Pessoas que desafiaram a escuridão

Faça a sua lista de “luzes”, pode ser que a sua ancoragem existencial dependa mais dessas pessoas do que você imagina

Pedro Sahium -
Pessoas que desafiaram a escuridão
(Foto: Reprodução)

Num dia desses, eu estava assistindo ao jornal quando meu filho passou pela sala e me alertou: “Muda de canal, porque, senão, vai ficar paranoico; não vai querer nem sair mais de casa!”. Eu não mudei o canal imediatamente, mas comecei a perceber coisas daquele jornalismo. Com certeza, não eram notícias falsas, mas eram, quase na totalidade, notícias negativas, dadas em tom alarmista: corrupções no setor público, corrupções no setor privado, assassinatos, roubos, golpes, mortes, sequestros, negligências de órgãos públicos e de empresas privadas etc. De vez em quando, aparecia uma notícia boa, sobre alguém de bem.

Percebi que, tão impactante quanto o fato noticiado, era a ênfase emocional e negativa nas apresentações. Aquilo certamente produzia em mim estresse, ansiedade, medo e desconfiança difusa. O pior é que eu não percebia. Foi necessário prestar atenção em mim mesmo para descobrir uma sobrecarga emocional presente.

Podemos ser levados ao adoecimento sem perceber. No telefone celular, ligado à internet, é pior, porque você vê uma cena chocante e o algoritmo começa a lhe enviar outras cenas de igual calibre, ou até pior. Você fica preso no fluxo contínuo de apresentações e atualizações apresentadas. Rodando sem fim pelas apresentações encaminhadas na rede digital, perdemos a autonomia, perdemos o senhorio dos nossos pensamentos e sentimentos. Por isso, devemos buscar sair desse fluxo contínuo de informações para nos conectarmos à realidade.

Com o foco emocional exagerado e as generalizações do noticiário a realidade pode ser distorcida. Nem todas as empresas estão se locupletando de dinheiro público; nem todos os agentes políticos estão roubando; nem todos os pastores ou líderes eclesiásticos são picaretas atrás de dinheiro dos fiéis e etc. Há que se cuidar para não perder a percepção da realidade.

Tente manter o equilíbrio ao buscar as informações e não se envolva emocionalmente a ponto de gerar sobrecarga para si mesmo. Desligue-se, regularmente, das tecnologias e tendências ideológicas e envolva-se com pessoas, com encontros; afinal, “a vida é um lugar de encontro, embora haja tanto desencontro”. Promova encontros presenciais.

É comum ouvirmos, em uma conversa ou outra, a frase: “Vivemos tempos difíceis”. Lembrei-me de que, no século passado, li uma obra da filósofa Hanna Arendt cujo título era Homens em Tempos Sombrios. Ela escreveu sua obra olhando para o nazismo, num tempo em que os humanos ensinaram ao diabo como deve ser o mal – os campos de extermínio.

Não estamos vivendo, pelo menos no nosso país, algo parecido com o holocausto. A própria filósofa, conquanto descrevesse a época sombria de meados do século XX, nos ensinou esperança, dizendo:

“Mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir menos das teorias e conceitos e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, em suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra (…)”

Gosto dessa imagem criada por Hanna Arendt, me faz lembrar as “luzes bruxuleantes” que encontrei na minha jornada. Algumas pareciam fracas, pouco conhecidos do grande público, mas ao final se revelaram presença de graça na vida de muitos. Talvez o mundo não conheça esses nomes. Mas eu os conheço. E sou grato a Deus por tê-los encontrado pelo caminho.

Encerro fazendo memória a algumas dessas pessoas, luzes bruxuleantes, talvez de uma vela, às vezes de um sol, e eu as encontrei e sou grato: Enfermeira Josephina de Oliveira Simões, Reverendo Aristeu de Oliveira Pires, Professor Ernst Heeger, D. Divina Maria Louzada (Irmã Bembem) …

Faça a sua lista de “luzes”, pode ser que a sua ancoragem existencial dependa mais dessas pessoas do que você imagina. Tente também ser luz para outros, mesmo que de uma intensidade bruxuleante como de uma vela, pois assim mesmo estaremos desafiando a escuridão.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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