De Hollywood a Anápolis: a atriz de Chaplin que virou “Dona Joana” e chegou a ser presa
Atriz atravessou continentes, escândalos e recomeços até se estabelecer em Anápolis, onde deixou marcas

Em meados do século XX, Anápolis se tornou palco de eventos improváveis em sua história cultural. Um município ainda em formação após a “marcha para o oeste” de Getúlio Vargas recebeu uma moradora que aproximou Hollywood do cerrado.
Essa moradora foi Joan Lowell (1902–1967), atriz na Era de Ouro de Hollywood (1920–1930), que ficou conhecida por atuar em “Em Busca do Ouro” (1925), dirigido por Charlie Chaplin (1889–1977).
Além de seu trabalho como atriz, Joan também escreveu best-sellers como Cradle of the Deep e Promised Land, além de Gal Reporter.

Livros best-sellers de Joan Lowell. (Foto: acervo do Instituto Jan Magalinski)
Seu livro mais emblemático no Brasil é Terra Prometida (Promised Land), escrito em 1952 e traduzido em português em 1954, que narra a vinda da atriz ao Brasil, onde residiu em Santos (SP) e, posteriormente, em Anápolis (GO).
O longo trajeto à Terra Prometida
Joan Lowell não chegou em novembro de 1935 em Santos (SP) aleatoriamente. O desembarque ocorreu enquanto realizava, em julho de 1935, uma viagem a bordo do navio Western World pela América do Sul, com destino final em Buenos Aires, Argentina, com um grupo de 46 professoras primárias norte-americanas, chefiadas por Joan Lowell. Neste navio, o grupo turístico volta para Nova York.
O capitão do navio era Leek Bowen, que no futuro se tornaria seu esposo. O principal sonho do marujo era desbravar terras desconhecidas, e a ideia da “Marcha para o Oeste” fascinava Bowen, que queria adentrar o Brasil antes da campanha ser estatizada por Getúlio Vargas.
Durante a viagem, ele disse: “Existem ali muitas terras desabitadas. O Brasil ainda tem regiões inexploradas a distribuir para os colonizadores”.
Joan se apaixonou por Leek, e os dois decidiram morar em Santos. Lá, receberam uma proposta de uma companhia para abrir estradas na região do Vale do São Patrício e cuidar de terras no Centro-Oeste, tornando possível o sonho do capitão.

Capitão Leek Bowen e sua arara de estimação. (Foto: acervo do Instituto Jan Magalinski)
A companhia prometeu pagamentos e um pedaço de terra ao casal e, durante esse processo, Joan começou a escrever seu livro, narrando o caminho até Anápolis.
Entretanto, durante o processo, Getúlio Vargas estatizou a campanha de ocupação do Centro-Oeste, e as terras prometidas ao casal foram vendidas pela companhia devido à alta dos preços. O casal ficou sem moradia.
Ao Portal 6, Jairo Leite, historiador e pesquisador da história de Anápolis, contou sobre as dificuldades enfrentadas pelo casal no processo.
“Passaram por maus lençóis. Ela foi para Jaraguá, lá ela passou mal. Imagino que poderia ser malária/maleita ou febre amarela. E lá o médico de Jaraguá falou: ‘Lá em Anápolis estão construindo um hospital e tem um médico que fala essa língua sua’.”
O casal foi a Anápolis, e Joan foi atendida pelo Dr. James Fanstone gratuitamente. Sua esposa Daisy Fanstone, que falava inglês, reconheceu Joan Lowell por sua atuação nos filmes “Em Busca de Ouro” e “Garota Aventura”, e ofereceu um lar ao casal, que morou de favor até se recuperar financeiramente.
Certo dia, Joan encontrou na região o engenheiro agrônomo Bernardo Sayão (1901–1959), do Ministério da Agricultura, e relatou não ter recebido os pagamentos e a terra prometida pela companhia, e Bernardo cedeu um pedaço de terra ao casal, que se instalou definitivamente em Anápolis.
“Joan Lowell permaneceu aqui em Anápolis, ela escrevia artigos, mandava para os Estados Unidos. Ela começou a vender terras para norte-americanos, porque estava no período da Segunda Guerra Mundial. Em meados de 1942, muitos norte-americanos começaram a comprar terras dela aqui na região. Ela abriu uma imobiliária chamada Terra da Promissão e vendeu várias propriedades rurais”, relembrou o historiador.
A Dona Joana
Joan Lowell ficou conhecida em Anápolis como “Dona Joana”. Em junho de 1957, foi presa por cerca de um mês, acusada de emitir cheques sem fundo e de vender terrenos fantasmas a norte-americanos — mas foi provado que não havia aplicado golpes com cheques, conseguindo liberdade em julho de 1957.

Joan Lowell em sua imobiliária no Centro de Anápolis. (Foto: acervo do Instituto Jan Magalinski)
Após se tornar viúva (1961), Joan foi morar em uma fazenda no Núcleo Rural Taguatinga, em Brasília, onde foi encontrada morta em 14 de novembro de 1967, sendo sepultada no Cemitério Campo da Esperança.
Quem foi Joan Lowell?

Joan Lowell (1902–1967) foi atriz e escritora norte-americana. Nascida em Berkeley, na Califórnia, faleceu em Brasília. Além da carreira no cinema, publicou a autobiografia Cradle of the Deep, que relata sua infância e adolescência a bordo de navios do pai, um capitão que a levou pelos oceanos do sul desde o nascimento até os 17 anos. O livro foi um best-seller na época.
Entretanto, sua boa fama não durou muito nos Estados Unidos: após a quebra da bolsa de Nova York em 1929, críticos descobriram que Joan não havia vivido esses 17 anos ao lado do pai, e sim aproximadamente 03 anos, e ela ficou conhecida por muitos como mentirosa.
Após o escândalo, passou a trabalhar no jornal Boston Daily Herald, onde escreveu “Gal Reporter”, livro literário baseado em sua experiência como repórter que enfrentava abusos misóginos durante a Grande Depressão.
Seu talento, porém, não se limitava à literatura. Joan atuou em “Em Busca do Ouro” (1925), de Charles Chaplin, como coadjuvante, e adaptou sua autobiografia ao cinema no filme “Garota Aventura”, exibido no Brasil nos anos 30.
De atriz em Hollywood a “Dona Joana” no cerrado, a trajetória de Joan Lowell atravessou continentes e polêmicas até encontrar destino definitivo em Anápolis, onde viveu e marcou a história da cidade.
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