Manobra militar da Otan leva crise com a Rússia para o Ártico

Exercício reúne forças ocidentais em área estratégica entre Noruega e Groenlândia, enquanto Moscou reage a novas ações na região

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Presidente da Rússia, Vladmir Putin. (Foto: Captura/ Youtube)
Presidente da Rússia, Vladmir Putin. (Foto: Captura de Tela/ YouTube)

IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um exercício militar da Otan levou a crise entre a aliança militar ocidental e a Rússia para os confins do Ártico, uma das fronteiras de atrito mais complexas do planeta.

Desde o dia 26 de agosto, forças da Otan realizam uma manobra chamada Atlantic City-2026, visando posicionar de forma rápida forças de mísseis para interdição de espaço aéreo e naval nos mares entre a Noruega e a Groenlândia.

Pela primeira vez desde 2024, a Otan enviou para o exercício uma bateria da versão móvel de lançamento terrestre do míssil de cruzeiro americano Tomahawk, instalada em Trondheim (Noruega).

A arma está sendo racionada devido ao alto gasto na guerra contra o Irã, estimado em um quarto dos 4.500 mísseis em estoque. O modelo foi negado à Ucrânia para atacar a Rússia no conflito que opõe os aliados ocidentais de Kiev e Moscou.

A versão móvel terrestre de lançamento do míssil, naval na origem, permite disparar variantes com alcance de até 2.500 km. É o dobro do necessário para atingir as bases da Frota do Norte russa, e ainda sobra para alvejar até a capital russa.

Além disso, forças britânicas, americanas e norueguesas instalaram modelos de menor alcance e defesa antiaérea na ilhota de Jan Mayen, que fica cerca de 1.000 km distante da costa do país nórdico. Um cargueiro A-400M Atlas da Força Aérea Real trouxe baterias e blindados, além de soldados.

“Com a crescente atividade militar da Rússia e o maior interesse da China no Ártico, os Aliados concordam que precisam fazer mais”, diz uma nota da Otan acerca do lançamento do Sentilena Ártico, o guarda-chuva de operações que incluem a Atlantic City — nome de uma base da Segunda Guerra em Jan Mayen.

A ilha fica no meio da estratégica brecha Giuk, acrônimo inglês para Groenlândia, Islândia e Reino Unido, que indica os limites laterais dos corredores por onde submarinos nucleares e navios da Frota do Norte russa passam rumo ao Atlântico Norte.

A instalação das forças, que deve terminar nesta sexta (4), coincide com um momento de alta tensão com a aliança, em particular com a própria Noruega.

Oslo apreendeu um navio de cruzeiro russo no Ártico no fim da tarde de quarta (3) perto de Svalbard, arquipélago do país nórdico que fica na área do exercício militar. A ação foi feita em nome da empresa de energia ucraniana Naftogaz, que busca US$ 4,2 bilhões em compensações pela anexação da Crimeia em 2014.

A embarcação estava em Barentsburg, uma cidade de mineração de carvão operada pela Rússia. Apesar de norueguês, o arquipélago de Svalbard garante direitos de exploração aos aderentes de um acordo de 1920 que deu a posse do lugar a Oslo.

A chancelaria russa disse que a ação norueguesa foi “um ato de pirataria”, mas que iria buscar liberar o navio por meios legais. O embaixador do país nórdico foi convocado para receber o protesto. Já o governador de Svalbard, Lars Fause, disse ao canal TV2 que garantirá a volta dos passageiros para a Rússia.

Svalbard entra no enredo da crise por outro motivo. Por força do tratado de 1920, a região não pode ser militarizada. Isso a torna, aos olhos de analistas da Otan, um alvo perfeito para uma eventual ação russa direta contra a aliança: desprotegida, no extremo norte do planeta.

Além disso, duas vilas russas no local somam 392 dos 2.914 moradores do arquipélago, o que dá a Moscou um argumento de proteção a seus cidadãos.

Há outros fatores de tensão. Com o recrudescimento da Guerra da Ucrânia, governos do Leste Europeu e do norte do continente temem uma escalada direta contra seus territórios, algo que a Rússia nega.

Seja como for, o clima exacerbado pela promessa do Reino Unido de entregar tecnologia de mísseis avançados a Kiev levou o diretor da CIA, John Ratcliffe, a fazer uma rara viagem a Moscou para discutir a crise.

Nesta semana, a Alemanha acusou a Rússia de ter planejado um ataque frustrado com drones armados contra aviões ucranianos baseados no aeroporto de Leipzig.

Uma série de ações de sabotagem no país levantou a suspeita de envolvimento russo, embora possa ter a ver com radicais às vésperas de eleições locais.

Com tudo isso, a presença de forças ofensivas da Otan em um teatro menos óbvio do que o Leste Europeu e o mar Báltico ganha significado adicional. Se Moscou tinha intenções sobre Svalbard, a aliança buscou dar um sinal de força nada sutil.

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