Pesquisadores descobrem que gelo derretendo na Antártida abre caminho para água mais quente chegar por baixo das plataformas e acelerar ainda mais o derretimento
Simulações revelam um ciclo capaz de enfraquecer importantes barreiras congeladas e mostram por que prever o futuro do continente ainda é tão difícil

Debaixo das enormes plataformas de gelo que cercam a Antártida existe um processo invisível da superfície e capaz de influenciar diretamente quanto gelo o continente perderá nas próximas décadas.
Pesquisadores descobriram que, em determinadas regiões, o próprio derretimento pode alterar as características da água próxima à costa e facilitar a chegada de correntes oceânicas mais quentes à base das plataformas. Quando isso ocorre, mais gelo derrete e o ciclo pode se reforçar.
O fenômeno foi identificado por meio de simulações que representam o oceano, o gelo marinho e as plataformas antárticas de forma interativa.
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Como o ciclo acontece
Ao redor de partes da Antártida existem águas frias, salgadas e relativamente densas que dificultam a entrada de águas oceânicas mais quentes nas cavidades localizadas debaixo do gelo flutuante.
Com o aquecimento e o aumento do derretimento, mais água doce entra nesse sistema. Isso reduz a densidade da água costeira.
A mudança pode enfraquecer a barreira que antes dificultava a passagem das correntes profundas e permitir que água mais quente alcance a parte inferior das plataformas.
Nas simulações, essa retroalimentação respondeu por cerca de dois terços do aumento total da taxa de derretimento das plataformas.
O processo preocupa porque essas estruturas funcionam como uma espécie de contenção para o gelo que está sobre o continente. Quando ficam mais finas e frágeis, geleiras em terra podem avançar mais rapidamente para o oceano. O enfraquecimento do Glaciar Thwaites, na Antártida Ocidental é um dos casos acompanhados de perto pelos cientistas.
Nem toda região responde igual
A descoberta também trouxe uma ressalva. A água doce liberada pelo degelo pode ser transportada para outras regiões da costa e, ali, dificultar a entrada de águas quentes.
Ou seja, existem feedbacks positivos e negativos atuando ao mesmo tempo, e o comportamento varia conforme circulação oceânica, salinidade e características locais.
Essa complexidade ajuda a explicar por que ainda existem grandes incertezas nas projeções sobre a Antártida. Até mudanças aparentemente distantes podem alterar a dinâmica do continente, que já apresenta transformações associadas ao avanço do degelo.
Entender essas interações é fundamental porque a perda de gelo continental contribui para a elevação do nível dos oceanos.
Além disso, pesquisas recentes reforçam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o continente. Cientistas brasileiros também participam de estudos que buscam preencher lacunas sobre os sistemas da Antártida.
A nova descoberta, portanto, não indica que todo degelo provocará automaticamente ainda mais derretimento. Ela mostra que, em regiões específicas, o próprio processo pode reorganizar o oceano de uma maneira que deixa as plataformas ainda mais vulneráveis.
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