depois de perder boa parte do eleitorado, caso de Silvye Alves (UB).

A composição das bancadas, o histórico das candidaturas e a capacidade de eleger aliados ajudam a entender quem terá mais influência — e quem encontrará dificuldades para continuar relevante.

MDB e PL ganham terreno; União Brasil e PP perdem espaço na Alego

O PL manteve quatro deputados federais, agora com Fred Rodrigues, Magda Mofatto, Major Vitor Hugo e Fábio Sousa. Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), ampliou sua bancada de três para cinco: Amauri Ribeiro, Lissauer Vieira, Coronel Urzeda, Delegado Eduardo Prado e Marquinho.

O MDB preservou duas cadeiras federais, com Flávia Morais e Célio Silveira, e passou de seis para sete estaduais, mantendo a maior bancada da Alego. Foram eleitos Carol do Amiltinho, Issy Quinan, Lineu Olímpio, George Morais, Cairo Salim, Charles Bento e Paulo Cezar Martins.

O PT conservou dois federais, Adriana Accorsi e Rubens Otoni, e cresceu de três para quatro estaduais: Fabrício Rosa, Antônio Gomide, Kátia e Bia de Lima. O PSD dobrou sua bancada federal, de um para dois, com Lucas do Vale e Daniel Agrobom, e manteve dois representantes estaduais, Paulo do Vale e Coronel Edson Raiado.

União Brasil e Progressistas, agora reunidos em uma federação, mantiveram as quatro cadeiras federais conquistadas separadamente em 2022. Foram eleitos Bruno Peixoto, José Nelto e Silvye Alves pelo União, além de Adriano do Baldy pelo PP.

Na Assembleia, entretanto, a soma caiu de nove para cinco: Virmondes Cruvinel, Wilde Cambão, André do Premium e Talles Barreto pelo União, e Jamil Calife pelo PP. A federação preservou espaço em Brasília, mas perdeu representação estadual.

O Republicanos encolheu de dois estaduais eleitos para um, Cardoso, e conquistou uma cadeira federal com Marussa Boldrin. O PSDB ficou sem representante federal por Goiás e manteve dois estaduais, José Machado e Gustavo Sebba.

Entre as siglas menores, o Novo conquistou suas duas primeiras cadeiras na Alego, com Dr. Amarildo e Neto Karfan. O Mobiliza elegeu Keke da Vulkanic, Bessa e Lucas Kitão. Os resultados mostram o espaço conquistado por chapas que conseguiram transformar sua votação conjunta em mandatos.

Daniel consolida o comando; Marconi se distancia de um retorno

Daniel Vilela recebeu 2.148.218 votos, equivalentes a 59,17% dos válidos, e venceu no primeiro turno. Além do mandato, sai com a maior bancada partidária na Assembleia e uma posição favorável para conduzir as articulações do próximo governo.

Marconi Perillo sofreu o movimento contrário. Depois de quatro mandatos como governador, terminou em quarto lugar, com 315.676 votos e 8,69%, atrás de Wilder Morais (PL) e Luis Cesar Bueno (PT). O resultado enfraquece sua tentativa de recuperar o protagonismo estadual e agrava as dificuldades do PSDB, que não elegeu deputado federal.

Wilder ficou em segundo, com 21,96%, mas não conseguiu levar a eleição ao segundo turno. Preserva o mandato de senador, embora agora precise dividir o espaço de liderança no PL com nomes que conquistaram vitórias mais expressivas.

Daniel Vilela e Marconi Perillo durante sabatina na Acia. (Fotos: Paulo de Tarso)

Gayer ascende, Calil surpreende e Vanderlan perde o mandato

Gustavo Gayer foi o mais votado para o Senado, com 1.639.247 votos. Gracinha Caiado (UB) conquistou a outra cadeira, com 1.458.522. Os dois passam a contar com mandatos de oito anos e maior peso nas decisões políticas do estado.

