Entre trilhos, fé e memória: aos 119 anos, Anápolis transforma a própria história em turismo

Com patrimônio preservado e novas experiências turísticas, município amplia a oferta de atrações para além da vocação industrial

Lara Duarte Lara Duarte -
Aos 119 anos, Anápolis busca transformar sua história, seu patrimônio e suas tradições em atrativos capazes de impulsionar o turismo e movimentar a economia local.
Aos 119 anos, Anápolis busca transformar sua história, seu patrimônio e suas tradições em atrativos capazes de impulsionar o turismo e movimentar a economia local. (Foto: Arquivo)

Anápolis nasceu em torno da fé, cresceu ao lado dos trilhos e prosperou com o trabalho de pessoas que encontraram na cidade uma oportunidade de recomeçar.

Nas proximidades da antiga Estação Ferroviária, mercadorias chegavam, armazéns se multiplicavam e famílias vindas de longe construíam uma nova vida.

Décadas depois, as chaminés das indústrias, os encontros religiosos e as lembranças dos imigrantes continuam contando essa história.

Aos 119 anos, o município busca transformar essas raízes em experiências capazes de emocionar moradores, receber visitantes e movimentar a economia.

O plano passa por mostrar que o turismo de Anápolis não depende de cachoeiras, praias ou águas termais. Ele está nos negócios fechados dentro das indústrias, nos pacientes que chegam para tratamentos, nas barraquinhas das festas religiosas e na fé trazida pelos sírios e libaneses.

“Tem muita gente que fala que Anápolis não tem uma identidade. Uma só, realmente, não tem. A cidade tem várias”, resumiu o diretor municipal de Turismo e presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Elias Toufic Bittar em entrevista ao Portal 6.

Turismo como motor da cidade

Para Elias, o turismo deve ser compreendido como uma atividade que atravessa diferentes setores da economia.

Quando uma empresa recebe um técnico de outro estado, um paciente permanece durante semanas em tratamento ou uma competição reúne atletas de outras cidades, hotéis, restaurantes, motoristas e comerciantes são beneficiados.

“O turismo é um motor socioeconômico. Ele movimenta a hotelaria, os restaurantes, os táxis e todo o comércio ao redor. É um ciclo”, afirmou.

Ao Portal 6, a Agente Administrativo, Joyceane Moreno, destacou que essa vocação foi construída ao longo da própria história de Anápolis.

“O comércio local começou a movimentar a cidade. Depois, com a chegada do Daia e das indústrias de fora, o turismo de negócios se consolidou ainda mais”, explicou Joyce.

Trilhos abriram caminho para os negócios

Antes mesmo da criação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), a ferrovia já ajudava a definir o perfil empreendedor do município.

O fim dos trilhos transformou a região central em um ponto estratégico para armazéns, distribuidoras e comerciantes. Produtos eram descarregados, armazenados e enviados para diferentes regiões.

Com o avanço da industrialização e a instalação do Daia, esse movimento ganhou uma nova dimensão.

“O primeiro indicador do turismo em Anápolis é o de negócios. Isso não tem como negar. É a identidade principal da nossa cidade”, destacou Elias.

Vista aérea da entrada do DAIA pela GO-330 (Foto: Divulgação)

Vista aérea da entrada do DAIA pela GO-330 (Foto: Divulgação)

A indústria farmacêutica, a montadora Caoa e as operações realizadas na Base Aérea mantêm um fluxo constante de profissionais no município.

Segundo o diretor, o processo de implantação dos caças Gripen foi um exemplo da foça turística da cidade. Técnicos estrangeiros, equipes da Suécia, da Noruega e de outros países utilizaram hotéis e diferentes serviços da cidade por longos períodos.

Ele salienta que representantes de empresas chinesas e profissionais ligados ao setor farmoquímico também contribuem para esse movimento.

Como reflexo, a rede hoteleira registra ocupação elevada de segunda a quinta-feira. Conforme Elias, os índices costumam variar entre 70% e 80%.

O próximo desafio é criar motivos para que esse movimento continue durante os finais de semana.

Fé que atravessa gerações

Se os negócios sustentam o fluxo durante a semana, a fé ajuda a preencher hotéis, praças e espaços comerciais aos sábados, domingos e feriados.

O gestor informou que turismo religioso é considerado o segundo principal segmento de Anápolis. Ele reúne católicos, evangélicos, ortodoxos e pessoas que, mesmo pertencendo a outras denominações, participam das celebrações e festas tradicionais.

Joyce também destacou que no período do Carnaval, enquanto diferentes cidades concentram programações carnavalescas, Anápolis recebe participantes do Congresso da Mocidade Evangélica de Anápolis (Comep).

