Superação: jovem goiana emociona ao relembrar luta contra câncer incurável descoberto após “ressaca infinita”
Em entrevista ao Portal 6, sommelier de vinhos contou como proximidade com Deus foi essencial para superar os momentos mais escuros

Foi graças a uma noite de bebedeira e uma “ressaca” que a goiana Marianna Cândido, de 29 anos, descobriu que tinha glioblastoma, um tipo de câncer cerebral extremamente agressivo, de rápido crescimento e que não tem cura.
Em entrevista ao Portal 6, a sommelier de vinhos, natural de Goiatuba, comentou sobre os últimos meses desde que tomou ciência da doença, ainda em julho de 2025.
A descoberta
Com um alto astral contagiante, que se contrasta com a gravidade da situação, ela explicou que tudo ainda é muito recente, com as reviravoltas tendo começado em julho de 2025, após ir em uma festa de pecuária na cidade natal.
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Após curtir a noitada, Marianna acordou com uma dor de cabeça extremamente desconfortável. Nada que aparentasse fugir da normalidade, afinal, com uma saúde de ferro até então, ela admitiu que sequer tinha referência de como a dor deveria ser.
Porém, com os dias se passando e remédios convencionais não surtindo efeito, ela procurou um pronto-socorro.
“Essa ressaca tá infinita, não melhora. E eu de fato achei que era uma ressaca, falei ‘é isso, a idade chegou tenho que aceitar no meu coração […] Lembro que cheguei no pronto-socorro e fiz até uma brincadeira: ‘Deus, não deixa ser enxaqueca'”.
Porém, o diagnóstico foi muito mais surpreendente. Na realidade, se tratava de um câncer.
Após receber medicações mais fortes ainda sem efeito, realizou alguns exames de imagem no mesmo dia. Mas o que ela esperava resolver em uma tarde foi por água abaixo quando a equipe médica lhe falou que, do quarto, ela teria de ir direto para internação na UTI.
Mesmo já nessa condição de completo choque, ela ainda brincou que a maior preocupação era em como a família iria lidar com o baque. Tanto que, pensando nisso, ela pediu aos amigos que fossem ao hospital não por ela, mas sim para confortar e tranquilizar os parentes.
E assim, em menos de dois dias, Marianna realizou o procedimento de urgência em um tempo considerado rápido: a cirurgia que deveria ter levado 12 horas, tomou apenas metade do tempo.
Radioterapia e quimioterapia
Após a retirada da maior parte possível do tumor, a jornada ainda estava longe de acabar. À frente de Marianna estavam meses de intensas sessões de radioterapia e quimioterapia, que levaram o corpo dela ao limite. Literalmente.
“Quando chegou no penúltimo ciclo eu tive mielosupressão, que é quando a sua medula não aguenta o tratamento. Eu emagreci, emagreci muito, perdi quase 10 kg”, relembrou.
Em dado ponto, mesmo usando DIU e não estando menstruando, ela conta que começou a sangrar por conta do tratamento por quase trinta dias, o que motivou uma internação de urgência para que recebesse transfusões.
Tanto é que o ciclo final de tratamento precisou ser adiado porque a medula de Marianna não mais aguentava tamanha demanda.
Apesar disso, após o devido tempo de recuperação, ela completou as últimas sessões do tratamento intensivo, sem nenhum indicativo até o momento de que precisará voltar para nenhuma medicação ou interior de aceleradores lineares.

