Anápolis se prepara para ganhar escola de samba que promete resgatar tradição do Carnaval nas ruas da cidade
À frente da Acadêmicos de São Jorge, líder comunitária une oficinas, acolhimento de famílias e a retomada de uma tradição esquecida

A líder comunitária Mãe Carmen está estruturando a Escola de Samba Acadêmicos de São Jorge, em Anápolis, com o objetivo de recuperar a tradição carnavalesca da cidade e ampliar o atendimento a famílias em situação de vulnerabilidade social.
O projeto, iniciado em 2023, pretende oferecer oficinas de percussão, dança e artesanato, além de oportunidades de capacitação profissional e geração de renda.
Em entrevista ao Portal 6, a fundadora explicou que a iniciativa surgiu a partir de um trabalho social desenvolvido há 32 anos, que atualmente atende cerca de 120 famílias.
A proposta é transformar a preparação para o Carnaval em atividades permanentes, voltadas principalmente a crianças, adolescentes, mulheres e idosos.
Uma das experiências que motivaram a criação da escola aconteceu durante a entrega de uma cesta básica. Na ocasião, Mãe Carmen conheceu um adolescente que escondia um caderno de poemas por ouvir que escrever era uma bobagem.
Ao descobrir o conteúdo das páginas, ficou impressionada com o talento do garoto. “O menino é poeta”, recorda.
Para ela, situações como essa demonstram a importância de criar espaços onde jovens possam desenvolver habilidades e encontrar novas perspectivas.
Ao mesmo tempo, a Acadêmicos de São Jorge busca recuperar uma manifestação cultural que, durante décadas, movimentou as ruas de Anápolis.
A memória de uma cidade que sambava
Aos 60 anos, Mãe Carmen guarda lembranças de uma Anápolis que, segundo ela, parecia ter outra relação com a cultura.
Nascida em Minas Gerais, mas criada no município, acompanhou uma época em que bailes, saraus, apresentações musicais e manifestações religiosas faziam parte do cotidiano.
Entre as recordações estão os desfiles de escolas de samba que percorriam a Avenida Goiás, com concentração nas proximidades da Praça Dom Emanuel.
Uma das agremiações era a Veneno da Vila, ligada à região da Vila dos Sargentos e que, conforme recorda, contava com participantes vindos do Rio de Janeiro.
Naquele período, as escolas disputavam campeonatos e mobilizavam moradores na preparação das fantasias e apresentações.
A tradição era anterior à infância da própria Mãe Carmen. Ela cita a história de Francisca Fernandes de Oliveira, conhecida como Dona Xica, mulher negra que ajudou a organizar o bloco Batuqueiros do Amor e se tornou uma personagem importante do Carnaval anapolino.
Para a líder comunitária, a recuperação dessa memória não pode depender apenas de livros, museus ou fotografias antigas.
“Eu acho que a cultura não pode ficar adormecida”, afirma.

Registro histórico de uma antiga escola de samba de Anápolis. Data e local não identificados. (Foto: Acervo do Museu Histórico de Anápolis)
Ao recordar as antigas celebrações, ela também menciona procissões de Pretos Velhos e de São Jorge, que, segundo suas lembranças, percorriam ruas centrais e recebiam a participação de diferentes setores da sociedade.
Na avaliação de Mãe Carmen, parte dessa convivência cultural enfraqueceu com as mudanças sociais e a perda de antigas lideranças.
Por isso, faz questão de esclarecer que a Acadêmicos de São Jorge não representa uma tradição inédita na cidade.
“Eu não estou inventando a roda. Eu estou querendo resgatar.”
Da assistência social à escola de samba
A ideia começou a ser estruturada em 2023, mas nasceu de uma trajetória muito mais longa.
Há 32 anos, Mãe Carmen desenvolve ações sociais em Anápolis. Segundo ela, o trabalho realizado no terreiro atende aproximadamente 120 famílias, muitas delas com crianças e adolescentes.
Uma das iniciativas mais antigas é a distribuição de brinquedos e cestas básicas no Natal. A líder comunitária conta que passa o ano arrecadando recursos e comprando presentes para garantir que as famílias recebam apoio em dezembro.
Entretanto, com o passar do tempo, percebeu que as doações não eram suficientes para enfrentar dificuldades que se repetiam.
“Não é só dar o peixe, tem que ensinar a pescar”, resume.
A escola de samba surgiu como uma forma de reunir essas iniciativas em um projeto capaz de oferecer aprendizado e estimular a independência financeira dos participantes.
A experiência que teve no Carnaval de São Paulo também contribuiu para a decisão.
Durante os anos em que morou no estado paulista, Mãe Carmen participou de desfiles da Acadêmicos do Tucuruvi e conheceu os bastidores de uma escola de samba organizada.
Foi ali que observou a quantidade de profissionais envolvidos na preparação de uma apresentação, desde costureiras e artesãos até músicos, coreógrafos e responsáveis pelas alas.
O que muitos enxergam apenas como espetáculo, ela passou a compreender como uma estrutura que movimenta trabalho e recursos durante o ano inteiro.

