Sem fé na ciência, desafios da sociedade brasileira

Para 86% dos brasileiros a fé vale mais do que a ciência, e para 96% dos brasileiros Deus está no comando e por isso tudo vai dar certo

Pedro Sahium -
Sem fé na ciência, desafios da sociedade brasileira
(Foto: Reprodução)

A relação dos brasileiros com a ciência é ruim. O entendimento sobre “o que é fazer ciência” é muito ruim. Foi durante a Pandemia de Covid 19, que esse traço da sociedade ficou mais evidenciado.

É claro que mesmo com a vacina, e até por causa dela, algumas pessoas morreriam. É próprio do “fazer ciência”. As pessoas tem organismos diferentes e algumas podem morrer em função do mesmo medicamento que salva outras. Tem gente que não pode tomar uma dipirona, nem por isso ela deixou de ser eficaz. A vacina salvou vidas, e a demora e o descaso do governo à época, custou a morte de milhares. Até hoje, eu encontro gente proclamando os “malefícios” da vacina. Eu acredito que isso se dá por conta da falta de uma iniciação científica básica.

A sociedade brasileira é mais afeita a um tipo de conhecimento propriamente religioso, um conhecimento produzido pelas tradições religiosas – me confirmou o professor José Reinaldo F. Martins Filho, doutor em Filosofia e Ciências da Religião (PUC-GO).

Mesmo indo ao médico a atitude é semelhante à atitude religiosa. Desde a infância percebo que muitos procuram o médico como quem procura um sacerdote: com devoção e confiança quase absolutas. A palavra do médico é recebida como um oráculo. Em muitos casos, os pacientes se comportam no consultório como se estivessem em um espaço de fé, e não em um ambiente técnico.

Para 86% dos brasileiros a fé vale mais do que a ciência, e para 96% dos brasileiros Deus está no comando e por isso tudo vai dar certo (Brasil no Espelho, ago.2025). Esses dados, somados a outros, explicam o que falei anteriormente e mostra como a cultura está impregnada do caráter religioso.

A questão não é acreditar mais na religião ou mais na ciência. O conhecimento religioso e o científico são distintos, e ambos possuem importância. O problema surge quando se pretende aplicar explicações religiosas, frequentemente tratadas como absolutas e inquestionáveis, a questões cuja compreensão depende do método científico.

A religião tem sido desavergonhadamente utilizada como instrumento de manipulação política. Algumas formas de cristianismo, por exemplo, tornaram-se marcador político e identitário para definir quem seria o “verdadeiro” crente. Feministas, povos indígenas, homossexuais e, em menor escala, imigrantes pobres, passaram a ser tratados como inimigos internos.

Não por acaso, constatou o ISER (2025) que, “o governo Bolsonaro promoveu um alinhamento inédito da direita religiosa no Brasil, que transcende identidades denominacionais (católica, evangélica, judaica), consolidando uma articulação que permanece mesmo após o fim do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro”.

Aproveitando-se dessa união religiosa e também da fragilidade da formação científica básica da população, certo grupo político proclamou “um messianismo político-religioso que se entende como responsável por restaurar o papel de apóstolos e profetas na chamada “batalha espiritual” pela construção do Reino de Deus na Terra, antes da segunda vinda de Jesus”.

Nessa perspectiva os crentes são “convocados a agir como guerreiros espirituais, com a missão de transformar a sociedade, estabelecer o governo dos justos e garantir o domínio da fé cristã nas diferentes esferas da vida social”. É a chamada teologia do domínio.

Trata-se da manipulação do sentimento religioso da população com discursos de caráter político-eleitoral. Na última ocasião, na “marcha para Jesus”, de cima de um trio elétrico, um senador entoou cânticos gospel, pediu orações e discursou em tom eleitoral, associando o presidente Lula ao “mundo do mal”. Apresentando-se como uma espécie de enviado divino, afirmou que “vai expulsar o mal do Brasil neste ano”.

Não devemos reduzir essa discussão à disputa entre Lula e Bolsonaro. Sou um eleitor independente.

Se fatos semelhantes ocorressem com políticos de esquerda, eu faria a mesma crítica. A gramática política da extrema direita, associada à narrativa de uma “batalha espiritual”, constitui uma poderosa forma de mobilização religiosa para fins políticos. Meu receio é que esse processo esteja acumulando a lenha necessária para reacender práticas de intolerância que lembram, em certa medida, os tempos da Inquisição.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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