“O Comep é o evento religioso que mais movimenta a cidade. Recebemos muitas pessoas de outros municípios, e isso gera oportunidades para quem trabalha com alimentação, hospedagem e comércio”, disse Elias.

O Comepe consolidou Anápolis como um dos principais destinos do turismo religioso evangélico em Goiás. (Foto: Instagram/@comepeoficial)

O Comepe consolidou Anápolis como um dos principais destinos do turismo religioso evangélico em Goiás. (Foto: Instagram/@comepeoficial)

A Marcha para Jesus e o Canto em Prosa também atraem participantes de diferentes localidades.

Na tradição católica, o Santuário de Sant’Ana, as festas de padroeiros e as barraquinhas formam um circuito que mistura devoção, convivência e gastronomia.

“As barraquinhas fazem parte do circuito religioso e gastronômico. Elas geram renda para pequenos empreendedores e produtores que ficam vários dias vendendo”, explicou o diretor.

Algumas festas chegam a arrecadar mais de R$ 200 mil. Além das comunidades católicas, os espaços costumam receber evangélicos e visitantes de outras religiões, mostrando como essas celebrações ultrapassam os limites das igrejas.

Maior barraquinha de Anápolis, na Igreja Sao Francisco de Assis (Foto: Reprodução/Instagram/@saofrancisco.anapolis)

A fé trazida pelos sírios e libaneses

A história religiosa de Anápolis também passa pelas famílias sírias e libanesas que chegaram ao município ao longo do século passado.

Elias relata que os imigrantes prosperaram no comércio, mas sentiam falta de um espaço onde pudessem manter a religião e os costumes trazidos do Oriente Médio.

Foi então que cinco integrantes da comunidade doaram um terreno para a construção da Igreja Ortodoxa de Anápolis.

“Eles se perguntaram como conseguiriam criar raízes aqui. A resposta foi trazer a fé, porque era tudo o que tinham”, acentuou.

A igreja passou a ser não apenas um templo, mas um ponto de encontro. Missas, casamentos, cafés e ações beneficentes ajudaram a preservar a ligação entre as famílias.

Igreja Ortodoxa São Jorge preserva a história da comunidade sírio-libanesa em Anápolis. (Foto: Google Maps)

Igreja Ortodoxa São Jorge preserva a história da comunidade sírio-libanesa em Anápolis. (Foto: Google Maps)

Para Elias, o prédio representa o principal bem material deixado pela comunidade sírio-libanesa no município.

“A igreja é o maior símbolo cultural da nossa colônia em Anápolis. É o que representa aquilo que os imigrantes tinham de mais valioso: a fé”, afirmou.

Painel guarda parte dessa memória

Além do valor religioso, a Igreja Ortodoxa chama atenção pelo patrimônio artístico.

Na década de 1990, um artista vindo da Grécia trabalhou durante aproximadamente quatro anos na produção de um painel de madeira em mogno. O templo também guarda ícones religiosos trazidos do exterior.

Painel de mogno esculpido por um artista grego é um dos principais patrimônios artísticos da Igreja Ortodoxa São Jorge. (Foto: Google Maps)

Painel de mogno esculpido por um artista grego é um dos principais patrimônios artísticos da Igreja Ortodoxa São Jorge. (Foto: Google Maps)

O diretor informou que está em estudo a possibilidade de tombamento da igreja e do painel. A intenção é preservar o espaço e, futuramente, criar um museu dedicado à trajetória da comunidade sírio-libanesa.

“Se esse patrimônio desaparecer, ficarão apenas as histórias. Por isso, queremos proteger a igreja e o painel, que são os bens físicos deixados pela colônia”, explicou Elias.

A expectativa também é retomar festas beneficentes e culturais abertas à população. No passado, os encontros reuniam comidas típicas, danças e produtos ligados à tradição árabe.

Caminhos de fé e experiência

Outro projeto voltado ao turismo religioso é o Caminho Santos, desenvolvido em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O gestor detalha que a proposta é atrair peregrinos que viajam para Trindade e apresentar Anápolis como uma extensão do roteiro. A rota já foi testada e validada e deverá ser apresentada a agências interessadas em comercializar pacotes.

Também está prevista a criação da Rota Franciscana, com passagens por igrejas, museus, conventos e outros espaços religiosos.

A intenção, segundo Elias, é oferecer mais do que visitas rápidas.

“Hoje, o turismo não é somente chegar, tirar uma foto e ir embora. Queremos que a pessoa participe, conheça os bastidores, tome um café da manhã em um convento e faça uma oficina de arte sacra”, explicou.

No Jardim do Santuário de Sant’Ana, Frei Alex recebeu os visitantes para roteiro rico em histórias integrando o Caminhos Santos. (Fotos Nilze Kelly)

No Jardim do Santuário de Sant’Ana, Frei Alex recebeu os visitantes para roteiro rico em histórias integrando o Caminhos Santos. (Fotos Nilze Kelly)

Alguns trajetos poderão ser percorridos de forma autônoma. O planejamento inclui QR Codes e conteúdos em áudio para contar a história de cada local.