Passistas da Acadêmicos de São Jorge durante ensaios e apresentações. (Foto: Arquivo pessoal/Mãe Carmen)
Um instrumento que também pode gerar renda
Uma das primeiras atividades promovidas pelo projeto foi uma oficina gratuita de confecção de xequerês, instrumentos de percussão produzidos a partir de cabaças.
Os participantes receberam materiais e aprenderam técnicas de fabricação e utilização do instrumento. “As aulas são gratuitas, todo o material é gratuito”, destacou Mãe Carmen, em entrevista ao Portal 6.
Segundo a fundadora, peças artesanais semelhantes às confeccionadas na oficina podem alcançar valores entre R$ 700 e R$ 1 mil, dependendo do tamanho e do acabamento.
A intenção é que o conhecimento adquirido permita aos participantes produzir instrumentos para uso próprio ou comercialização, inclusive pela internet.
O mesmo princípio orienta os planos de oferecer oficinas de costura, bordado, criação de fantasias e produção de adereços carnavalescos.
“Às vezes você tem um potencial de bordar uma roupa, fazer um bordado lindamente. Você tá participando, mas só que de uma maneira diferente. Você tá ganhando dinheiro”, explicou.
Para as mães das crianças atendidas, Mãe Carmen também pretende organizar cursos culinários, como a preparação de bolos e quitandas que possam ser vendidos.
Enquanto os filhos participariam das atividades culturais, as mulheres teriam acesso a oportunidades de capacitação.
“A gente vai dar um curso na cozinha de quitanda, de bolo da vovó”, contou a fundadora, que pretende ajudar essas mulheres a conquistar uma fonte de renda dentro da própria casa.
A proposta é fazer com que cada participante reconheça o valor do próprio trabalho, desenvolva novas habilidades e descubra possibilidades de conquistar autonomia financeira.

Participantes aprendem a confeccionar xequerês, instrumentos de percussão feitos com cabaças, durante oficina gratuita promovida pela Acadêmicos de São Jorge. (Foto: Reprodução/Instagram/@academicosdesaojorge)
A arte como espaço de acolhimento
A preocupação com a autoestima está presente em diferentes momentos da entrevista.
Mãe Carmen conta que algumas mulheres chegam aos ensaios inseguras com a própria aparência, acreditando que não possuem o corpo considerado adequado para participar de uma escola de samba.
Ela afirma que procura combater essa ideia desde o primeiro contato.
“Aqui eu prezo a boa índole, a vontade de crescer, melhorar a sua autoestima”, explica.
A líder comunitária também procura mostrar às participantes que a beleza não deve ser um critério para integrar a agremiação.
“Aqui ninguém tá pedindo para você ser aquela mulher linda de corpo, aquele rapaz lindo de corpo. Não, aqui não tem essa pretensão”, reforça.
Para Mãe Carmen, não existe um padrão físico para participar da escola. A proposta é acolher pessoas de diferentes idades, corpos, origens e crenças.
“Eu não pergunto: ‘Qual que é a sua religião? Em que igreja, em que terreiro que você vai?’”, afirma, ressaltando que o projeto não exige qualquer vínculo religioso.
Essa preocupação também aparece no trabalho com crianças e adolescentes.
A fundadora pretende vincular a participação dos menores de idade à continuidade dos estudos, incentivando a frequência escolar e o acompanhamento da vida acadêmica.
“Ninguém vai poder parar de estudar”, garante Mãe Carmen, ao explicar que pretende acompanhar o desempenho escolar dos jovens interessados nas atividades.
Além do aprendizado artístico, quer estimular valores como responsabilidade, respeito, solidariedade e convivência coletiva.
“O respeito aqui para mim em primeiro lugar”, destaca.
Mãe Carmen acredita que a cultura pode oferecer novas perspectivas para jovens que convivem com dificuldades familiares ou situações de violência.
Para ela, a escola de samba representa uma oportunidade de afastá-los de ambientes de vulnerabilidade e ampliar suas possibilidades de futuro.
A escola também pretende criar espaços de diálogo e orientação, inclusive sobre relacionamentos abusivos e os direitos das mulheres.
Esses objetivos ainda integram a estruturação do projeto e dependem da ampliação das oficinas e da rede de colaboradores.
São Jorge, Ogum e a identidade da escola
O nome Acadêmicos de São Jorge também carrega um significado particular.
Mãe Carmen explica que a escolha está ligada à tradicional Feijoada de São Jorge, promovida pela comunidade, e à simbologia do santo guerreiro.

