Entenda como Goiás driblou tarifaço e aumentou em 57% as exportações aos EUA em 2025

Embora setores sucroenergéticos e de mineração tenham baqueado, forte demanda pela agroindústria elevou o valor total das vendas

Davi Galvão Davi Galvão -
Imagem mostra vista aérea da indústria (Foto: Unidade JBS/Friboi de Mozarlândia) tarifaço
Indústria da carne foi uma das principais responsáveis pelo superávit (Foto: Unidade JBS/Friboi de Mozarlândia)

Embora Goiás não tenha ficado alheio ao resto do mundo e também sentido o impacto do tarifaço norte-americano que chegou a 50% em determinados produtos, o estado ainda terminou 2025 com um aumento de 57,04% nas exportações estadunidenses em comparação ao ano interior.

Conforme dados publicados pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), em 2025 os Estados Unidos consolidaram-se como o segundo principal destino das exportações estaduais, com US$ 641,4 milhões (ante a US$ 408,4 milhões em 2024).

O país ficou atrás apenas da China, que atingiu o volume de impressionantes US$ 5,8 bilhões.

Em entrevista ao Portal 6, a gerente de internacionalização da Fieg, Juliana Thormin, explicou que, apesar do tarifaço, setores estratégicos conseguiram sobressair principalmente por conta de dois motivos: uma demanda real vinda dos EUA sobre determinados produtos e também a diversificação de mercados.

Escoamento e negociações

Logo após o baque inicial, com as tarifas chegando aos 50%, Juliana comentou que de imediato a Fieg se prontificou a realizar negociações e visitas para tentar reverter o cenário.

Assim, ainda em setembro, o presidente da federação, André Rocha, integrou uma missão liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) rumo aos Estados Unidos.

O intuito era negociar diretamente com as autoridades norte-americanas, mostrando o prejuízo que as sobretaxas estavam causando à indústria goiana e buscando a flexibilização das medidas.

A comitiva contou com a participação de líderes e empresários dos setores mais afetados pelas tarifas, especificamente os de açúcar e vermiculita (mineral muito utilizado na construção civil).

Inclusive, a empresa goiana Jalles Machado, uma dos maiores do setor sucroenergético do Brasil, foi uma das que enviou representantes para participar dessas negociações estratégicas.

Imagem de cana sendo colhida para a produção de açúcar. (Foto: Divulgação)

Imagem de cana sendo colhida para a produção de açúcar. (Foto: Divulgação)

Embora as tarifas tenham sido inicialmente severas, Juliana Souza destaca que houve uma retomada das exportações após esse período de negociação, quando as taxas de alguns produtos foram retiradas ou reduzidas.

Ainda assim, a Fieg também se preocupou em remediar no curto prazo o problema da escoação de produtos que não poderiam aguardar tanto tempo.

“Então vamos estudar a nível mundo. Quem no mundo que compra esse produto? Se o preço é competitivo, não é? O que precisa ajustar? Quem compra?”, comentou acerca da atuação da área internacional do Fieg, que passou a buscar mercados alternativos ao empresariado goiano.

A citar alguns exemplos de produtos que tiveram de achar um novo destino, abre-se um destaque especial para a carne, tornando o bife goiano um proibitivo no varejo americano.

A solução foi uma diversificação agressiva: os frigoríficos goianos voltaram os olhos para o México, que viu um aumento de 148% nas compras de carne de Goiás em 2025.

“O setor de carne mesmo é um que não teve queda, né? Ele se manteve. No primeiro momento ali deu uma paralisada, mas depois quando teve essa retomada que tirou ali a as taxas, né, de alguns produtos, esses produtos alavancaram de novo e continuar as exportações”, comentou.

Superávit e desafios do futuro

Apesar de diversos produtos terem sido isentos de boa parte das sobretaxas ainda em novembro de 2025, como a carne, café e o suco de laranja, diversos outros seguiram com tarifas elevadas que, na prática, impossibilitavam trocas comerciais.

Produtos como o açúcar e a vermiculita permaneceram diretamente expostos às sobretaxas e registraram retrações acentuadas nas vendas ao mercado norte-americano, com quedas de 58% e 86%, respectivamente.

A Jalles Machado, gigante sediada em Goianésia, foi particularmente afetada e teve que redirecionar parte da sua produção para o mercado interno (açúcar cristal comum) ou estocar o produto, já que os EUA absorviam até 90% da sua produção de açúcar especial.

“Mesmo com esses setores de fato tendo um volume de vendas reduzido, a balança comercial como um todo ainda se manteve positiva muito por conta da carne e do agronegócio, que conseguiram sustentar e até lucrar em meio a tantas incertezas”, destacou.

Ao menos com a queda do tarifaço desta última sexta-feira (20) todas as sobretaxas punitivas de 40% e 50% aplicadas via IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência) foram anuladas imediatamente.

Para o Brasil, isto é especialmente benéfico, pois o país estava com um dos maiores graus de tarifas comerciais do mundo.

Porém, na mineração, a história é outra, especialmente no caso do aço e do alumínio. Isso porque como as tarifas desses setores se baseiam em outra lei (Seção 232, de Segurança Nacional), elas não foram afetadas pela decisão da Suprema Corte e seguem pesadas para a mineração goiana.

Incertezas

Por fim, a posição final do Fieg foi de dever cumprido até o momento, com o superávit goiano nas exportações mesmo em um cenário tão calamitoso.

Embora o fim do tarifaço represente um respiro para boa parte da indústria goiana, Juliana recomendou cautela com relação a previsões para o futuro, muito por conta da incerteza que acompanha a administração estadunidense, sob as rédeas de Trump.

Já nesta terça-feira (24), por exemplo, entrou em vigor uma nova “Tarifa Global” de 10% que Trump anunciou no sábado (21) como resposta à derrota na Corte.

A sigla, na verdade, foi anunciada em 15%, mas não chegou na totalidade. É ruim, mas é muito melhor que os 50% anteriores.

“O importante para o empresariado é seguir com cautela, especialmente com tantas instabilidades e imprevisibilidades. No mais, o Fieg segue atuando em parceria com as indústrias para buscar alternativas através de negociações, seja para reduzir tarifas ou encontrar novos parceiros”, finalizou.

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Davi Galvão

Davi Galvão

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Atua como repórter no Portal 6, com base em Anápolis, mas atento aos principais acontecimentos do cotidiano em todo o estado de Goiás. Produz reportagens que informam, orientam e traduzem os fatos que impactam diretamente a vida da população.

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