Zacharias Calil (MDB) terminou em terceiro, com 998.319 votos, superando nomes com experiência em disputas majoritárias. Demonstrou alcance eleitoral para além da Câmara, mas ficará sem mandato ao término da atual legislatura.

O revés foi mais direto para Vanderlan Cardoso (PSD), que recebeu 633.843 votos e perdeu a reeleição. Gustavo Mendanha (PRD), segundo colocado para governador em 2022, ficou em sexto para o Senado, com 578.418. Ambos terão de reconstruir caminhos para voltar ao centro das articulações estaduais.

Bruno Peixoto, Adriana Accorsi e Fred Rodrigues chegam com mais força a Brasília

Bruno Peixoto (UB) converteu sua passagem pela presidência da Alego na maior votação federal de Goiás: 207.899 votos.

Adriana Accorsi passou de 96.714 votos em 2022 para 177.103, crescimento de 83,12%. Fred Rodrigues, com 152.380, também saiu fortalecido: após perder a disputa pela Prefeitura de Goiânia em 2024, conquistou a terceira maior votação para a Câmara.

O resultado ainda marcou o retorno de Major Vitor Hugo (PL), com 104.378 votos, e a chegada dos estaduais Lucas do Vale (PSD) e Lucas Calil (PRD) à Câmara, com 126.679 e 109.025, respectivamente. São mudanças que alteram também a disputa por influência dentro dos partidos.

Bruno Peixoto, Adriana Accorsi e Fred Rodrigues chegam fortes à Câmara Federal. (Fotos: Reprodução)

Aava cresce como liderança, mas esbarra na chapa que comandou

Aava Santiago recebeu 123.311 votos, foi a sétima mais votada para deputada federal em Goiás e não conseguiu se eleger. O desempenho do PSB não garantiu uma cadeira, apesar da votação individual da vereadora.

Em 2022, concorrendo ao mesmo cargo pelo PSDB, havia recebido 13.387 votos. Agora, conquistou 109.924 votos adicionais, uma alta de 821,12%. A derrota na distribuição das vagas veio acompanhada de uma expansão expressiva de sua base eleitoral.

Como presidente estadual do PSB, função que assumiu neste ano, Aava também terá de avaliar a montagem da chapa. Sai com mais projeção pessoal, mas com o desafio de construir uma estrutura partidária que consiga acompanhar sua votação.

Aava Santiago, vereadora por Goiânia. (Foto: Reprodução)

Humberto cresce e a eleição do irmão devolve um mandato ao grupo

Humberto Teófilo recebeu 88.457 votos para deputado federal, contra 37.091 em 2022, crescimento de 138,49%. Ficou novamente fora da Câmara, mas desta vez viu o irmão, Dr. Amarildo, conquistar um mandato estadual pelo Novo com 43.130 votos.

Amarildo havia recebido apenas 2.909 votos para deputado estadual em 2022 e também não conseguiu se eleger vereador de Goiânia em 2024. Agora, chega à Alego como o mais votado de uma legenda que estreia na Casa com duas cadeiras.

Humberto não alcançou seu objetivo pessoal, mas ampliou seu eleitorado e terá um aliado próximo na Assembleia. Para o grupo familiar, a eleição interrompe uma sequência de disputas sem conquista de mandato.

Humberto Teófilo e seu irmão, Dr. Amarildo. (Foto: Reprodução/TikTok)

Humberto Teófilo e seu irmão, Dr. Amarildo. (Foto: Reprodução/TikTok)

Paulin Vai Nele supera veteranos e muda a hierarquia da própria federação

Paulin Vai Nele (PRD) protagonizou uma das principais surpresas da eleição estadual. O comerciante e influenciador recebeu 33.588 votos e conquistou seu primeiro mandato.

Na Federação Renovação Solidária, formada pelo PRD e pelo Solidariedade, ficou à frente de Cristiano Galindo (32.709), Cristóvão Tormin (31.454), Julio Pina (30.225) e Coronel Adailton (23.606). Como a federação elegeu quatro deputados, Paulin conquistou a última vaga e os quatro parlamentares ficaram sem reeleição.

