O que explica o sucesso mundial de série da Netflix retratada na Goiânia dos anos 1980
Emergência Radioativa traz de volta à memória o acidente do Césio-137, mas recebeu críticos por conta de cenas registradas totalmente fora da capital

Bastou apenas uma semana para que “Emergência Radioativa” levasse a história de um desastre que marcou Goiânia até a mais alta posição nas listas da Netflix. A série, lançada em 18 de março, conseguiu alcançar o primeiro lugar global no streaming com pouco tempo no catálogo.
Foram cerca de sete milhões de espectadores entre os dias 23 e 29 de março, fazendo com que ela se tornasse a obra de língua não inglesa mais assistida do período na plataforma.
Desde a estreia, a produção brasileira acumulou mais de 10,8 milhões de visualizações e marcou presença no Top 10 em pelo menos 55 países. A história contada é a do Césio-137, maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.
O desastre que chocou Goiás em 1987 aparece, 39 anos depois, sob a ótica do eixo Rio-São Paulo. São cinco episódios, partindo do momento em que dois catadores de recicláveis abrem um aparelho de radiologia sem saber que o conteúdo – um pó azul brilhante – continha radiação.
Mas o que explica o sucesso de proporções mundiais de uma história que chega a ser pessoal para os goianos? Para Pedro Lima, crítico de cinema de Goiás que foi um dos selecionados para votar no Globo de Ouro em 2025, a resposta é justamente o teor de desastre.

Imagem mostra crítico de cinema Pedro Lima Andrade. (Foto: Arquivo Pessoal/ Pedro Andrade Lima)
“Existem alguns fenômenos com o público que são muito interessantes”, explicou ao Portal 6. Contou que, desde a década de 1960, “o público sempre teve interesse em questões de desastre, situações que não parecem muito credíveis mas podem acontecer. Traz adrenalina e um senso de perigo, o que no audiovisual prende o telespectador”.
Pedro diz que os “true crimes” (produções que tratam de crimes reais e que têm ganhado o gosto popular) também colaboram. “São coisas que o Brasil inteiro sabe, mas que às vezes muda o entendimento”.
Wesley da Mata, produtor cultural e diretor do Cine Prime, em Anápolis, concorda que “tragédia é o que vende” e avalia que o sucesso também se deve a dois outros fatores: curiosidade e indignação. Para ele, ambos conseguem fazer com os telespectadores queiram assistir mais e saber outros detalhes da história.

Wesley da Mata, produtor cultural e diretor do Cine Prime. (Foto: Arquivo pessoal)
Série não foi gravada em Goiás
Uma das questões que levantou críticas do público goiano foi o distanciamento entre as gravações de Emergência Radioativa e o estado de Goiás. Embora uma história propriamente goiana, a produção da série teve cenários construídos em São Paulo.
Mais do que participação de moradores do estado de origem, Pedro e Wesley consideram que o distanciamento ainda levanta uma questão econômica.
“A economia gera emprego, o dinheiro retorna. Tem toda uma cadeia. A reivindicação também é essa”, diz o votante do Globo de Ouro.
“Uma história que é nossa, poderia ser feita aqui porque tem mão de obra qualificada, poderia gerar outros empregos e estaria contando uma história de Goiânia feita por goianos em Goiânia”, defende.
Wesley explica que, embora a sensação não seja a mesma, é mais barato filmar em São Paulo. “Você economiza dinheiro e gasta menos tempo. No estúdio é tudo controlado”, detalha.
Ainda assim, a colaboração de moradores do estado poderia contribuir com a qualidade da produção. O empresário defende: “trouxesse alguns diretores goianos para falar um pouco, porque são pessoas do estado e poderiam acrescentar elementos na série para deixar ela mais goiana”.
Trata-se de uma adaptação
Embora inspirada no desastre do Césio-137, a série da Netflix usa da “licença poética” e liberdade criativa para modificar alguns fatores.
Pedro lembra que um dos motivos para que isso aconteça é preservar a identidade das vítimas, e defende que as adaptações são comuns em produções do tipo – “a arte em si é uma representação da verdade”, aponta.
Wesley enxerga algo semelhante. “Toda série vai fazer essas mudanças. Muitas vezes são um pouco controversas ou polêmicas, mas vai acontecer”, diz. O produtor adiciona mais uma camada à análise: “às vezes eles fazem para gerar indignação, porque isso também faz assistir”.
Pedro reforça que há uma gama de conteúdos realísticos sobre o acidente e espera: “as adequações são muito bem vindas, mas espero que sirvam mais como um incentivo para o público ir atrás” de mais informações sobre o ocorrido.
Abertura para o cinema goiano
Wesley avalia que falar de histórias de Goiás, mesmo gravando fora do estado, ainda abre espaço para o cinema goiano, que tem avançado cada vez mais.
Ele compartilha que tem participado de um movimento cada vez maior para promover trocas entre profissionais de diferentes regiões do país. “A gente vem buscando intercâmbios e buscando pessoas de São Paulo para vir para Goiás fazer workshops e outras atividades”, detalha.
A ideia é ajudar a capacitar cada vez mais cineastas e produtores goianos, fomentando o cenário local.
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