Páscoa, animais e o silêncio depois do domingo
Um animal não é um presente. Não é uma surpresa. Não é algo que se entrega com um laço e se espera que “se adapte” à rotina de quem recebe

A Páscoa é, por essência, um tempo de renovação, de vida, de recomeços. Mas, todos os anos, junto com os símbolos tradicionais, um outro cenário se repete, mais silencioso, menos visto, mas profundamente preocupante.
É nessa época que cresce a procura por coelhos como presentes. Pequenos, delicados, “perfeitos” para encantar crianças. O problema é que o encantamento costuma durar pouco. E a responsabilidade, essa sim, permanece, mesmo quando é ignorada.
Dias depois do domingo de Páscoa, o que se vê não está nas fotos nem nas redes sociais. Animais abandonados, negligenciados ou entregues a qualquer destino, porque deixaram de ser novidade. Porque deram trabalho. Porque ninguém parou para entender que ali não havia um símbolo, mas uma vida.
E talvez o maior erro não esteja apenas na compra impulsiva de um coelho nessa época. Está na forma como, culturalmente, ainda tratamos os animais: como objetos que podem ser adquiridos e descartados conforme a conveniência.
Um animal não é um presente. Não é uma surpresa. Não é algo que se entrega com um laço e se espera que “se adapte” à rotina de quem recebe. Um animal exige tempo, cuidado, estrutura, responsabilidade e, acima de tudo, compromisso.
Quando um animal é abandonado, não é só ele que sofre. Há também uma mensagem sendo ensinada, muitas vezes dentro de casa: a de que vínculos podem ser descartados quando deixam de ser fáceis. E isso diz muito sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.
Não se trata de condenar a Páscoa, nem de esvaziar seus símbolos. Pelo contrário. Se a data fala sobre vida, talvez seja o momento mais oportuno para refletirmos sobre como estamos lidando com ela, em todas as suas formas.
Antes de transformar um animal em presente, é preciso fazer uma pergunta simples: existe preparo para assumir essa responsabilidade por anos?
Se a resposta não for um “sim” consciente, então não é um gesto de carinho, é o início de um problema que, quase sempre, termina em abandono.
A Páscoa celebra a vida.
E toda vida precisa ser cuidada com responsabilidade.
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