Quem nasceu na década de 1970 e 1989 desenvolveu uma habilidade valiosa para o mercado de trabalho

A infância menos monitorada de quem cresceu nas décadas analógicas ajuda a explicar comportamentos hoje valorizados nas empresas

Gustavo de Souza -
Quem nasceu na década de 1970 e 1989 desenvolveu uma habilidade valiosa para o mercado de trabalho
(Foto: Ilustração/Annie Spratt/Unsplash)

Quem cresceu entre os anos 1970 e o final da década de 1980 viveu uma rotina difícil de imaginar para muitas famílias atuais. Era comum voltar da escola sem avisar por mensagem, passar parte da tarde sem supervisão direta e resolver pequenos impasses sem a presença constante de um adulto.

Esse cenário, que hoje exige cuidado na análise para não ser confundido com defesa da negligência, voltou a ganhar espaço em debates sobre comportamento, carreira e gerações. A discussão envolve principalmente parte da Geração X e os primeiros millennials, grupos que atravessaram a infância em um mundo ainda distante da hiperconexão.

Nos Estados Unidos, esse perfil ficou conhecido como “latchkey children”, ou “crianças da chave”, expressão registrada pela American Psychological Association para se referir a menores que voltavam da escola para casa sem supervisão adulta, geralmente porque os pais trabalhavam fora.

No Brasil, embora o termo não tenha se popularizado da mesma forma, o contexto também encontra paralelo em centros urbanos. A ampliação da participação feminina no mercado de trabalho, apontada por estudos do IBGE e do Ipea, alterou a organização das famílias e a rotina doméstica ao longo das últimas décadas.

Foi nesse ambiente que muitos aprenderam, cedo, a administrar tempo, tomar pequenas decisões e lidar com imprevistos. Preparar um lanche, cuidar de irmãos, organizar tarefas ou resolver conflitos do cotidiano funcionava, na prática, como uma espécie de treino informal.

A habilidade que hoje chama atenção no mercado é justamente essa combinação de autonomia, adaptação e capacidade de resolver problemas sem depender de orientação permanente.

Relatórios do Fórum Econômico Mundial apontam pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade e agilidade entre as competências mais valorizadas pelas empresas até 2030. A OCDE também destaca que habilidades socioemocionais influenciam emprego, renda e satisfação profissional na vida adulta.

Isso não significa que nascer nesse período garanta vantagem automática. Também não quer dizer que a ausência de adultos seja positiva. Especialistas alertam que crianças sem supervisão podem enfrentar riscos emocionais, sociais e de segurança.

Ainda assim, a experiência ajuda a explicar por que parte dessa geração desenvolveu familiaridade com cenários incertos. Em um mercado que muda rapidamente, saber agir sem roteiro pronto deixou de ser apenas traço de personalidade e passou a ser diferencial competitivo.

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Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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