Seres mentais e fantasmas políticos

Aprendi com o educador Edgar Morin que crenças e ideias não são apenas produtos da mente: elas têm vida própria e poder sobre nós

Pedro Sahium Pedro Sahium -
Seres mentais e fantasmas políticos
(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Aprendi com o educador Edgar Morin que crenças e ideias não são apenas produtos da mente; elas também se tornam “seres mentais”, com vida própria e poder sobre nós. Podem nos possuir. É um encantamento perigoso: conduz ao sofrimento, manipula e aprisiona.

Lembrei-me do trecho de uma poesia:

“Se pudesse viver minha vida novamente, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.”

Os problemas imaginários são esses “seres mentais”. Eles nos assombram.

Basta observar algumas mensagens que circulam nas redes sociais para perceber o problema: “Pastores e padres serão presos por pregar a Bíblia”; “As igrejas serão fechadas”; O governo criará uma lei que restringe a liberdade de culto”; “O comunismo e o ‘marxismo cultural’ vão destruir a família e a civilização cristã ocidental”.

Nas mensagens acima o principal ativo de quem as espalha é o medo. O medo paralisa, enfraquece a capacidade crítica e impede o pensamento racional.

É o velho “bicho-papão”, o “homem do saco”, o “capiroto”. Para exorcizar o medo e romper com o conformismo cognitivo, convém recordar alguns fatos.

1. A liberdade religiosa está protegida pela Constituição

A Constituição Federal de 1988 garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto (art. 5º, inciso VI).

Sem contar que a imensa maioria da população brasileira se declara cristã: cerca de 56,7% é católica e aproximadamente 26,9% é evangélica, ou seja, 80% da população. Faz sentido imaginar que padres e pastores seriam perseguidos, igrejas fechadas e cultos proibidos para um contingente dessa dimensão?

2. O fantasma do comunismo

O comunismo, entendido como sistema econômico e social plenamente realizado, jamais se consolidou conforme sua formulação teórica. A experiência soviética terminou em 1991, e a Rússia passou a adotar uma economia de mercado com forte participação estatal.

No Brasil os filiados aos partidos comunistas somam 0,163 % da população e a maioria quase absoluta da população sequer conhece os fundamentos do comunismo. Afinal, de onde nasce esse medo permanente? Quem aderiria a uma ideia que sequer conhece?

3. A guerra cultural e o “marxismo cultural”

Paralelo ao “perigo comunista”, surge uma nova batalha, a “guerra cultural”. Aparece um novo inimigo: o “marxismo cultural”. Supostamente ele seria responsável por destruir a família tradicional, difundir a chamada ideologia de gênero e fortalecer movimentos feministas e LGBTQIA+, e com isso pôr fim a moral da sociedade ocidental cristã.

Onde estão e quem já leu ou conhece essa teoria – conspiratória – denominada “marxismo cultural”? Movimentos que buscam novas propostas de direitos sexuais e reprodutivos, que buscam a igualdade de gênero e o reconhecimento dos direitos das mulheres, devem ser combatidos como anticristãos? Deve-se então perseguir quem fez opção sexual, religiosa ou política que não se assemelha ao chamado “tradicional”?

Quando o Estado se transforma em púlpito, as fogueiras da intolerância se ascendem. Quando o Estado laico — que não pertence a nenhuma religião e, justamente por isso, protege todas elas — é enfraquecido, a liberdade religiosa também se enfraquece.

O Reino de Deus perde sua força quando a Igreja substitui o testemunho de Jesus pela busca do poder político. Quando a cruz de Cristo é substituída por projetos de poder, a Igreja trai sua própria missão. Jesus não precisou do Império Romano para anunciar o Reino de Deus. O papel de quem quer e faz o bem é destruir “fantasmas” e não os criar.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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