O poço mais profundo da Terra tem mais de 12 km e, durante a escavação, chegou a 212 °C, fazendo as rochas se comportarem como argila quente
Projeto iniciado durante a União Soviética pretendia avançar ainda mais, mas encontrou condições muito diferentes das previstas pelos pesquisadores

Existe um lugar onde seres humanos conseguiram avançar mais de 12 quilômetros diretamente para dentro da crosta terrestre. O feito não aconteceu em uma mina, mas por meio de uma perfuração estreita que colocou equipamentos e cientistas diante de condições muito diferentes daquelas previstas inicialmente.
Conhecido como Poço Superprofundo de Kola, o projeto alcançou 12.262 metros de profundidade na Península de Kola, no extremo noroeste da Rússia.
A perfuração começou em 1970, ainda durante a União Soviética, com uma ambição ainda maior: os pesquisadores planejavam chegar a aproximadamente 15 quilômetros.
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Temperatura chegou a 212 °C
Um dos maiores obstáculos surgiu justamente com o calor.
Os modelos existentes antes da perfuração indicavam temperaturas consideravelmente menores nas grandes profundidades.
Entretanto, medições posteriores mostraram cerca de 180 °C a 10 quilômetros e aproximadamente 212 °C na faixa dos 12 quilômetros.
A diferença obrigou os pesquisadores a rever parte do que se imaginava sobre o comportamento térmico daquela região da crosta terrestre.
Rocha começou a se comportar como plástico
O problema não estava apenas nos equipamentos submetidos ao calor extremo.
Sob temperaturas e pressões tão altas, as próprias rochas encontradas em profundidade passaram a apresentar comportamento mais plástico e maleável do que o esperado.
Em vez de permanecerem completamente rígidas e quebradiças depois da passagem da broca, elas podiam sofrer deformações.
Na prática, o material ao redor da perfuração chegava a fluir lentamente e dificultava a manutenção do buraco aberto, tornando cada avanço mais complicado.
É daí que surgem comparações populares com argila quente ou plástico amolecido. Geologicamente, porém, a descrição mais adequada é a de comportamento dúctil ou plástico das rochas.
Objetivo era chegar aos 15 km
Quando o projeto começou, a expectativa era alcançar profundidades ainda maiores.
A perfuração deveria ajudar os cientistas a estudar diretamente a composição da crosta continental, testar teorias geológicas e observar como temperatura, pressão, água e minerais se comportavam quilômetros abaixo da superfície.
Em 1989, um dos ramais chegou ao recorde de 12.262 metros.
A meta de 15 quilômetros, entretanto, acabou não sendo alcançada.
Descobertas surpreenderam os pesquisadores
Apesar de não chegar ao objetivo final, Kola produziu informações importantes.
Os pesquisadores encontraram rochas muito antigas, zonas fraturadas preenchidas por fluidos e características geológicas que contrariaram algumas previsões feitas a partir de levantamentos sísmicos.
A perfuração também mostrou que a crosta profunda era mais permeável e geologicamente complexa do que alguns modelos indicavam.
O projeto recuperou ainda milhares de metros de amostras de rocha, permitindo estudos que continuaram sendo publicados muitos anos depois do fim das perfurações.
Mais fundo que o Everest é alto
Os 12.262 metros ajudam a colocar a dimensão do projeto em perspectiva.
O Monte Everest possui aproximadamente 8,8 quilômetros de altitude em relação ao nível do mar. Se fosse possível colocar essa mesma distância vertical dentro do poço, ainda sobrariam mais de 3 quilômetros até chegar ao ponto máximo atingido em Kola.
Mesmo assim, a profundidade representa apenas uma fração da distância até o centro da Terra, localizado a aproximadamente 6.371 quilômetros da superfície.
Recorde permanece décadas depois
As operações foram sendo interrompidas no início da década de 1990 e, posteriormente, o projeto acabou encerrado.
Apesar dos avanços tecnológicos ocorridos desde então, o Poço Superprofundo de Kola continua sendo a perfuração vertical mais profunda já realizada pelo ser humano.
Mais de três décadas depois, o local continua lembrado não apenas pelos 12.262 metros alcançados, mas também por mostrar que, conforme se avança para as profundezas da crosta, calor, pressão e comportamento das rochas podem impor limites tão importantes quanto a própria capacidade das máquinas.
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