A sétima edição da Feijoada de São Jorge, em Anápolis, contou com apresentações da Escola de Samba Acadêmicos de São Jorge. (Foto: Reprodução/Instagram/@academicosdesaojorge)
“São Jorge é um santo guerreiro, ele abre caminhos”, afirma a fundadora, ao explicar que a figura religiosa representa a luta e a superação das dificuldades enfrentadas pelas famílias atendidas pelo projeto.
Nas religiões de matriz africana, a figura de São Jorge é associada a Ogum em diferentes tradições de sincretismo religioso.
Essa relação também inspirou as cores da agremiação. Segundo a fundadora, o vermelho e o azul foram escolhidos a partir das representações religiosas de Ogum presentes na Umbanda e no Candomblé.
“Então, para fazer o sincretismo, a gente escolheu vermelho e azul”, explica, destacando que cada elemento da identidade visual possui um significado.
Para ela, a imagem do guerreiro representa a luta cotidiana das famílias que buscam superar dificuldades. “Nós, povo de terreiro, nosso povo preto, nós somos guerreiros”, ressalta.
Apesar da ligação com sua história religiosa, Mãe Carmen faz questão de esclarecer que a participação na escola não exige vínculo com o terreiro ou com qualquer religião.
“A escola de samba é um projeto. E o projeto abraça a todos. Qualquer pessoa cabe dentro da escola”, destaca.
A diversidade, segundo ela, faz parte da proposta. Pessoas interessadas em música, dança, artesanato, fotografia, organização de eventos ou outras atividades podem contribuir.
Uma bateria em construção
A Acadêmicos de São Jorge já possui um samba-enredo, criado por um primo de Mãe Carmen que também trabalha com composições carnavalescas.
A letra aborda a trajetória da fundadora e sua relação com a cultura de terreiro e a história de Anápolis.
“Até meu primo me surpreendeu contando a minha história”, revelou Mãe Carmen, ao explicar que a composição também representa suas origens e a identidade cultural da escola.
O projeto avançou ainda na aquisição de instrumentos para formar a própria bateria.
Segundo Mãe Carmen, parte dos equipamentos utilizados anteriormente era emprestada. Agora, com instrumentos novos adquiridos por meio de recursos próprios e ajuda de apoiadores, a intenção é estruturar um conjunto com aproximadamente 60 a 70 instrumentos.
“A bateria é o coração da escola”, afirma, destacando a importância dos músicos para a identidade e a preparação dos desfiles.

Bateria da Acadêmicos de São Jorge reúne músicos que participam da retomada do Carnaval de rua em Anápolis. (Foto: Arquivo pessoal/Mãe Carmem)
Os ensaios, entretanto, ainda enfrentam limitações. A agremiação não possui um espaço próprio estruturado para todas as atividades.
“A gente tá sem lugar para ensaiar, nós estamos improvisando”, contou a fundadora, que considera utilizar praças e outros espaços públicos enquanto busca uma solução definitiva.
Mãe Carmen também revelou que já comprou um terreno onde pretende construir uma sede destinada à escola de samba e aos demais projetos sociais.
O imóvel deverá receber oficinas, cursos e atividades comunitárias. Por enquanto, a implantação depende de recursos para a obra.
“Vamos construir uma sede já preparada para receber a escola de samba, já preparada para dar aula para essas mãezinhas”, explicou.
O desafio de transformar o sonho em realidade
A maior dificuldade, segundo Mãe Carmen, está no financiamento.
Ela é aposentada, assim como o marido, que serviu à Aeronáutica. Parte das despesas com os projetos é paga pelo casal, com contribuições ocasionais de amigos e apoiadores.
“Não é fácil. Eu sou aposentada, meu esposo é aposentado da Aeronáutica e a gente tem muita força de vontade”, desabafou.
A líder comunitária afirma que ainda busca patrocínios, doações de equipamentos e parcerias para ampliar as atividades. “Estamos correndo atrás de alguma emenda, estamos correndo atrás de algum empresário, de algum patrocinador”, explicou.
Entre os materiais necessários estão máquinas de costura, tecidos, linhas e ferramentas para produção artesanal.
O objetivo é criar uma estrutura que permita manter os cursos e formar profissionais, além de preparar apresentações carnavalescas.
A fundadora também pretende levar ensaios para praças e organizar um circuito cultural em Anápolis, reunindo música, gastronomia e artesanato.
“Eu quero fazer ensaios na praça”, afirmou, defendendo que as atividades ocupem os espaços públicos e despertem o interesse da população.
Na avaliação dela, a retomada dessas manifestações poderia fortalecer o comércio local e atrair visitantes interessados nas tradições culturais do município.
“Nós temos tanta comida gostosa, tanto músico bom na cidade, tantos artesãos maravilhosos. Por que não?”, questionou, ao defender o potencial de Anápolis para desenvolver atividades culturais e turísticas.
O Carnaval que Mãe Carmen imagina
Enquanto a sede não sai do papel e a bateria começa a ganhar forma, Mãe Carmen continua procurando pessoas dispostas a participar.
Mãe Carmen também deseja incentivar o surgimento de outras escolas de samba, ampliando a presença dessa manifestação cultural em Anápolis.
“Que venham outras escolas dentro da cidade”, declarou, na expectativa de que a Acadêmicos de São Jorge estimule novos projetos.
Para a fundadora, entretanto, o principal resultado não depende de troféus ou de uma colocação em campeonato.
O sucesso, segundo Mãe Carmen, será percebido quando uma criança descobrir um talento, uma mulher conquistar uma fonte de renda ou um jovem encontrar novas possibilidades de vida.
É por isso que a história do adolescente que escondia seus poemas permanece tão significativa para ela.
“Se a gente conseguir salvar uma vida, já ganhamos”, resume.
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