Supermercados como Atacadão, Carrefour e Assaí adotam nova tecnologia que promete acabar com as filas
Tecnologia está mudando a forma como milhões de brasileiros fazem compras e já chegou às maiores redes do país

As maiores redes de supermercado do país estão instalando centenas de caixas onde o próprio cliente registra os produtos e paga sem precisar de ninguém.
A promessa é simples: acabar com as filas que há anos são a maior reclamação de quem faz compra no Brasil.
Só que a mudança que acelera o caixa também movimenta uma discussão que vai muito além da tecnologia. E os números por trás dessa transformação costumam surpreender dos dois lados.
O que está acontecendo nas lojas?
Quem entrou em um Assaí, Carrefour ou Atacadão de cidade grande nos últimos meses provavelmente já viu: uma fileira de máquinas perto da saída, com tela, leitor de código de barras e maquininha de cartão.
O cliente chega, passa cada produto, confere o valor na tela, paga com cartão, aproximação ou Pix e vai embora.
Sem operador de caixa. Retira a espera da vez. Sem aquela fila que faz a pessoa repensar se realmente precisava comprar aquele último item.
Sempre tem um funcionário por perto para ajudar quem tiver dúvida ou enfrentar algum problema na máquina. Mas, no geral, a ideia é que o cliente resolva tudo sozinho.
Quem está na frente?
O Assaí é a rede que mais investiu. O atacadista triplicou o número de terminais e anunciou a instalação de mais de 1.000 novos caixas de autoatendimento.
A tecnologia começou em 2022, na unidade Anhanguera, em São Paulo, e se espalhou rápido. Hoje, mais de 1.000 clientes por loja usam o sistema todos os dias.
No Assaí, o autoatendimento é pensado para compras menores, de até 20 itens ou 50 quilos. Quem está com o carrinho cheio continua indo pro caixa tradicional.
O Carrefour colocou terminais até em postos de combustíveis. Segundo o grupo, cada transação no autoatendimento economiza em média 15 segundos.
Parece pouco, mas multiplicado por milhares de clientes no dia, reduz fila de verdade. O Atacadão seguiu o mesmo caminho, focando em integrar o sistema de prateleira com o caixa para evitar aquele problema clássico: preço na gôndola diferente do preço na hora de pagar.
Um dado que explica tudo: 58% das vendas do Assaí hoje vêm de consumidor final, gente comum fazendo compra pra casa. Esse perfil quer agilidade. E foi justamente essa mudança de público que acelerou a adoção da tecnologia no atacarejo.
E quem trabalha no caixa?
Essa é a parte que as redes preferem explicar com cuidado. Mas a conta não é difícil de fazer.
Onde antes cinco operadores tocavam cinco caixas, agora um único funcionário supervisiona cinco terminais de autoatendimento.
As empresas dizem que ninguém está sendo demitido por causa das máquinas. Dizem que estão colocando tecnologia onde não conseguem preencher vaga.
E, de fato, existe um problema real de mão de obra. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontou no fim de 2025 que o setor tinha 357 mil vagas abertas no país. Só em Minas Gerais, eram mais de 5 mil posições sem candidato.
Por que ninguém quer ser operador de caixa: o salário gira em torno de R$ 2.000. A rotatividade é alta. O turno inclui feriado, sábado e domingo. E a geração mais nova, cada vez mais, prefere trabalhar de outra forma.
O custo real de cada operador para o supermercado, somando encargos e benefícios, chega a R$ 3.400 por mês.
A conta das empresas: estudos internacionais apontam que o autoatendimento pode reduzir custos operacionais em até 40%. Para o supermercado, a decisão é financeira. Para o operador, é o emprego.
Novas funções estão surgindo, como técnico de manutenção dos terminais e assistente de autoatendimento. Mas o número de vagas criadas não repõe o que vai deixando de existir aos poucos.
Funciona pra todo mundo?
Não. E as redes sabem disso.
Idosos, pessoas com dificuldade de leitura e quem não está acostumado com tecnologia costumam evitar o autoatendimento.
Por isso, todas as grandes redes mantêm caixas tradicionais funcionando ao lado das máquinas. A ideia, pelo menos por enquanto, é oferecer as duas opções.
O que costuma travar na máquina: produto sem código de barras, etiqueta danificada, item que precisa de pesagem e compras grandes demais.
Para o cliente que vai comprar poucas coisas, funciona bem. Para quem enche o carrinho, o caixa com operador ainda é mais prático.
O problema que as redes falam baixo
Quando o cliente passa os produtos sozinho, a chance de algo “escapar” aumenta. Pode ser sem querer. Pode ser de propósito. O fato é que o índice de perdas costuma ser maior nos terminais de autoatendimento do que nos caixas tradicionais.
Para lidar com isso, as redes investem em câmeras, balanças que conferem o peso da sacola e sensores que comparam o que foi registrado com o que está na área de embalagem.
Mesmo assim, o furto no autoatendimento é um problema que o varejo no mundo inteiro ainda está tentando resolver.
Vai ter em todo lugar?
A tendência é que sim. As grandes redes já estão expandindo. Supermercados médios e regionais começam a testar. Pesquisa da PwC aponta que 32% dos consumidores brasileiros já desistiram de uma compra por causa de fila.
Isso é dinheiro que vai embora. E é esse número que faz o investimento em autoatendimento parecer cada vez mais urgente para o varejo.
Mas o caixa com gente não vai sumir amanhã. Em cidades menores, onde o volume é menor e o custo da tecnologia pesa mais, o modelo tradicional deve continuar por um bom tempo.
O que já mudou de verdade é o comportamento. Quem experimenta o autoatendimento e gosta dificilmente volta pra fila. E, cada vez mais, a fila que se forma nos supermercados grandes é justamente na frente das máquinas.
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