O contraste com sua trajetória anterior é expressivo. Em 2020, quando disputou uma cadeira de vereador em Goiânia, recebeu 403 votos. Embora sejam cargos diferentes, a comparação dimensiona o avanço de sua candidatura.

Paulin Vai Nele (PRD)

Paulin Vai Nele (PRD) foi uma das surpresas da votação. (Foto: Divulgação)

Fabrício ganha peso no PT; família do Vale e Graciele da Arte Trigo ampliam influência regional

Fabrício Rosa passou de 20.432 votos para estadual em 2022 para 81.540, crescimento de 299,08%. Foi o segundo mais votado de Goiás e chega à Assembleia com força para ocupar uma posição de destaque no PT.

Em Rio Verde, Paulo do Vale (PSD) foi eleito estadual com 72.792 votos, enquanto o filho, Lucas do Vale, conquistou uma cadeira federal. A família passa a ter representação simultânea na Alego e na Câmara.

Já Graciele da Arte Trigo (Agir), ex-prefeita de Campo Limpo de Goiás, recebeu 37.252 votos e superou candidatos experientes com base em Anápolis, incluindo Vivian Naves e Coronel Adailton. Sua vitória abre espaço para uma nova liderança regional.

Márcio e Andreia, os grandes generais eleitorais de Anápolis

Márcio Corrêa acertou nas principais candidaturas que apoiou: Daniel Vilela para governador, Gustavo Gayer para senador, Célio Silveira para federal e Carol do Amiltinho para estadual.

Além de eleger aliados, viu dois adversários locais, Vivian Naves e Coronel Adailton, perderem seus mandatos. A combinação amplia sua influência nas articulações de Anápolis e sua interlocução com representantes estaduais e federais.

A eleição de Carol do Amiltinho, com 109.002 votos, também fortalece Andreia Rezende (Avante), presidente da Câmara Municipal, irmã de Amilton Filho e coordenadora da campanha.

Andreia participou da reorganização da candidatura após o falecimento do irmão e da decisão de lançar Carol, que terminou como a deputada estadual mais votada da história de Goiás. O resultado preserva a representação do grupo na Assembleia e reforça a posição da vereadora dentro do cenário anapolino.

Andreia Rezende e Márcio Corrêa votaram juntos nas eleições de 2026. (Foto: Reprodução/Instagram)

Andreia Rezende e Márcio Corrêa votaram juntos nas eleições de 2026. (Foto: Reprodução/Instagram)

Rubens e Gomide preservam eleitorado cativo em meio à pulverização de candidaturas

Rubens Otoni foi reeleito com 101.902 votos, enquanto Antônio Gomide conquistou o terceiro mandato estadual consecutivo com 51.747. Os resultados mostram a capacidade dos dois de conservar uma base eleitoral construída ao longo de suas trajetórias.

Em uma cidade com várias candidaturas locais disputando os mesmos cargos, essa base fiel representa uma vantagem. Rubens e Gomide mantêm referências políticas reconhecidas pelo eleitorado, enquanto outros grupos dividem apoio entre diferentes nomes.

Gomide acrescentou 6.491 votos ao resultado de 2022, uma alta de 14,34%, e foi o único deputado estadual com base em Anápolis a conseguir a reeleição. O desempenho mantém o petista entre as principais lideranças da cidade, mesmo com a entrada de novos representantes na Assembleia.

Silvye preserva o mandato, mas perde o peso demonstrado em 2022

Silvye Alves caiu de 254.653 para 78.332 votos, redução de 176.321, equivalente a 69,24%. Conseguiu se reeleger, mas deixou de ocupar a liderança da votação federal goiana. É uma vitória institucional acompanhada de forte retração eleitoral.