Máscara que Marianna utilizava para as sessões de radioterapia e, à direita, ela na última sessão do tratamento. (Foto: Arquivo Pessoal/Marianna Cândido)
Perda do cabelo
Marianna é criativa, tem a fala leve e o sorriso vem fácil. Logo, não é de se espantar que tenha pensado em algo fora da caixinha no momento de cortar o cabelo.
Momento este que não chegou sem avisar, ela afirmou que sabia há tempos que, uma hora ou outra, teria de se despedir dessa parte tão importante de sua autoestima.
Porém, pensando em fazer algo em grande estilo, revelou que tinha um grande plano de, com muita leveza, fazer um rolê com os amigos, nos quais cada um cortaria um pedaço, preferencialmente acompanhados de churrasco e uma boa cerveja. A vida, porém, costuma ter outros planos.
“Muita gente tem essa curiosidade, como que o cabelo cai? Ele não cai tufo, ele cai como se tivesse derretendo. Ele despedaça, você vê ele derretendo. E aí eu fui pentear o cabelo e ele saiu um pouco de cabelo. Aí eu comecei a puxar ele e eu vi que quando quanto mais eu puxava, mais frágil ele ficava. Daí no outro dia, amanheceu, tinha um monte de cabelo no meu travesseiro”, relembrou.
Porém, em vez de se ater ao planejamento original, Marianna, que não se considera do tipo de pessoal que “prolonga” o sofrimento, contou que resolveu tratar do problema de uma vez só. Pegou o telefone, ligou para o irmão, com quem sempre pôde contar logo avisou: “traz a maquininha”.
Dito e feito. No mesmo dia, sem que conseguissem conseguir segurar o choro, ele foi pessoalmente raspar o cabelo da irmã.
“Só que assim, eu contando assim, não parece que eu tava triste, mas eu tava muito triste porque eu não queria ficar careca. Apesar de ser super desapegada com o cabelo, eu não queria ter a minha doença externalizada pro mundo todo dia. Eu não queria que as pessoas soubessem. Uma coisa é você escolher contar, outra coisa é as pessoas saberem porque elas estão te vendo, elas te pré-julgarem. É o espelho te lembrando o tempo inteiro que você tá com uma doença e que é uma doença grave, porque se não fosse grave seu cabelo não teria caído.”, desabafou.
Apesar da dor e o abalo inicial na autoestima, Marianna contou que encara o momento como uma virada de chave, especialmente em questões envolvendo vaidade e auto imagem.
Fé, o que o futuro aguarda e dicas da sommelier
Seria mentira dizer que Marianna sempre foi religiosa ou uma “mulher de fé”. Ela mesma conta que por bom tempo não tinha uma relação próxima com Deus. Muito diferente da Marianna de hoje, que se apoiou e se impulsionou na religião para buscar auxílio em tempos tão difíceis e doloridos.
“Muita gente costuma falar que quando acontece alguma coisa de ruim nas nossas vidas, Deus tirou o meu chão. E de fato, quando eu recebi o diagnóstico de câncer cerebral com 28 anos de idade, sem ter casado, tido filhos, enfim, o meu primeiro pensamento foi esse. Só que acreditar que ele estava comigo, independente das situações que ele tava no barco, me fez ver que, apesar de ter tirado o meu chão, de ter me dado um sacode desse tamanho, ele me deu vários ombros para eu me apoiar”, afirmou, emocionada.
Foi nesse momento tão vulnerável que ela conta ter tido uma aproximação ímpar com Deus, conversando com Ele todos os dias.
Para outras mulheres que passam por situações semelhantes, Marianna não se propôs a dar nenhuma solução mágica ou grandes revelações, mas deu um conselho simples de quem não fala da boca para fora: para que vivam. Com tudo o que a palavra “viver” carrega consigo.
“Eu queria muito falar para todas elas não abrirem mão da própria vida e para elas escolherem viver por elas. Porque apesar de ser muito difícil, apesar de mexer com as nossas emoções, com a nossa vaidade, a gente tem uma oportunidade muito bonita de nos reconectarmos com o que nós somos de verdade, na nossa essência. E isso o câncer não consegue não te dar porque ele te obriga a olhar com mais carinho para você. Então é isso. Eu queria que elas olhassem com mais carinho para elas, que elas se reconectassem com a essência delas para elas entenderem que elas são muito mais do que aquilo que elas vão ver no espelho durante uns dias e que sempre que choveu parou, tudo passa”, finalizou.
E é justamente isso o que aguarda no futuro de Marianna: a vida. Por mais que não possa nunca se considerar curada, o prognóstico da sommelier é bem positivo, sem sinais de remissões já há nove meses.

Foto recente de Marianna ao lado do irmão, como o cabelo já voltando a crescer. (Foto: Arquivo Pessoal/Marianna Cândido)
E, não podendo faltar em uma conversa com uma grande sommelier de vinhos, ainda mais uma especializada em garrafas nacionais, com uma adega própria em Goiânia (@decifrandovinhos), as recomendações de rótulos brasileiros de Marianna Cândido foram o Moscatel Branco, da vinícula Cavaleri e o Brut Rosé, da vinícula Gazaro.
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