Não entregue a rapadura!
“Não entregar a rapadura” devia estar na base da nossa formação: um homem não desistia da luta por medo do fracasso

Em 1982, eu estudava para ser professor. Numa manhã, em casa, meu pai recebia um amigo e eu me assentei para conversar com eles. Lá pelas tantas, encaixei na conversa o que estava me atormentando na época e disse, com certa angústia: – Estou num curso e não sei como será o futuro dessa profissão, se estarei apto a dar aula, se vou ter sucesso! Não sei o que fazer…”.
Eles me ouviram atentos. O amigo da família esboçou um sorriso – com certeza achava aquela declaração muito precoce, eu tinha apenas dezenove anos, e estava no primeiro ano de Faculdade. Meu pai olhou-me com firmeza, e num tom que misturava amor e desafio, disse: – Que isso meu filho? Larga de ser frouxo! Não entregue a rapadura!
O recado era claro. “Não entregar a rapadura” era quase uma ordem, e significava, para que conhecia a cultura: “coragem!”, “vá à luta”, “não tenha medo, não desista antes da batalha!”. “Não entregar a rapadura” devia estar na base da nossa formação: um homem não desistia da luta por medo do fracasso, não refugava diante do desconhecido, mas o enfrentava. Até hoje, adoro essas expressões, essas combinações linguísticas e seus jogos. Elas nos ensinam de uma forma diferente.
Por isso, busquei na nossa cultura a experiência e a linguagem preciosa do nosso povo. Foi no Nordeste do país, sob a inspiração de Patativa do Assaré, que o cordelista Braulio Bessa deixou a seguinte sabedoria rimada, que se espalhou pelo Brasil:
Quem aprendeu que riqueza vai muito além de dinheiro,
Percebe que é no chiqueiro que o porco encontra beleza.
Tem pobre na realeza, tem rico sem um vintém.
Quem valoriza o que tem ganha essa vida sorrindo,
sem perder tempo sentido inveja do seu ninguém.
Que mania estranha a nossa de cobiçar o alheio.
O mundo de alguém ser belo não faz seu mundo ser feio.
Tem gente que passa fome com o próprio prato cheio.
Me diga um só fi de Deus que tem a vida perfeita,
Da manhã que se levanta inté a noite que se deita.
Se existe vida assim, quem escondeu a receita?
Cada um tem um sorriso e a dor que lhe convém
Tudo que vai abre espaço para tudo aquilo que vem.
Feliz na vida é quem é feliz na vida que tem
O meu ou o seu caminho não são muito diferentes.
Tem espinho, pedra, buraco, pra mode atrasar a gente.
Não desanime por nada, pois até uma topada
Empurra você pra frente.
O poema manifesta a nossa filiação divina, sem exceção de ninguém. Isso me chama a atenção. Em tempos tão individualistas, e de tanta polarização e demonização política, a linguagem simples e direta do cordel nos declara irmãos e ainda relativiza a riqueza, derruba o ídolo chamado “dinheiro”, e habilita os pobres no reino da terra.
O poeta relativiza o poder do dinheiro – “riqueza vai além de dinheiro” -, derruba do pedestal esse valor absolutizado socialmente e elege a dignidade e a alegria como dádivas maiores, e que deveriam ser até regras. Outro poeta do povo, o amazonense Thiago de Mello, escreveu algo nesse sentido e, como profeta/legislador, criou os “Estatutos do Homem”, que estabeleceu no art. XIII:
“Decreto que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar a festa do dia que chegou”.
Lendo “Os Estatutos do Homem”, eu sinto a falta que faz a voz desse tipo de profeta.
Na poesia do cordel, a felicidade anda pari passu com a gratidão do caminhante. O assunto central não é sobre falta, mas sobre dádiva – desde o nosso nascimento até a morte, passando pela educação e formação cultural; foram muitas as mãos que estiveram a nosso favor, sem contar o fôlego de vida soprado nas nossas narinas, que nos fez seres viventes.
Neste ano de 2026, ano de minha aposentadoria como professor, olhei e vi meu pai no alpendre de casa, conversando com seus amigos. Ele parou a conversa, olhou pra mim, e eu, com os olhos cheio de lágrimas e muita gratidão, pude ver, novamente, o seu sorriso travesso e, no silêncio da saudade, ouvi sua voz: – Não te disse? Viu como eu tinha razão? Você cumpriu a carreira! Valeu a pena não teres entregado a rapadura!
Siga o Portal 6 no Instagram: @portal6noticias e fique por dentro das últimas notícias de Goiás!