Joyce destacou que o objetivo é trabalhar com as características que Anápolis já possui, em vez de tentar reproduzir modelos de outros destinos.

A estratégia envolve reconhecer a força da indústria, da religiosidade, da gastronomia e da cultura local e transformar esses elementos em produtos turísticos organizados.

Distritos também guardam histórias

Segundo Joyce, Souzânia e Miranápolis deverão ser incluídos nas novas rotas.

Ela destaca que os distritos reúnem espaços religiosos, produtores artesanais, hortas, doces caseiros e pontos históricos ainda pouco conhecidos pelos próprios anapolinos.

“Existem muitas famílias que já produzem alimentos, doces, artesanato e recebem visitantes de maneira informal. O nosso papel é estruturar isso para que essas experiências possam gerar renda e fortalecer o campo”, informou.

Entre as possibilidades estão cafés em espaços religiosos, oficinas, produção de alimentos e pamonhadas com a participação de moradores.

Festa da Banana, realizada anualmente no distrito de Souzânia. (Foto: Arquivo/Prefeitura de Anápolis)

Festa da Banana, realizada anualmente no distrito de Souzânia. (Foto: Arquivo/Prefeitura de Anápolis)

Segundo Elias, a intenção é aproveitar vocações que já existem nos distritos.

“Nosso objetivo é transformar aquilo que já existe em um produto turístico. O turista quer tomar café na fazenda, participar de uma pamonhada, conhecer os costumes das comunidades.”

Em Miranápolis, a intenção é valorizar locais como o cemitério de características góticas e uma igreja que permaneceu inacabada.

Para receber os visitantes, os estabelecimentos deverão ser mapeados e avaliados. Quando necessário, os responsáveis poderão passar por capacitações em parceria com o Sebrae.

“O turismo rural cria oportunidades para que o produtor agregue valor ao que já faz. Quem vem conhecer uma propriedade também consome produtos locais, movimenta pequenos negócios e fortalece toda a comunidade”, afirmou Joyce.

Esporte, saúde e cultura ampliam caminhos

O turismo de Anápolis também inclui pacientes que chegam para implantes capilares, cirurgias oftalmológicas e tratamentos oncológicos.

O gestor destaca que algumas pessoas permanecem por semanas ou meses no município, utilizando hotéis, imóveis de temporada, restaurantes, farmácias e serviços de transporte.

“Tem gente do Brasil inteiro que vem fazer implante capilar e permanece pelo menos uma semana na cidade. Também há pacientes que ficam dois ou três meses em tratamento contra o câncer”, explicou Elias.

Competições de tênis, natação, hipismo, corrida e ciclismo também ajudam a aumentar a ocupação hoteleira nos finais de semana.

15º Circuito Anapolino de Corrida de Rua promovido pela Prefeitura de Anápolis. (Foto: Paulo de Tarso/Prefeitura de Anápolis)

15º Circuito Anapolino de Corrida de Rua promovido pela Prefeitura de Anápolis. (Foto: Paulo de Tarso/Prefeitura de Anápolis)

“Tudo o que envolve esporte traz um reflexo muito positivo para a hotelaria. Quando os hotéis ficam lotados de sexta a domingo, conseguimos movimentar justamente um período que teria uma demanda menor”, destacou.

Além disso, projetos culturais e de economia criativa, como o Quadradinhos de Amor e a Quarta Cultural, criam opções de lazer para moradores e visitantes.

Anápolis inaugura primeira árvore de Natal de crochê no Parque Ipiranga por meio do projeto Quadradinhos de Amor. (Foto: Paulo de Tarso/Prefeitura de Anápolis)

Anápolis inaugura primeira árvore de Natal de crochê no Parque Ipiranga por meio do projeto Quadradinhos de Amor. (Foto: Paulo de Tarso/Prefeitura de Anápolis)

Fazer o anapolino enxergar Anápolis

Mais do que atrair pessoas de fora, o trabalho busca fazer com que o próprio morador descubra lugares e histórias que sempre estiveram ao seu redor.

Para Elias e Joyce, o desafio agora é fazer com que os próprios anapolinos conheçam melhor a cidade.

Há quem passe diariamente diante de uma igreja, uma estação ou um museu sem conhecer a história guardada naquele espaço.

“Temos muitos atrativos que ainda são pouco conhecidos pela própria população. O turismo começa quando o morador passa a valorizar aquilo que a cidade oferece. A partir daí, ele também se torna um divulgador desse patrimônio.”, afirmou Elias .

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Lara Duarte

Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.

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