Estrada de Ferro Goiás: a história da ferrovia que impulsionou o comércio e mudou o destino de Anápolis
Implantação dos trilhos e posição da cidade como ponto final da linha atraíram imigrantes e dobraram a população em apenas 20 anos

Inovação, crescimento, transformação… todos esses adjetivos poderiam ser usados para descrever a chegada da Estrada de Ferro Goiás a Anápolis, em 1935. A estrutura mudou o funcionamento da cidade e permitiu que o município se desenvolvesse de uma forma que ainda não tinha sido observada.
Há quem considere que a implantação foi um “catalisador da modernidade”, ao possibilitar novos formatos de circulação e ocupação, não só em Anápolis, mas também para cidades vizinhas.
Inicialmente, a ideia era que os trilhos começassem em Araguari, em Minas Gerais, e seguissem até Cuiabá, em Mato Grosso, mas os planos logo mudaram. Uma série de atrasos e interrupções fizeram com que o traçado acabasse na Cidade de Goiás.
Eventualmente, Anápolis acabou assumindo o papel de “ponta de linha”. Os professores Lucas Vargas e Wilton Medeiros, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), explicaram o fenômeno em um estudo publicado na Revista Jatobá em 2025.
Segundo os especialistas, era comum que a cidade que recebesse os trilhos experimentasse uma atratividade de imigrantes e o surgimento de novas relações comerciais à medida que aumentava o transporte.
As obras do trecho que ligaria Leopoldo de Bulhões àquela que ainda se tornaria a “Manchester goiana” começaram em 1933. Quando finalizaram, e a locomotiva finalmente chegou, em 1935, houve festa em Anápolis.
Milhares de pessoas se reuniram para ver a inauguração. De acordo com os professores, “toda a cidade foi mobilizada pelos festejos, atraindo e envolvendo todas as camadas de renda, inclusive a massa de trabalhadores”.

Festividade de inauguração da Estação Ferroviária de Anápolis. (Foto: Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho)
A ferrovia acabou mudando a composição da cidade e também as estruturas urbanas. A Praça Americano do Brasil (conhecida como Praça do Avião), por exemplo, só passou a ter essa função por conta da chegada dos trens.
Antes, o local abrigava o segundo cemitério do município, desativado em 1926 depois que o terreno ao lado foi escolhido para abrigar a estação.
Para Vargas e Medeiros, “a construção da Estação Ferroviária de Anápolis foi fundamental para a construção da memória coletiva da cidade a partir de 1935, sendo um ponto de encontro e um símbolo de progresso econômico e social”.
Os vagões transportavam pessoas, mas principalmente cargas. Mesmo assim, os trilhos foram usados por vários migrantes de outros estados, que decidiam “buscar a sorte” em Anápolis. A mesma coisa acontecia com cidadãos de outros países.
Os sírio-libaneses chegaram ao município principalmente nesta época, acompanhados por japoneses e italianos, que já tinham começado a se instalar na cidade.
A ferrovia permitia não só a chegada ao novo lugar, mas também o transporte de mercadorias que possibilitariam a permanência deles. O número de habitantes logo cresceu, saltando de 16 mil, na década de 1920, para cerca de 40 mil, nos anos 1940.
Com o tempo, os trilhos passaram a ser ignorados para que as rodovias ganhassem atenção. Os professores da UEG apontam que isso aconteceu na década de 1950, mesma época em que Juscelino Kubitschek foi presidente do Brasil.

Praça Oeste, ainda com os trilhos da Estrada de Ferro, em 1974. (Foto: Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho)
A Estrada de Ferro Goiás ficou abandonada, e as estruturas entraram em decadência. Para os especialistas, a construção de Brasília foi um agente que impulsionou o uso dos trilhos, mas também foi decisiva para o agravamento do descaso.
A ideia inicial era de que os trens pudessem alcançar Goiânia, mas isso nunca aconteceu, e Anápolis ficou definida como o ponto final da linha.
Quanto ao prédio da estação, no Centro da cidade, houve disputa para decidir entre a demolição ou a preservação. O edifício chegou a ser usado como sede de órgãos públicos, como o Tiro de Guerra do Exército, depois passou a dividir espaço com o Terminal Urbano, erguido na década de 1980.

Tiro de Guerra, núcleo do Exército de Anápolis, utilizando a Estação Ferroviária de Anápolis em 1976 (Foto: Facebook/Estação Ferroviária de Anápolis)
Foi tombado em 1991, mas acabou sendo “engolido” pela expansão da estrutura usada pelos ônibus. O estudo dos profissionais da UEG destaca que a valorização do imóvel retornou apenas em 2015, assumindo o cenário atualmente observado no Setor Central.
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