Delegado Waldir (UB), que já havia liderado a disputa federal no estado, recebeu 22.582 votos e não conseguiu retornar à Câmara. A votação mostra a dificuldade de recuperar o apoio que o colocou entre os protagonistas da política goiana.

Lêda Borges e Mauro Rubem ampliam votação, mas perdem os mandatos

Entre os federais que buscavam a reeleição, Professor Alcides (PSDB) recebeu 61.685 votos, contra 90.162 em 2022, queda de 31,58%. Ismael Alexandrino (PSD) passou de 54.791 para 49.808 e também ficou de fora.

Já Lêda Borges (Republicanos) cresceu de 51.346 para 69.417 votos, mas perdeu o mandato. Seu caso reforça o problema enfrentado por candidaturas cuja votação individual não encontra correspondência no desempenho da chapa.

Na disputa estadual, o ex-vice-governador Lincoln Tejota (UB) recebeu 39.105 votos e perdeu a reeleição. Mauro Rubem (PT) cresceu 71,30%, chegando a 38.206, mas também ficou sem vaga. A expansão da bancada petista, portanto, veio acompanhada da saída de um de seus parlamentares experientes.

Lêda Borges e Mauro Rubem ampliam votação, mas perdem os mandatos

Lêda Borges e Mauro Rubem ampliaram número de votos, mas perderam os mandatos. (Fotos: Instagram/Alego)

Adib e outros nomes tradicionais encontram dificuldades para continuar relevantes

Depois de quatro mandatos como prefeito de Catalão, Adib Elias (MDB) recebeu 26.379 votos e não conseguiu chegar à Assembleia. Enquanto Jamil Calife e Gustavo Sebba renovaram suas cadeiras, Adib perdeu a oportunidade de sustentar sua influência por meio de um mandato estadual.

Outros políticos experientes também sofreram quedas importantes. Clécio Alves (PSDB) perdeu 50,26% da votação de 2022 e terminou com 14.087 votos. Veter Martins (PSB) caiu 40,17%, para 18.449. Ambos ficaram fora da Alego.

Felipe Cecílio não transforma lacração em votos

Felipe Cecílio (PSDB) ganhou visibilidade durante a campanha com confrontos envolvendo outros candidatos e episódios de retirada de propaganda das ruas. Nas urnas, porém, recebeu 3.746 votos, contra 14.685 em 2022.

A perda de 74,49% da votação anterior mostra que a exposição alcançada durante a disputa não se converteu em apoio eleitoral. O resultado enfraquece sua tentativa de construir espaço na política estadual.

Felipe Cecílio se envolveu em polêmica com Adriana Accorsi e Mauro Rubem, durante caminhada dos candidatos petistas em feira de Goiânia. (Imagens: Reprodução/Instagram)

Felipe Cecílio se envolveu em polêmica com Adriana Accorsi e Mauro Rubem, durante caminhada dos candidatos petistas em feira de Goiânia. (Imagens: Reprodução/Instagram)

Derrota de Vivian aumenta a vulnerabilidade de Roberto no Republicanos

Vivian Naves caiu de 38.574 para 22.225 votos, redução de 42,38%, e perdeu a reeleição. Roberto Naves, ex-prefeito de Anápolis e presidente estadual do Republicanos, fica sem a presença institucional que o mandato da esposa assegurava ao grupo.

O desempenho partidário agrava o revés. A sigla elegeu apenas Cardoso para a Alego e Marussa Boldrin para a Câmara, esta última eleita anteriormente pelo MDB. Ricardo Quirino, uma das principais apostas federais do partido, ficou de fora, assim como Lêda Borges.

O resultado pode aumentar a pressão sobre Roberto no comando estadual. Uma eventual substituição depende de decisão interna, mas a condução da eleição passa a ser um ponto de vulnerabilidade justamente quando a família perde seu mandato parlamentar.

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Denilson Boaventura

Denilson Boaventura

Graduado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Especialista em Marketing, Estratégia e Inovação Digital pelo Centro Universitário Araguaia (UniAraguaia).

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